Carlos Faria:
O «desânimo atingiu o máximo» e «coincidiu com o momento da mudança»

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A ideia de que «o Faial está ao abandono» é resultado de uma perceção de longo prazo, já com mais de duas décadas, segundo a qual esta ilha não acompanha a velocidade de desenvolvimento de outras ilhas. Não é uma impressão nova, mas intensifica-se com a luta partidária.
No início do regime autonómico, o Faial, por ter sido sede de Distrito, tinha um poder de influência política de âmbito regional que assegurou a instalação da sede legislativa na Horta e a repartição do poder executivo pelas três cidades capitais do regime anterior.
A sinergia desta realidade original sentiu-se durante largos anos, mas começou a esbater-se por duas vias: a necessidade de recuperar do atraso das ilhas menos populosas e a força do poder eleitoral reivindicativo das duas ilhas maiores. Já em 1996 a bandeira do Faial abandonado estava hasteada bem alta com outras palavras.
Depois seguiu-se um período de menorização do Faial, em parte disfarçado pela necessidade de reconstrução devido ao sismo de 1998, mas outros investimentos ficaram à espera para a ilha não se tornar num estaleiro, como foi politicamente dito por líderes locais então no poder e complementado com argumento «small is beautiful».
Em seguida, quando nas ilhas maiores os projetos de investimento eram realizados com perspetivas de longo prazo e maiores que as necessidades do momento (SCUT, Porto da Praia da Vitória, Portas do Mar, etc.), no Faial, os projetos eram apresentados e depois encolhidos, faseados ou não realizados, alimentando o confronto político e iniciando o desprestígio da classe defensora da ilha com a ideia de subserviência e da sensação de que o Faial estava a ficar para trás. Foi a fase de encolhimento da baía norte do porto da Horta, da não realização do estádio Mário Lino ou do faseamento e não realização da segunda fase da Variante.
Parte desta perda foi suavizada com obras inadiáveis e uma estratégia de pequenas obras de proximidade, que permitiu disfarçar o declínio global com contentamentos individuais. Assim, enquanto a maior estrada regional do interior da ilha passou de asfalto a bagacina, pequenas canadas receberam beneficiações e os serviços públicos passaram a limpar testadas privadas, a fornecer materiais para pequenas intervenções não estruturais, até não se conseguir chegar a tanto do pequeno que se fazia para evitar o importante maior.
O declínio global da ilha e perda de capacidade reivindicativa foi tanto que o poder regional sentiu que era incólume fazer uma liquidação do Faial.
Foi possível retirar a Rádio Naval da Horta, que nem era uma reivindicação popular na ilha de destino; apoiar os investimentos em fábricas de conserva noutras ilhas à custa de se fechar a do Pasteleiro; criar concursos de aproveitamento de zonas termais para várias ilhas, mas com critérios discriminatórios desfavoráveis para o Varadouro; surgirem ideias de plataformas logísticas noutras ilhas que prejudicavam mais intensamente esta.
As acessibilidades de transportes aéreos começaram a declinar, só que o descontentamento popular atingiu dimensões significativas, por já ser palpável uma tão grande secundarização do Faial perante ilhas maiores e uma aproximação acelerada da ilha vizinha na recuperação do seu atraso no passado face ao Faial.
Este desânimo atingiu o máximo e pouco depois coincidiu com o momento da mudança de ciclo político numa perspetiva de recuperação brusca do declínio de décadas.
O Faial nos últimos cinco anos assistiu a um crescendo de novos investimentos sem redução; o projeto da Variante foi ampliado e melhorado, o Tecnopolo MARTEC saiu de facto do papel; a Escola do Mar foi certificada e entrou em funcionamento; e, finalmente, uma residência universitária está a nascer em cerca de 50 anos de Universidade dos Açores. Mas havia um legado grande de atrasos a recuperar e perspetivas muito elevadas de inversão da situação.
Não é viável recuperar em menos de cinco anos a menorização a que o Faial foi votado, só que a luta partidária exige ritmos de recuperação que se sabia impossíveis de alcançar para anseios tão altos. Infelizmente o aeroporto tem estado a marinar em vez de ter resultados rápidos, bem como o aumento de acessibilidades. Estes eram símbolos do marasmo do passado.
Contudo, numa apreciação de longo prazo, é evidente que as ilhas que no passado não tiveram uma capital de distrito, desde o início da Autonomia viram o seu desenvolvimento socioeconómico melhorar mais significativamente que o do Faial e o deste não teve o mesmo crescimento que o das outras ilhas que já tiveram uma capital de distrito.
Assim, o Faial ainda está em ressaca do longo desânimo devido à redução de influência da ilha, da desvalorização desta face ao conjunto regional e da liquidação em que foi espoliado. Estas dores acumuladas por décadas e em ressaca são facilmente manipuladas por qualquer agitação dos problemas e luta partidária, pois é muito fácil gerar descontentamentos quando a ansiedade é muito elevada, mas, de facto, o Faial não está ao abandono, só que também o ritmo de desenvolvimento da ilha ainda não atingiu a aceleração que era desejada pelos faialenses.
Por agora é uma síntese que parece longa, mas o Faial tem 50 anos de história em Autonomia e não se pode falar dos últimos quatro sem ver o historial de contexto.


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