CAPELINHOS Diário do Vulcão
«Fachos incandescentes subiram mais de 400 metros»
9.º DIA, SÁBADO, 5 DE OUTUBRO DE 1957
O Telégrafo e o Correio da Horta saíram à rua em mais um dia com novidades relacionadas com a erupção, continuando a acompanhar “pari passu” os acontecimentos. O matutino já tinha anunciado que iria republicar alguns textos sobre o Vulcão (o interesse dos leitores pelo assunto e o facto de algumas edições terem esgotado justificava-o) e fê-lo na edição do dia 5 de outubro. O vespertino deu à estampa uma “local” (notícia relativa à localidade onde um jornal se publica) para informar que se esperava na Horta no dia daquela edição do jornal, a bordo do navio patrulha São Tomé, a já anunciada missão científica, a qual, além do respetivo chefe Orlando Ribeiro, era composta por «mais três cientistas, incluindo uma Senhora». Encontrariam à sua disposição, no Capelo – referiu o jornal – o palacete do «conceituado comerciante Sr. António Lucas da Silva», que tomou a iniciativa de colaborar na criação de condições de trabalho a quem chegava para tão importante tarefa.
Notícias do Vulcão no exterior também tinham repercussão na terra e continuavam «a apaixonar o mundo», segundo o Correio da Horta. «Numa conferência à imprensa, e baseado na intensidade da erupção, na profundidade do mar e na área da ilhota formada, o Engenheiro António de Resende» calculou que «as lavas já expelidas pela cratera» teriam atingido 100 a 150 milhões de toneladas, reportou jornal, através de informação oriunda de Lisboa.
O Telégrafo, por sua vez, informava que a ilhota aumentara «especialmente na direcção Norte», parte onde já teria atingido 60 metros, em contraponto com «a zona Sul», que se apresentava «mais baixa».
Em título, na 1.ª página, citando o Diário Insular, o matutino faialense afirmava que «a chuva de cinzas» poderia «prejudicar as culturas nos terrenos mais próximos sem contudo afectar a população». Era uma referência a uma entrevista que Frederico Machado, encontrando-se em Angra do Heroísmo, dera ao periódico terceirense. A conversa com o «ilustre faialense» foi justificada com o facto do engenheiro se dedicar «ao estudo dos fenómenos sísmicos, tendo mesmo previsto com bastante antecedência uma certa actividade» neste campo. Numa atitude tranquilizadora, Frederico Machado disse que «nada» o fazia «suspeitar» que viesse a ocorrer «um período de perigo iminente para o Faial».
O Telégrafo insistiu no «prenúncio», a que o Correio da Horta se referira na véspera, «da fase efusiva com projecção de fragmentos de lava e não apenas cinzas e escórias», com base em informação sobre o Vulcão que José Agostinho transmitira ao Observatório Príncipe Alberto do Mónaco.
As fontes de informação (e a sua credibilidade) são uma peça fundamental no processo de pesquisa com vista à elaboração da notícia. Neste caso, percebe-se o circuito utilizado pelos jornais faialenses para obter os dados necessários para a notícia, que assentava no triângulo José Agostinho – Observatório Príncipe Alberto do Mónaco, onde pontificava Manuel Bernardo de Almada, chefe – Redações (de O Telégrafo e Correio da Horta).
No habitual acompanhamento descritivo das reações do Vulcão, o Telégrafo contou o seguinte: «A actividade do vulcão dos Capelinhos depois de dois períodos de forte violência na 5.ª feira, principalmente às 12 e 14 horas abrandou, seguindo-se uma relativa calma durante a madrugada de ontem. No entanto às 6.35 horas registou-se uma tremenda explosão que durou cerca de 30 minutos. Os fachos incandescentes subiram a mais de 400 metros. Entretanto verificou-se que a erupção está a fazer-se pelas três primitivas bocas, sendo uma mais forte que as outras duas. O vento tem-se conservado de Sueste forte, afastando para o largo o perigo das cinzas. Parte dos habitantes que abandonaram as suas casas estão agora mais calmos e pensam em regressar à sua vida normal.»
O jornal fez ainda uma referência à ação de um guarda-fios: «Em virtude de as faíscas elétricas avariarem repetidamente as comunicações telefónicas, o sr. Manuel Lemos tem sido incansável em restabelecer as referidas comunicações.»
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