CAPELINHOS Diário do Vulcão
A “cacha” do Correio da Horta
1.º DIA, SEXTA-FEIRA, 27 DE SETEMBRO DE 1957
O Vulcão dos Capelinhos favoreceu o Correio da Horta. Vespertino, o jornal pôde antecipar-se ao rival O Telégrafo e noticiar a erupção em primeira mão, poucas horas depois de o fenómeno se manifestar.
Ao contrário do matutino, impresso de véspera, o diário da tarde saía do prelo no mesmo dia em que era distribuído. Por isso, ainda foi possível paginar a notícia de um dos maiores acontecimentos ocorridos, até hoje, na ilha do Faial, a tempo de informar os leitores com a prontidão que qualquer órgão de comunicação social deseja.
Não é difícil, pois, imaginar o ambiente vivido nas Redações dos diários faialenses naquela sexta-feira, 27 de setembro de 1957.
A palavra “ontem” cheira a mofo a um jornalista. Ter a possibilidade de escrever, numa notícia, “hoje”, é motivo mais do que suficiente para festejar, sobretudo à época, quando a informação, comparada com a que circula em pleno século XXI, andava a passo de caracol.
Os relatos que terão chegado à Rua Ernesto Rebelo, sede da Empresa do Correio da Horta, transportavam, certamente, uma carga nefasta, mas a hipótese de avançar com uma “cacha” (notícia exclusiva) provocaram, com toda a certeza, algum frenesim.
Sentimento oposto reinaria nas instalações de O Telégrafo, na Rua Conselheiro Medeiros. Aí, a impressora já teria começado a lançar pela boca mais uma edição, frustrando a possibilidade de noticiar a erupção dos Capelinhos.
Imagine-se, então, o entusiasmo de Raposo de Oliveira e a deceção de Manuel Emídio Gonçalves, o primeiro, diretor do diário da tarde, e o segundo, fundador e diretor do diário da manhã.
Quem conheceu o funcionamento de O Telégrafo e do Correio da Horta sabe que as informações redigidas na Rua Conselheiro Medeiros sofriam os últimos retoques durante a manhã do dia anterior à saída do jornal, para haver tempo de imprimi-lo, dobrá-lo e levá-lo a casa dos assinantes, na madrugada seguinte, através da rotineira tarefa dos distribuidores, que atiravam os exemplares pelas portas entreabertas, fazendo-os resvalar no chão despido dos saguões da cidade ou enfiando-os nas bocas das caixas do correio, sem fundo: o estalo da tampa era o despertar para as novidades do dia, mais frescas do que o pão pela manhã.
Na Rua Ernesto Rebelo a azáfama do fecho da edição decorria à tarde, na véspera da publicação. No entanto, no dia da distribuição, ainda antes do almoço, já com o prelo acionado para ir sujando os rolos de tinta, responsáveis por deixar impressa a História do quotidiano faialense, era possível rabiscar umas linhas de última hora, que nenhum jornalista que se preze enjeita.
Sem Internet, nem telemóveis e os telefones com numeração de três dígitos e as chamadas pedidas por boca à telefonista, era impossível enviar uma informação instantaneamente, como hoje estamos habituados, e até exigimos! Uma novidade entre o Capelo e cidade levava ano e dia a chegar ao destino, mesmo que fosse de carro, que não eram tantos como agora.
Provavelmente, a meio da manhã da sexta-feira, dia 27, alguém entrou esbaforido pela Redação de O Telégrafo e explicou — mal, certamente — o que estava a acontecer lá para o inóspito e distante Costado da Nau. Falou, com certeza, o suficiente para que a Redação percebesse que havia ali matéria noticiosa importante.
Manuel Emídio ter-se-á deixado cair na cadeira de braços, feita de madeira rija, que lhe sobreviveu, enquanto Raposo de Oliveira, com a edição a modo de imprimir, ainda foi a tempo de mandar tirar um texto do canto superior direito da 1.ª página e ali colocar cinco parágrafos sobre o acontecimento do dia.
«Rebentou hoje um Vulcão próximo do Farol dos Capelinhos», foi o título escolhido pelo Correio da Horta para dar a notícia da erupção, que só terminou a 24 de outubro de 1958 e cujas consequências, de variada ordem, extravasaram esse já de si longo período, ainda hoje se fazendo sentir.
O Vulcão, todavia, não deixara de se anunciar, em linguagem própria. A prova disso está nas seguintes linhas da notícia que o deu a conhecer: «Desde há dias que as populações das freguesias do Capelo e Praia do Norte vivem horas de verdadeiro pânico com os frequentes abalos que se têm sentido naquela região.»
Os sismos eram, realmente, o sinal da iminência de uma catástrofe. «Ainda a noite passada até às 3 horas de hoje registaram-se dezenas de sismos, felizmente de fraca oscilação», escreveu o “Correio”.
Depois de referir os antecedentes da erupção, o vespertino explicou o que tinha acontecido: «Cerca das 8 horas, a quatrocentos metros, aproximadamente, do Farol dos Capelinhos, rebentou um vulcão submarino, expelindo, por vezes escórias e fumos.»
A reação da população não se fez esperar perante um fenómeno comum no arquipélago dos Açores, contudo, nunca presenciado pelos contemporâneos da erupção de 1957: «A população, verdadeiramente alarmada, percorreu as ruas em sentidas preces e, tal-e-qual aos nossos antepassados, levando processionalmente o Emblema do Senhor Espírito Santo», descreveu o jornal.
Entretanto, a atividade sísmica abrandava, conforme sublinhado pelo Correio da Horta: «Desde que rebentou o vulcão os abalos sísmicos têm sido de menor frequência.»
A partir deste dia o Vulcão dos Capelinhos passou a ser notícia diária na imprensa faialense.
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