Trasladação para a Avenida feita sem cuidado
Presidente do Município reage contra tratamento pouco digno da peça
O presidente da Câmara Municipal da Horta «exigiu ontem à empresa responsável pela empreitada de requalificação da Frente Mar da Cidade da Horta a adoção de diligências imediatas para o tratamento condigno e adequado da estátua do Primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga», segundo um comunicado do Município, divulgado hoje, sexta-feira, 12 de janeiro de 2014.
O vulto modelado de Manuel de Arriaga, envolto num escuro pano, jazia, ontem, na Avenida Marginal, como se tivesse morrido outra vez. A estátua foi retirada do Largo com o seu nome, ao Cais de Santa Cruz, para enriquecer o “espólio” da nova Praça do Mar.
Compreensivo, o presidente da Câmara reconhece «que as gravosas condições climatéricas decorrentes da depressão “Hipólito” condicionaram todo o trabalho da empresa no dia de ontem», mas, sublinha que se «mostra indispensável e urgente repor o devido tratamento à estátua».
Este puxão de orelhas ao empreiteiro, público e veemente, provavelmente inédito, não pode ser desligado de uma nova polémica que se instalou nas redes sociais sobre a deslocalização da estátua, nem deixa de contrastar, por exemplo, com a mudez do Município sobre a responsabilidade do projetista da frente-mar, ou outros intervenientes no processo, no agravamento das inundações do Canto Dona Joana.
Coincidentemente, Eugénio Leal, ex-governante, numa crónica na Rádio Azores High, nesta semana, interrogou-se sobre o parecer dos serviços técnicos municipais em relação à Requalificação Urbana da Frente Mar da Cidade da Horta, acentuando que «enquanto, pelo retângulo [leia-se Portugal continental], os engenheiros e arquitetos que elaboraram estes projetos já projetarão outros, por cá, os moradores e comerciantes limpam os espaços inundados e contabilizam prejuízos, sendo que alguns deles se viram obrigados a encerrar as portas ao público».
E assim vai a Horta, maldizente, para uns; acutilante, polémica e atenta, para outros. Será que nos falta, mesmo, massa crítica?
João Garcia, antigo chefe dos gabinetes dos presidentes da Câmara e do parlamento, protestou contra a remoção da estátua, numa publicação no Facebook, lamentando «profundamente que, no Faial, as mudanças se limitem apenas a movimentar coisas de lugar, sem a coragem necessária para reverter o que foi mal concebido e executado».

Este cidadão, que se tem distinguido na defesa dos valores culturais da nossa terra, retomou a antiga sugestão de levar Manuel de Arriaga para a Praça da República e apontou, referindo-se ao Largo Manuel de Arriaga [na fotografia, com direitos reservados], «a falta de respeito» por uma zona da Horta «onde se encontra um Hotel e a Capitania do Porto», vítima de «despropósitos que ao longo de décadas ali se acumularam».
Recorde-se que a recente intervenção no Largo Infante não deixou também de criar alguma polémica por causa da menorização a que ficou sujeito o busto e divisa do Infante D. Henrique. Ainda há poucos dias, a diplomata faialense Manuela Bairos publicava uma fotografia do Largo nas redes sociais, perguntando, ironicamente, «onde está o “Wally”», já que era quase impercetível a presença do Infante.
De acordo com um apontamento de João Garcia, «a estátua foi feita por Numídico Bessone Borges de Medeiros Amorim (Lagoa, Açores, 12 de Agosto de 1913 — Lisboa, 1 de janeiro de 1985), mais conhecido por Numídico Bessone, escultor, autor de uma vasta obra que inclui alguns dos mais notáveis exemplares de estatuária pública existentes nos Açores. Tendo a Estátua do 1.º Presidente da Republica Portuguesa sido colocada em 1967 e inaugurada a 5 de Outubro de 1972».
E assim vai a Horta, maldizente, para uns; acutilante, polémica e atenta, para outros. Será que nos falta, mesmo, massa crítica? | x


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