Pedro Garcia:
«Falta-nos um interlocutor qualificado na mais alta esfera governativa regional»

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Da formulação da pergunta fica a dúvida: O Faial foi abandonado pelo poder regional, ou foi abandonado pelos faialenses que têm condições para liderar?
No que toca ao primeiro domínio, o que perceciono não é tanto um abandono, mas mais um desempoderamento.
Desse mal não sofrerá apenas o Faial, mas também a maior parte das oito ilhas que assistem a uma concentração progressiva da população, da economia e sobretudo da decisão política na ilha que se quer assumir como capital dos Açores.
Neste âmbito, o Faial sofre como as outras.
Mas sofre um pouco mais acentuadamente, porque era (é) um dos três bicos do chapéu da tripolaridade.
Sofre também acentuadamente porque no presente quadro governativo (que por força dos resultados eleitorais e consequentes coligações, até é um quadro com alguma divisão de forças por algumas ilhas) o Faial não tem nenhum representante no pequeno e mais restrito círculo de intervenientes de maior influência.
Falta-nos um interlocutor qualificado e capacitado junto da mais alta esfera governativa regional.
No que respeita ao segundo grupo, dos próprios faialenses, o assunto é mais complexo e talvez mais importante, porque no primeiro caso, excetuando alguma pontual conjuntura favorável, será sempre mais difícil inverter a tendência geral de centralização.
Ou seja, interessa muito aquilo que nós podemos fazer por nós, até para que possamos reivindicar junto dos “outros” aquilo que precisamos e merecemos, de uma forma ordenada, consciente, com base num pensamento de fundo estratégico.
Acresce que, o Faial, pelo facto de ser uma ilha de dimensão populacional pequena no contexto da tripolaridade (~1/9 de São Miguel, ~1/4 da Terceira), mas que mantém alguns equipamentos estruturantes, que nem todas as ilhas têm, como um Hospital, Secretarias e Direções Regionais, um polo de investigação da Universidade, ensino secundário e profissional, etc., acaba por ser uma ilha com relativamente elevada concentração de população com formação superior, ou acima, o que nos deveria favorecer especialmente para uma capacidade de formação de massa crítica, essencial para a tal criação de uma autoconsciência de ilha, que nos permita delinear estratégias e definir prioridades.
Procurando concretizar, estas são as perguntas que me assolam quanto ao futuro do Faial, para as quais não tenho certeza de que estejamos bem encaminhados.
— Qual é o eixo estruturante de desenvolvimento do Faial e quais são as intervenções fundamentais para a sua viabilização?
— É o Porto da Horta? Se sim, temos um plano estruturado, com base numa estratégia, para o seu desenvolvimento? O que está planeado neste momento para o Porto a Horta? Os faialenses já discutiram e concluíram o que se pretende para o Porto?
— É o Turismo? Ou esse é um eixo importante, mas não diferenciador, comum a outras ilhas, que necessita precisamente de uma diferenciação da ilha para se desenvolver?
— Será a Ciência do Mar? Será que a Escola do Mar chegará a fornecer a formação de nível superior para que foi inicialmente pensada? Será que se vai afirmar como polo agregador de de uma comunidade flutuante de alunos vindos de fora? Será que o Tecnopolo Martec vai cumprir os seus propósitos programáticos, muito para além da obra de construção civil, como centro de Investigação e Desenvolvimento Estará bem preparado o salto entre a construção e o empreendimento final?
— E as acessibilidades? O Projeto que se está a desenvolver para o Aeroporto, que objetivos tem? Que dimensão de rotas ambiciona? Está correto? Que viabilidade real tem o projeto, a que prazo, tendo em conta o seu muito avultado valor estimado? Como pesamos numa balança a importância estratégica de uma ampliação do Aeroporto com a reestruturação do Porto da Horta?
— A Variante que estamos a construir foi projetada em função de requisitos identificados com as nossas necessidades específicas, procurando qualificar globalmente o nosso espaço urbano, ou foi desenhada num gabinete especializado em vias, para se avançar com obra, sem grande atenção para com a cidade?
— E a Semana do Mar? O Festival Náutico, tema da festa, ainda é aspeto central? Como se estrutura a festa na cidade após a realização de obras na Avenida, Largo do Infante, Rua do Peter? Será que a nova Festa Branca, no aniversário da cidade, roubou o cenário e protagonismo à Semana do Mar? O Clube Naval, autor da centelha inicial da festa e sempre organizador do Festival, está de saúde, tem condições para trabalhar condicentes com a sua importância?
— E a Cultura? O Museu da Horta será reestruturado? Como se explora o filão histórico de uma Cidade numa Baía com geografia única, que teve importância especial em diversos momentos históricos? Está em desenvolvimento um projeto para musealizar os Cabos Submarinos. Como se integra esse tema numa estratégia geral do Museu da ilha?
Não sei se fomos abandonados nestas questões, ou se nós próprios as abandonámos. Provavelmente, um pouco de ambas. Mas sinto que não há neste momento um propósito agregador claro, uma perspectiva de futuro. E salta-me à vista que é capaz de haver gente capaz de fazer coisas por cá.
Por exemplo, reflitamos sobre a importância que terá tido, há cerca de 20 anos, o processo de classificação da Paisagem da Vinha do Pico, como projeto aglutinador para o momento de reconhecido dinamismo e positivismo que a ilha vizinha vive hoje.
Bem-haja pelo trabalho de pôr a nossa gente a falar. É um dos aspetos a que me refiro no texto, e que precisamos de fazer mais e mais.


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