João Garcia:
«Os faialenses comparam as condições locais com as de outras ilhas, percebendo a estagnação em que vivemos»

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Ressalvo que esta análise não se centra apenas nos últimos cinco anos, mas abrange as últimas décadas. Precisaria de muito mais espaço para abordar o abandono entre muitos outros sectores e causas, mas, para não tornar a leitura maçadora, concentro-me aqui no essencial:
Na minha opinião, o Faial enfrenta hoje um abandono progressivo e multifacetado, que se manifesta em quase todos os setores da ilha. A centralidade política vem sempre a diminuir, refletindo-se na redução da presença de instituições e serviços que outrora dinamizavam a vida local.
Na economia, setores estratégicos enfraqueceram: a indústria perdeu relevância e a única que subsiste enfrenta graves problemas financeiros e de gestão. O turismo cresce, mas a dependência de um único setor é arriscada, sobretudo numa ilha que, nos últimos cinco anos, não registou nenhum investimento privado significativo. Mesmo na náutica de recreio e em outras actividades ligadas ao mar, onde a pujança é muita durante o verão, mantemos uma sazonalidade muito acentuada. Quem investiu em alojamento ou pequenos negócios tinha a legítima expectativa de prolongamento da época e de maior permanência média dos visitantes, mas tal não se concretizou. A promoção da ilha é difusa e pouco clara. Não conheço do município, nem do governo uma estratégia definida para este setor.
Nas acessibilidades, apesar do aumento das dormidas e dos desembarques, o Faial continua a viver na incerteza. Às portas de cada verão IATA, empresários e investidores não sabem o que esperar, situação que agrava a perceção de abandono e inibe a criação de valor. Quem quer oferecer o melhor da ilha vê-se limitado pela falta de previsibilidade.
Também as zonas balneares revelam esta ausência de estratégia. Não houve melhorias significativas, não surgiram novas áreas de lazer e, inevitavelmente, os faialenses comparam as condições locais com as de outras ilhas, percebendo ainda mais a estagnação em que vivemos.
As infraestruturas estruturantes estão degradadas ou adiadas: o porto perdeu importância face a outras ilhas, estradas e bermas estão ao abandono, os parques de estacionamento permanecem provisórios e a reabilitação urbana é uma miragem. O património histórico carece de investimento, enquanto muitas casas na cidade da Horta se degradam e caem em ruínas, transmitindo uma imagem desoladora. Para não falar do Parque de Invernagens, que ficou apenas nas infraestruturas básicas e já foi adiado cinco anos, o único investimento anunciado para o Porto da Horta e que acabou por falhar. O Largo Manuel de Arriaga e toda a zona ribeirinha ilustra ainda mais a ausência de visão estratégica para o porto, enquanto há decisões que são tomadas sem consulta aos faialenses, não se sabendo verdadeiramente o que se está a fazer.
No setor cultural, eventos tradicionais perderam a diferenciação original, a Semana do Mar, em tempos uma referência náutica, tornou-se apenas mais um festival de verão, sem identidade própria.
A comunicação social local atravessa uma crise profunda, incapaz de atrair novos profissionais, perdendo relevância e enfraquecendo o debate público. Esta realidade não resulta apenas de dificuldades financeiras ou da dimensão do mercado: foi também alimentada pela conveniência política em manter uma imprensa frágil, pouco crítica e dependente. O resultado é a ausência de uma comunicação social verdadeiramente ativa, capaz de formar opinião e atrair novos valores para o jornalismo. Temos muita falta de pessoas que tenham a capacidade de influenciar a opinião pública a partir do Faial para toda a Região, perdemos referencias em quase todas áreas.
Por fim, o município não apresenta uma estratégia clara para nenhuma área, muito dependente do PRR, limitado pelos prazos, até mesmo na Habitação. As medidas aplicadas em várias áreas pela CMH não são mensuráveis, impedindo avaliar progresso ou exigir resultados.
Tudo isto contribui para que a população sinta um abandono institucional, económico, social e urbano, acentuando a insularidade e acelerando a perda de centralidade do Faial nos Açores.


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