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Bispo apela à unidade em momento histórico

Armando Domingues: reorganização das paróquias em unidades pastorais visa assegurar que a Igreja chegue «a todos os lugares da ilha» | fotografia de Souto Gonçalves
Juramento e profissão de fé dos novos párocos do Faial em cerimónia inédita
A Matriz da Horta viveu momentos de grande solenidade, cada vez mais raros, ao fim da tarde de ontem, durante a concelebração eucarística em que os novos cinco párocos da Ouvidoria fizeram o juramento e a profissão de fé no início das suas novas funções.
«A ideia não foi minha, eles é que propuseram», disse o bispo de Angra, que presidiu à Eucaristia, sublinhando o facto inédito do rito ter acontecido em conjunto na Matriz da Horta. «É um momento histórico», sublinhou D. Armando.
Acresce, também, o facto de a Ouvidoria da Horta ser a única das 17 da Diocese em que se operou a mudança total da equipa de sacerdotes.
O templo encheu-se num sinal de vitalidade das comunidades católicas do Faial, cuja presença foi notória, através de caras conhecidas oriundas de muitas, senão de todas, as freguesias do Faial.
Esta participação, que também se expressou nas representações das Confrarias do Santíssimo e dos agrupamentos de escuteiros, contrastou com a tendência de abandono dos atos religiosos verificada nos últimos anos e lançou, implicitamente, a pergunta sobre se a renovação total do clero da ilha está a funcionar como estímulo para a revitalização da Igreja local.
A “tomada de posse” em conjunto e o que isso representa de unidade entre os párocos do Faial foi uma ideia bem vincada pelo bispo de Angra durante a cerimónia, curiosamente depois de, alegadamente, ter havido a necessidade de evitar, nas transferências de párocos, a coabitação entre os que se alinham em posições conservadores e os que optam por uma postura progressista, conforme soutoemlinha noticiou.
D. Armando Esteves Domingues, o bispo de Angra, aproveitou a homilia para alertar para a diminuição do número de padres, lembrando que mais de duas dezenas nos Açores estão à beira da idade em que deixarão de exercer o múnus sacerdotal. Para o ano só será ordenado um seminarista e nos próximos quatro anos apenas oito.
Estas circunstâncias levaram o prelado diocesano a explicar a nova organização das paróquias da Ouvidoria da Horta. Os párocos passam a ter a seu cargo paróquias geograficamente contíguas, formando unidades pastorais, o que visa intensificar a colaboração entre as várias comunidades, colmatando, deste modo, carências ao nível pastoral. D. Armando sublinhou que o objetivo é chegar a todos os lugares da ilha.
Não é segredo para ninguém que a movimentação de padres no Faial anterior à que agora aconteceu gerou uma forte reação de alguns leigos, que, embora sem o assumirem publicamente — salvo um ou outro que não resistiu ao expediente das redes sociais para reclamar —, contestaram as decisões do bispo, não o poupando a críticas severas, em surdina, nomeadamente sobre a sua incapacidade de diálogo.
Sintomaticamente, ou não, D. Armando Esteves Domingues revelou que, daqui para a frente, as comunidades, através, nomeadamente, dos Conselhos Pastorais, passarão a ter uma palavra a dizer nos processos de decisão. Será uma marca da sinodalidade, afirmou, exortando, porém, a que tais organismos funcionem verdadeiramente.
Este sinal de envolvimento de todos na vida da Igreja faz lembrar uma frase de monsenhor José de Freitas Fortuna, que o autor deste portal testemunhou: «A Igreja não é democrática, mas, usa processos democráticos». Ainda vinha bem longe a ideia de sinodalidade, pelo menos com a intensidade com que hoje é referida.

António Saldanha, pároco da Matriz e Conceição | fotografia de Souto Gonçalves

Marco Martinho, pároco das Angústias e Flamengos | fotografia de Souto Gonçalves

Roberto Cabral, pároco da Praia do Almoxarife, Pedro Miguel e Ribeirinha | fotografia de Souto Gonçalves

Rui Soares, pároco da Praia do Norte, Cedros e Salão | fotografia de Souto Gonçalves

Marcos Miranda, pároco da Feteira, Castelo Branco e Capelo | fotografia de Souto Gonçalves
Distribuição de cargos e funções
Os cinco párocos serão recebidos, hoje, nas comunidades em que foram colocados: António Saldanha, na Matriz e Conceição; Marco Martinho, nas Angústias e Flamengos; Marcos Miranda, na Feteira, Castelo Branco e Capelo; Rui Soares, na Praia do Norte, Cedros e Salão; Roberto Cabral, na Praia do Almoxarife, Pedro Miguel e Ribeirinha.
Enquanto isto, Marco Martinho assume as funções de ouvidor, após votação para o efeito entre os seus pares. António Saldanha passa a reitor da igreja do Carmo e diretor do Museu de Arte Sacra, mantendo, ainda, na sequência do seu trabalho em Roma no Dicastério das Causas dos Santos, responsabilidades nos processo de beatificação da jovem mártir terceirense Maria Vieira e da Madre Teresa da Anunciada, que iniciou o culto do Senhor Santo Cristo dos Milagres em Ponta Delgada. Marcos Miranda é o capelão do estabelecimento prisional da Horta.
Anteriormente os padres do Faial asseguravam, também, serviço religioso no Hospital da Horta, através de um capelão, e na Santa Casa da Misericórdia da Horta, além de outros, funções cuja titularidade não foi revelada, mas que se espera venha a ser em breve.
Dignitários
A monumentalidade da Matriz da Horta, que monsenhor António Saldanha, com a formalidade dos seus atos, o brilho do seu verbo e a profundidade dos seus conhecimentos, acentuará, recuperando alguma perda, foi exaltada com a presença nesta cerimónia de dignitários da Igreja.
Embora tenha tido necessidade de se ausentar antes do fim do cerimonial, esteve na Matriz o arcebispo D. José Avelino Bettencourt, natural da ilha de São Jorge, núncio apostólico nos Camarões e Guiné Equatorial. Também se deslocou ao Faial e concelebrou a Eucaristia o representante do Papa na Nunciatura Apostólica em Portugal.
Destacou-se, por causa das vestes, um representante da Ordem de Malta, dando um ar algo exótico ao cortejo processional no início e no fim da missa.
Com os trajes próprios de representação oficial também foram acolhidos com destaque os dirigentes da Santa Casa da Misericórdia da Horta, instituição que se estabeleceu nos Açores ainda antes da formação da Diocese, conforme sublinhou monsenhor Saldanha.
O friso das autoridades civis e militares, que a Igreja sempre reverencia, ocupou os lugares distintos do protocolo.
O mestre de cerimónias foi o novo pároco das Bandeiras, Madalena e Criação Velha, no Pico, Dinis Silveira.
Tudo terminou com a entrega de um simples, mas significativo, ramo de flores aos novos párocos e restantes concelebrantes.
Foi empunhando um desses ramos que António Saldanha, novel pároco da Matriz, dirigiu a palavra final a um auditório a quem pediu que aplaudisse o povo faialense, ali representado na assembleia de fiéis.
Fazendo jus à sua formação académica em História lembrou que 27 de setembro é o dia da fundação da Companhia de Jesus, responsável pela existência do magnífico templo que a todos acolheu numa festa bonita.
No ambão, prometeu não ser como os dentistas, que anunciam, invariavelmente, uma tranquila intervenção, que, no entanto, acaba sempre em dor. Disse, por isso, que não queria mentir, comprometendo-se com poucas palavras, mas falando de mais. E cumpriu!

António Saldanha de regresso a casa | fotografia de Souto Gonçalves


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