CAPELINHOS Diário do Vulcão
A torre do Farol «oscilava de uma forma assustadora»
2.º DIA, SÁBADO, 28 DE SETEMBRO DE 1957
No dia seguinte ao do início da erupção os dois diários deram, naturalmente, a maior atenção ao que se estava a passar.
«Desde há dias, quase ininterruptamente, nas freguesias do Capelo e Praia do Norte, a terra tem tremido, pondo em sobressalto as respectivas populações», escreveu O Telégrafo, falando de «grande pânico» e sublinhando que o «sobressalto» se estendeu à cidade e a «toda a ilha». O Correio da Horta referiu-se aos abalos de terra que tinham aumentado «tão assustadoramente de número» na quinta-feira, prolongando-se pelas horas seguintes.
Mais tarde percebeu-se que este prelúdio macabro fora o ímpeto do Vulcão prestes a surgir à tona.
Com o Vulcão em ebulição as pessoas «assustadas abandonaram as suas casas» e, tal como noticiara no dia anterior o “Correio”, imploraram a «Misericórdia Divina», segundo O Telégrafo, que referiu também o abandono, «imediatamente», da estação do Comprido pelos baleeiros, que seguiram para o Cais do Pico e para a cidade da Horta. Ao contrário, o pessoal do Farol dos Capelinhos, «cuja torre oscilava de uma forma assustadora», resistiu, ficando no local apenas os elementos indispensáveis, conforme informou O Telégrafo.
Os dois jornais foram recebendo informações, provavelmente, ao longo do dia e paginaram-nas em espaços diferentes à medida que elaboravam a edição, não perdendo, assim, a oportunidade de garantir a atualidade da notícia.
O Correio da Horta, que, por ser vespertino, conseguia fechar a edição mais tarde, aproveitou para pormenorizar, com grande realismo, a reação da população. «Das habitações elevam-se gritos de mulheres que, de filhos nos braços, tentavam sair para o caminho», descreveu o redator, que terá presenciado o que relatou. «Um autêntico êxodo começou. Nenhuma casa ficou habitada. Todos se dirigiam para a Igreja, rezando, fazendo preces ao Senhor», lia-se na crónica do Correio da Horta, que ainda detalhava as «procissões em que o povo, fervorosamente», conduziu «o Senhor Espírito Santo à beira da costa», nas proximidades do Vulcão.
O Telégrafo, por seu lado, fez o filme da erupção, fixando as 6h45 como o momento do seu avistamento, «a 100 metros a Nordeste dos ilhéus dos Capelinhos». O mar estava «em ebulição expelindo escórias que eram projectadas a alguns metros de altura». O Correio da Horta, ainda sobre as primeiras manifestações do Vulcão, escreveu que «a água começou a tomar uma cor azul-clara, enquanto à superfície surgiam «grandes quantidades de pedras-pomes e fumos que se espalhavam pela atmosfera». O redator continuou: «Por instantes o fenómeno pareceu querer sossegar. Pelo contrário esteve a adquirir novas forças… um sismo de grande intensidade deu o sinal…» O jornal falou, depois, de «altos esguichos de água salgada» em que se misturavam «enormes pedregulhos, lançados a certa distância, para logo mergulharem nas águas sujas que circundavam a “boca” da erupção».
Poucas horas (cerca das 13 horas) depois de ter sido observada a manifestação vulcânica, um avião da Base das Lajes sobrevoou os Capelinhos, enquanto o Governador Civil do Distrito da Horta, Freitas Pimentel, se deslocava ao Capelo para tomar conhecimento das ocorrências.
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