O Faial está ao abandono?
O debate político, que, com as redes sociais, deixou de ser exclusivo dos “profissionais da política”, ganhando protagonistas entre o “cidadão comum”, tem vindo a recrudescer nas últimas semanas em face da aproximação das Eleições Autárquicas de 2025.
Não é possível fazer uma súmula do que candidatos e partidos, por um lado, e cidadãos em geral, por outro, já disseram e escreveram quanto a ideias, propostas, elogios e críticas na Comunicação Social (incluindo as redes sociais), tal o caudal da informação produzida.
Longe vai o tempo em que se esperava pela chegada do jornal, se sintonizava a rádio ou se organizava a vida para ver o Telejornal com o intuito de saber o que se estaria a acontecer.
Entretanto, passou-se da avidez de querer saber à quase rejeição das novidades, perante o massacre a que se está sujeito, através dos mais diversos meios, que debitam constantemente todo o tipo de informações.
O responsabilidade de informar bem tornou-se um desafio permanente e cada vez maior.
Não sendo possível a este portal fazer uma síntese de toda a efervescência informativa à volta, em específico, das Eleições Autárquicas de 2025, próximo grande acontecimento político local, procurou-se não passar ao lado do acontecimento.
A partir de uma ideia que tem vindo a ganhar adeptos e contestadores, principalmente nas discussões políticas sobre o futuro da nossa ilha, que também se joga nas Autárquicas este portal lançou a um conjunto de personalidades faialenses um inquérito perguntando se o Faial está ao abandono, ou se, pelo contrário, se encontra no caminho do desenvolvimento
O objetivo foi obter uma visão abrangente sobre o assunto e, de certo modo, testar a massa crítica que possa existir na sociedade faialense.
Claro que não se trata de um trabalho exaustivo, sendo, somente, um contributo para uma reflexão necessária.
Enquadramento da questão
Foi o seguinte o texto enviado aos cidadãos questionados:
As redes sociais, hoje em dia, proporcionam a oportunidade de se debater em público as preocupações da comunidade em que nos inserimos.
É verdade que o que vemos partilhado nem sempre obedece a um critério de bom senso. Porém, se tivermos o cuidado de separar o trigo do joio, encontramos nas redes sociais informação importante e reflexões úteis.
Nos tempos que correm, ignorar as redes sociais é, praticamente, impossível, e não será, porventura, a atitude mais correta. Elas fazem parte da nossa vida, quer queiramos, ou não, a não ser que se opte pela infoexclusão.
Ultimamente surgiu uma ideia, que tem sido exposta, frequentemente, nas redes sociais, nomeadamente no Facebook, segundo a qual «o Faial está ao abandono».
Este portal resolveu tentar avaliar se, realmente, esta ideia corresponde àquilo que se passa. Por isso, julgou-se importante questionar alguns faialenses sobre se consideram que a nossa ilha está ao abandono, ou se, pelo contrário, o Faial se encontra no caminho do desenvolvimento.
Não se trata de um inquérito de natureza científica, mas, somente, um género jornalístico, procurando dar notícia da perceção que os habitantes desta ilha têm da realidade em que vivem.
É evidente que esta questão não permite uma resposta do tipo preto no barco. Contudo, é possível, em poucas palavras, transmitir a ideia que se tem sobre o assunto em causa.
As respostas serão um contributo para o debate e para ajudar a que se tome consciência do estado da nossa ilha.
Esta é uma maneira responsável de abordar uma preocupação geral da população, através de uma peça jornalística, ou seja, dando valor ao jornalismo sério e rigoroso.
Os inquiridos
O inquérito foi pensado para ser enviado a 24 pessoas que residissem no Faial e a 12 radicadas noutras ilhas (duas dúzias e uma dúzia, números simbólicos), no continente, nos Estados Unidos e no Canadá, nascidos nesta ilha. Para alargar a “amostra” a pergunta acabou por ser enviada a 52 pessoas residentes no Faial e a 14 estabelecidas na Diáspora. Responderam 28 no total.
Procurou-se abranger um leque multifacetado de pessoas segundo a idade, género, profissão, local de residência e notoriedade no meio local.
Tendo em conta o momento pré-eleitoral em curso e a natureza do assunto alvo do inquérito, foram questionados cidadãos identificados com o que, vulgarmente, em política, se classifica como Direita e Esquerda, bem como cidadãos cujas opções políticas não são publicamente conhecidas. No entanto, como nem todos responderam, a equidade pretendida pode não ter sido conseguida como se desejava.
As respostas
«Não sei se fomos abandonados nestas questões, ou se nós próprios as abandonámos». Pedro Garcia, na sua resposta ao inquérito «O Faial está ao abandono?», lança esta dúvida depois de abordar vários temas pendentes relacionados com o Porto da Horta, o Turismo, a Ciência do Mar, as acessibilidades, a Variante, a Semana do Mar, a Cultura.
Luís Campos, no âmbito do mesmo inquérito, segue, também, pelo caminho da dúvida: «Talvez tenhamos apenas de apurar que tipo de desenvolvimento queremos».
O inquérito provavelmente tem o mérito de chamar a atenção para a importância de se analisar e refletir sobre o desenvolvimento que os faialenses pretendem para a sua terra, atitude destacada pelo arquiteto e o médico-veterinário atrás referidos.
De um modo geral as 29 respostas, de forma mais genérica, ou apresentando certos detalhes, levantam questões prementes, que, no mínimo, devem merecer atenção, sendo assim, um contributo para o Faial se consciencializar sobre os desafios que enfrenta.
Passado recente
Uma parte dos inquiridos, respondendo ao inquérito, lançou um olhar sobre o nosso passado recente.
Carlos Faria, por exemplo, destacou que «o Faial ainda está em ressaca do longo desânimo devido à redução de influência da ilha, da desvalorização desta face ao conjunto regional e da liquidação em que foi espoliado.»
Ernesto Jorge, por seu lado, explicou a perda de influência da ilha do seguinte modo: «É verdade que [o Faial] esteve esquecido durante muitos anos, talvez porque somos poucos e o peso eleitoral da nossa ilha nunca incomodou quem nos governava.»
Herlander Pacheco concretiza a análise com exemplos: «Ao longo dos últimos anos foram executadas várias obras, que foi dinheiro deitado para o lixo. Falo do famoso parque de estacionamento coberto; falo da intervenção do Largo do Infante; do “crime” em frente à Estalagem de Santa Cruz, etc. E com isso outras obras essenciais foram sendo adiadas e até mesmo canceladas.»
Apreciação positiva
Há um conjunto de respostas que refletem uma apreciação positiva do momento que atualmente se vive em termos de desenvolvimento.
«Desde há alguns, poucos, anos a esta parte, o Faial nunca teve tantas obras em construção», segundo Aida Alves.
Mário Neves, respondendo diretamente à pergunta lançada no inquérito concluiu, na mesma linha: «Numa altura em que se está a desenvolver no Faial o maior investimento alguma vez visto, é uma exagero [dizer que o Faial está ao abandono].»
Olhando em frente, Diva Bettencourt expressou um visão otimista: «Penso que o Faial caminha para a evolução, temos cada vez mais jovens interessados no desenvolvimento da ilha.»
Também com otimismo Eduardino Freitas encontrou uma razão para justificar que não se esteja tão bem quanto o desejável: «Há obras atrasadas? Sim, mas julgo que devemos ter atenção à quantidade de obras em curso e à mão-de-obra disponível.»
Numa posição prudente Paulo Dutra sugeriu que se espere para ver, mas, não deixa de reconhecer que o Faial está a ver olhado de forma diferente: «Se agora estamos no caminho do desenvolvimento, vamos esperar para ver… Para já, este Governo pelo menos começou a olhar para o Faial de outra forma e iniciou vários investimentos estratégicos há muito reivindicados.»
Apreciação negativa
Em contraponto com as opiniões atrás mencionadas, uma série de inquiridos manifesta-se negativamente sobre o estado atual da ilha.
João Garcia fez a síntese: «[Existe] um abandono institucional, económico, social e urbano, acentuando a insularidade e acelerando a perda de centralidade do Faial nos Açores.»
«Não existe investimento privado de relevo, e a maioria da população vive na expetativa de conseguir um emprego público», de acordo com Márcia Caldeira.
Andrea Porteiro interrogou-se sobre «como podemos atrair jovens altamente qualificados para a ultraperiferia, quando estes têm de suportar custos equivalentes aos das capitais europeias?»
O mesmo tipo de preocupação foi acentuado por Luís Campos: «Como podemos ter médicos, enfermeiros, professores, se podem vir a não ter onde morar?»
Outros inquiridos apontaram situações concretas: «A reabilitação dos edifícios devolutos da cidade que estão abandonados, com elevada degradação, e muitos em fase de ruína, apresentando perigo iminente para quem circula» (Fernando Nascimento).
«[O] estado de degradação de bermas e caminhos [é] uma situação que não se verifica, por exemplo, nas ilhas vizinhas» (José Leitão).
«As ribeiras estão uma vergonha» (José Alfredo Rosa).
«Costumo ir anualmente ao Faial e sou oriunda das Angústias, mesmo à beira de Porto Pim, e gostaria de ver esta zona reclassificada» (Maria José Dionísio).
«Do que gostava mais era que a nossa doca, que tanto movimento tem, fosse equipada com tudo; o nosso aeroporto também» (Rui Maciel).
David Medeiros situou-se no ponto de equilíbrio: «Existem áreas que eu considero em que a ilha do Faial está a desenvolver-se, mas também há áreas em que penso que realmente a ilha está um pouco ao abandono.»
A atitude dos faialenses
Algumas respostas realçaram a atitude dos faialenses sobre os seus próprios problemas, que Isabel Campos resumiu: «As pessoas são em geral muito acomodadas e têm pouca vontade de exigir que as coisas sejam feitas.»
A comparação com o Pico foi inevitável perante a pergunta lançada no questionário, ficando o Faial em desvantagem: «O Pico está muito à frente, tem uma cultura de zelar pelo que é seu», disse Daniel Rodrigues.
No mesmo campo de observação Pedro Garcia deixou um desafio: «Reflitamos sobre a importância que terá tido, há cerca de 20 anos, o processo de classificação da Paisagem da Vinha do Pico, como projeto aglutinador para o momento de reconhecido dinamismo e positivismo que a ilha vizinha vive hoje.»
O aspecto político
Algumas das respostas não fugiram à condicionante política, natural na conjuntura presente.
«O facto de termos tido uma governação ao nível camarário de 32 anos sempre da mesma cor política fez com que a cidade e a ilha estagnassem», escreveu João Pedro Amador.
Mariazinha Peixoto lançou uma interrogação: «Ouvia-se que a Câmara e o Governo eram da mesma cor política e por isso a Câmara não tinha coragem de enfrentar os seus e fazer ouvir a voz dos faialenses! Mudou alguma coisa?»
Para Paulo Jorge um dos problemas do Faial reside no facto de ter sido «a primeira ilha (…) abandonada em termos de cargos de Secretários e Diretores, com o atual Governo».
Pragmático, Mário Braz Silva falou de prioridades: «Penso que se tem feito muita coisa, lá está, muitas das coisas se calhar não eram prioridade mas trazem votos. Outras que eram de maior importância ficam para trás porque pelo contrário retiram popularidade e os ditos votos.»
José Jorge Garcia lembrou que existiu um tempo que não deve ser esquecido: «Houve alguns [governantes] que fizeram o que de mais importante o Faial tem: a avenida marginal, o aeroporto, a estrada da Espalamaca, a rua 5 de Outubro, uma parte do nosso antigo liceu, etc.»
Anthony Nunes tocou numa questão que está presente, cada vez mais, no quotidiano faialense: »Como o Victor Rui Dores me disse uma vez, queremos visitas e não turistas.»
Paulo Gonçalves elaborou a súmula: «O investimento público em 2025 foi de aproximadamente ~10,2%. Ou seja, ~1,8 × acima da sua quota demográfica. Parece que não está votado ao abandono!»
Por fim, Diogo Duarte pôs o dedo na ferida: «O caminho do desenvolvimento pleno do Faial só se fará quando os políticos faialenses se alinharem mais na defesa da sua ilha, nas suas justas reivindicações, do que na acérrima defesa dos seus partidos.»
SEGUE-SE, POR ORDEM ALFABÉTICA, A RESPOSTA, NA ÍNTEGRA, DE CADA INQUIRIDO, UMA POR PÁGINA
ÍNDICE
Página 1 — O Faial está ao abandono?
Página 2 — Andrea Porteiro
Página 3 — Anthony Nunes
Página 4 — Carlos Faria
Página 5 — Daniel Rodrigues
Página 6 — David Medeiros
Página 7 — Diogo Duarte
Página 8 — Diva Bettencourt
Página 9 — Eduardino Freitas
Página 10 — Ernesto Jorge
Página 11 — Fernando Nascimento
Página 12 — Herlander Pacheco
Página 13 — Isabel Campos
Página 14 — João Garcia
Página 15 — João Pedro Amador
Página 16 — José Alfredo Rosa
Página 17 — José Jorge Garcia
Página 18 — José Leitão
Página 19 — Luís Campos
Página 20 — Márcia Caldeira
Página 21 — Maria José Dionísio
Página 22 — Mariazinha Peixoto
Página 23 — Mário Braz Silva
Página 24 — Mário Neves
Página 25 — Paulo Dutra
Página 26 — Paulo Gonçalves
Página 27 — Paulo Jorge
Página 28 — Pedro Garcia
Página 29 — Rui Maciel



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