CAPELINHOS Diário do Vulcão
«Gigantesca forja soprada por um fole descomunal»
7.º DIA, QUINTA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE 1957
As atenções sobre a ilha eram mais do que muitas: sobrevoos na zona do Vulcão; mudança de rota de um transatlântico para «observar o mais perto possível» as manifestações vulcânicas, pois «espectáculos destes não se vêem todos os dias», conforme comentou O Telégrafo; telegramas solidários a chegarem diariamente; entrada em cena do ouvidor eclesiástico Silveira de Medeiros; a notícia de que o jornalista Urbano Carrasco, do Diário Popular, estava a caminho da Horta e até a informação de que o ministro do Interior tinha falado com Salazar sobre o assunto colocavam o Faial no centro do mundo. O Telégrafo esgotou algumas edições e pediu a quem tivesse exemplares em sua posse e não precisasse deles que os entregasse na Redação.
O povo confiava no Senhor Espírito Santo e com preces e rezas esperava pela misericórdia divina, segundo a imprensa, que ia pontuando as reportagens com alusões às manifestações religiosas por toda à ilha, corporizadas em peregrinações às proximidades do Vulcão, conforme já descrito.
O ouvidor eclesiástico António Silveira de Medeiros, carismático pároco das Angústias, deu conta, nos dois jornais, da solidariedade do vigário-geral da Diocese de Angra, monsenhor José Pereira da Silva, que fora, igualmente, ouvidor da Horta e pároco da Matriz. O padre Medeiros pediu «calma» e «oração» e disse-se honrado por comunicar «a todos os faialenses» o telegrama do vigário-geral: «Compartilho presente angústia, querido clero, amados faialenses, principalmente, Capelo, Praia do Norte», escreveu o vigário-geral, figura que gozada de grande prestígio no Faial.
A 1 de outubro, decorrera a sessão solene de abertura das aulas do Liceu da Horta. Tanto o Correio da Horta, dois dias depois, como O Telégrafo, só no domingo seguinte, se referiram ao acontecimento com destaque. Não era para menos! O Liceu passava a “Central” com a criação do 3.º ciclo. Ambos os diários elogiaram o Governador do Distrito pelo seu papel nesta causa. O “Correio” publicou na íntegra o discurso de Freitas Pimentel proferido na sessão. Estranhamente, nas reportagens dos jornais não consta que a situação de aflição vivida pelos faialenses tenha merecido qualquer referência dos intervenientes no ato solene. Não parece normal, ou, então, os repórteres optaram pela omissão.
Enquanto o Vulcão passou, pelo menos aparentemente, despercebido no Liceu, o Correio da Horta, pelo contrário, decidiu, em conjunto com os parceiros organizadores, adiar a 2.ª Volta ao Faial em Bicicleta, apesar de a prova estar «a despertar o maior entusiasmo».
O Telégrafo, cujas descrições sobre o comportamento do Vulcão nas edições anteriores parecem ser baseadas em relatos de terceiros, a 3 de outubro revelou o «espectáculo assombroso» a que o seu repórter assistira pessoalmente.
A erupção «apresentou-se» aos olhos do jornalista, na noite de terça-feira, «com uma imponência monstruosa», o que deu lugar à seguinte prosa poética: «A coluna de fumo e gases, elevando-se a milhares de metros, parecia solidificada, pois nem a aragem bastante fresca a conseguia espalhar; o encantamento feérico de dezenas de descargas eléctricas atemoriza e deslumbra a vista; os jactos de lava lançada no espaço a grande altura assemelharam-se-nos a uma gigantesca forja soprada por um fole descomunal; e por fim a ilhota formada com a enorme boca escancarada, vomitando pedras, fumo e fogo deu-nos a ideia de estarmos a assistir, no conjunto, a um quadro verdadeiramente dantesco.»
No mesmo texto o redator de O Telégrafo fez uma descrição objetiva do que se podia observar no dia seguinte de manhã: «As erupções ainda que continuem com a mesma violência são separadas agora por maiores espaços de relativa calma, espaços estes que duram cerca de duas horas para voltar novamente o período de explosão com uma duração de 20 a 30 minutos».
O Correio da Horta, à tarde, confirmava as palavras do colega matutino, acrescentando que «cerca das 8 horas [da manhã de quinta-feira], registou-se uma das maiores erupções verificadas desde o rebentar do vulcão». E adiantava que «a ilhota continua, como é natural, a aumentar de área». O jornal falava num diâmetro de 600 metros, com o ponto mais alto a 50 metros da água do mar. O Telégrafo corroborava: «Na altura em que o ‘monstro’ descansa vê-se distintamente a ilhota com um pequeno penacho de fumo branco a sair da já bem diferenciada cratera.»
Poucas referências aos sismos foram feitas pelos jornais nos dias anteriores, refletindo uma acalmia nesse aspecto.
Entretanto, O Telégrafo saudou a solidariedade demonstrada pelos lavradores que estavam a receber, nalgumas freguesias, os «irmãos» do Canto do Capelo e do Norte Pequeno, nas «suas próprias casas». Chamou-lhes «fugitivos». Os animais também tiveram acolhimento nas atafonas.
Por fim, o matutino reproduziu parte de uma repor-tagem do Diário Insular, intitulada «Sobrevoando a erupção vulcânica», na qual o jornalista descreveu o percurso da Terceira ao Faial e regresso, com passa-gem a baixa altitude pela zona dos Capelinhos.
< 10 >


COMENTAR