Márcia Caldeira:
«Muitas das obras públicas que se fazem são de má qualidade»

Fotografia com direitos reservados
Na minha opinião, infelizmente, o Faial está longe de caminhar no sentido do verdadeiro desenvolvimento. As estradas estão em péssimo estado, algumas delas num nível que envergonha qualquer cidadão que aqui vive ou visita a ilha. O que se tem visto, nos últimos anos, é uma clara prioridade dada à realização de eventos que — embora possam ter o seu lugar — surgem, demasiadas vezes, em detrimento de uma verdadeira estratégia de desenvolvimento local.
Muitas das obras públicas que se fazem são de má qualidade, revelando falta de planeamento, fiscalização e visão estratégica. Tudo isto acontece enquanto continuamos a ser a região mais pobre de Portugal. E é precisamente esse cenário de empobrecimento que está a ser aproveitado por estrangeiros com maior capacidade financeira, que compram terrenos e imóveis, numa lógica especulativa, à qual os locais não conseguem competir.
Há décadas que se seguem políticas erradas, que não criam riqueza nem oportunidades reais. Não existe investimento privado de relevo, e a maioria da população vive na expetativa de conseguir um emprego público. Mas nem o próprio funcionalismo público responde como devia: basta ver o estado do setor da saúde, com falhas gritantes que afetam diariamente a vida das pessoas.
Também não concordo com a política de habitação que tem sido seguida. A construção de bairros sociais, muitas vezes sem planeamento nem acompanhamento adequado, resultou em zonas degradadas e com problemas sociais agravados. As acessibilidades à ilha continuam fracas, o que isola ainda mais o Faial e limita o nosso potencial.
Acresce a isso o facto de a ilha ter um forte potencial agrícola, que tem sido sistematicamente mal orientado. Em vez de se promoverem políticas de desenvolvimento estratégico, com aposta na modernização, na formação e no escoamento dos produtos, continua-se a alimentar uma lógica de dependência dos subsídios. Isto não só estagna o setor, como perpetua a falta de ambição e de inovação.
Os Açores têm uma posição geográfica única, que poderia ser aproveitada para projetos de inovação, logística, ciência e turismo sustentável. No entanto, essa visão continua ausente. Fala-se muito, mas faz-se pouco. E o Faial, infelizmente, continua a perder terreno.


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