EDITORIAL
Anonimato: medo de quê?

ESCRITO POR
José Manuel Souto Gonçalves
SÁBADO 14H22
Sou do tempo em que era hábito escrever com pseudónimo na imprensa local.
Aí pelos anos 70 e 80 do século passado o jornal O Telégrafo acolhia, frequentemente, artigos de opinião sem expor o nome do respetivo autor, procedimento que o Correio da Horta também tinha, embora menos vezes.
Não só por causa disso, mas também, O Telégrafo granjeou a fama de jornal crítico, ganhando notoriedade, que se traduzia num número de assinantes bastante significativo no contexto local.
Em 1993 O Telégrafo ultrapassou os três milhares de assinaturas, beneficiando da extinção do Incentivo, cujos subscritores transitaram deste semanário para aquele diário, em consequência de os proprietários deste terem adquirido aquele.
Tornei-me diretor de O Telégrafo e uma das primeiras alterações que promovi foi acabar com a publicação de artigos com pseudónimo.
Isso contribuiu para empolar uma onda de reação negativa às mudanças operadas.
Era um sintoma de uma sociedade maldizente, que não queria assumir a responsabilidade pelas suas opiniões.
Mais de uma geração depois continuamos na mesma.
Não alimento o que é escrito por perfis falsos, pois, não estou disposto a passar na rua e ser cumprimentado com um sorriso por quem se ri de mim nas redes sociais sem que eu saiba.
O Facebook acolhe perfis falsos, descredibilizando-se a si próprio e transformando troca de ideias que poderia ser proveitosa em discussões doentias.
É caso para dizer que não fomos capazes de crescer!
Por mim, não alimento, com comentários, o que é escrito por perfis falsos, pois, não estou disposto a passar na rua e ser cumprimentado com um sorriso por quem se ri de mim nas redes sociais sem que eu saiba.
Esta epidemia de falsidade tem outros contornos, menos visíveis, que, porém, confirmam a hipocrisia instalada.
Três exemplos:
O Incentivo (”online”) publicou uma notícia, da agência Lusa, com o título «Associações do grupo Central queixam-se de limitações nas ligações aéreas e marítimas».
Percorri o texto, de fio a pavio, porque o assunto me interessava, e fiquei sem saber quem são as associações. A bem do rigor jornalístico, o mínimo que se exige é a identificação do autor das citações feitas.
Alguém resolveu promover um ciclo de conferências intitulado Pensar Faial, fez convites para a primeira conferência sobre o Porto da Horta, divulgou os palestrantes, mas, em lado nenhum, mencionou o nome ou os nomes de quem organiza.
Após a conferência, através da reportagem da RTP-Açores, ficou a saber-se quem coordena, com a particularidade de o fazer «com a colaboração do PS do Faial».
Tratando-se de um assunto político, sector onde a palavra transparência é fortemente exigida, não seria de bom tom, logo à partida, dar a conhecer quem, afinal, está por trás do evento em causa?
Por mim, não respondo a convites de quem não me diz quem é.
Eu compreendo que um indivíduo, numa situação de fragilidade pessoal, possa ser hesitante na tomada de uma posição. Mas, um cidadão no pleno uso das suas faculdades tem medo de quê?
Por fim, fiquei a saber de uma carta anónima, extensa, que elabora um conjunto de acusações graves sobre a gestão da Escola Básica Integrada (EBI) da Horta.
A carta foi acolhida pelo Tribuna das Ilhas que ouviu sobre o assunto, numa longa entrevista, o presidente da EBI Horta.
Acho muito estranho dar relevância a alguém que se esconde no anonimato, quer por parte do jornal, quer por parte da Escola.
Eu compreendo que um indivíduo, numa situação de fragilidade pessoal, ou social, possa ser hesitante na tomada de uma posição crítica e pública com receio de represálias. Mas, um cidadão no pleno uso das suas faculdades, dos seus direitos e da sua liberdade (como é quem escreveu a dita carta, avaliando a forma e o conteúdo da mesma), tem medo de quê?

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