CAPELINHOS Diário do Vulcão
Esquadra preparada para «tomar todo o povo da ilha»
6.º DIA, QUARTA-FEIRA, 2 DE OUTUBRO DE 1957
À medida que o Vulcão crescia e ganhava forma o assunto preenchia cada vez mais espaço nos diários.
«O Ministro do Interior telefonou ontem ao Governador do Distrito», noticiava o Correio da Horta, enquanto O Telégrafo inseria um artigo de fundo (melhor espaço da edição logo abaixo do cabeçalho do jornal) intitulado «O Vulcão do Capelo e os Sábios…»
O “Correio” publicou uma fotografia do Farol dos Capelinhos, com a seguinte legenda: «Na sua torre de 35 metros de altura, sobranceira ao vulcão em actividade, deixou de brilhar, desde o dia 29 de Setembro, o potente farol – aviso seguro à navegação marítima e aérea, demandando aquelas paragens. O farol agora abandonado, encimando uma rocha, a 60 metros do mar, foi construído em 1901, lançando solenemente a sua primeira pedra o Rei D. Carlos I.»
Através do Correio da Horta ficou a saber-se que a Direção Geral dos Serviços Geológicos enviaria para o Faial «uma missão a fim de estudar» a erupção e que na sexta-feira seguinte chegaria à ilha o meteorologista Soromenho Quintino. No Porto da Horta encontrava-se o navio patrulha São Tomé «autorizado a cumprir qualquer missão relacionada com o estudo da erupção dos Capelinhos», conforme atrás referido.
O Correio da Horta prosseguiu com o relato do comportamento do Vulcão, que parecia «haver entrado em nova fase com explosões mais distanciadas, (uma hora de intervalo, aproximadamente), mas sempre de grande impetuosidade».
«A ilhota que está quase a formar-se ultrapassa 600 metros de diâmetro, localizando-se no centro a cratera do vulcão que terá o diâmetro de 500 metros», contou o vespertino, dizendo que o vento, forte naquele dia, continuava «a impelir para o mar a gigantesca coluna de lava e fumo negro expelidos».
«A coluna de fumo branco que se eleva na atmosfera, originada pelo vulcão, atinge 7 mil metros», escreveu o jornal, baseado numa informação de José Agostinho, que no dia anterior pelas 21 horas e na manhã do próprio dia da edição voltara a sobrevoar a zona dos Capelinhos.
O “Correio” deu a conhecer o surgimento de «restos de lavas sobre o mar» junto à Ponta da Espalamaca e na Ponta dos Rosais, em São Jorge.
Quase uma semana após os primeiros sinais da erupção, a população estava «mais calma, por parecer não ter aumentado a actividade vulcânica», notava o redator, após ter recebido informações do Capelo, acrescentando que os capelenses começavam a denominar como «Ilhéu do Espírito Santo» a ilhota que emergia da «convulsão vulcânica».
Enquanto isto, O Telégrafo dava à estampa o teor de alguns telegramas que recebera. Um desses telegramas era do colaborador do jornal professor Fernando Melo, que se encontrava em Angra. O texto confirmava o que José Agostinho relatara anteriormente: «Centenas pessoas presenciaram noite passada direcção Faial forte clarão emanações atmosféricas relacionadas vulcão ponto Povo terceirense muito impressionado» [o texto está reproduzido na linguagem própria dos telegramas].
O Telégrafo referiu-se, também, à conversa telefónica do ministro do Interior com o Governador Freitas Pimentel, que o inteirou dos acontecimentos.
Sobre as reações da erupção escreveu o matutino que, se o «desenvolvimento da ilhota» continuasse no ritmo observado, se previa «a sua ligação com a costa».
No artigo de fundo de O Telégrafo, já referenciado, assinado, como era usual naquele tempo na imprensa faialense, com um pseudónimo (Man Wel), lia-se o seguinte: «Aparece-nos aí um grupo de ‘sábios’ – sapateiros que vão além do chinelo – que tem conseguido alarmar as populações, afirmando que o vulcão fará uma montanha tão alta que de lá escorrerá a lava para cima da freguesia, ou talvez de toda a ilha; que ao largo anda uma grande esquadra para, na altura própria, tomar todo o povo da ilha». O texto verberava os boatos e pedia «o artigo da Lei, sem demora» para quem estava a tentar lançar o pânico entre na população.
A publicação deste artigo mostra que não são in-fundados relatos, ainda hoje aludidos, segundo os quais, durante a erupção, grassaram especulações so-bre consequências desastrosas e fatais para os habi-tantes do Faial, nomeadamente o desaparecimento da ilha.
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