REPORTAGEM
Paquete Funchal. Onde também existiu repressão
SOUTO GONÇALVES

Aspecto interior do Funchal, atracado no cais norte do Porto da Horta a 25 de setembro de 2013
Está anunciada a morte do Funchal. Altura para lembrar um navio que «parecia estar sempre em festa!»
«O histórico Paquete Funchal, a eterna “Joia da Coroa” da marinha mercante e dos cruzeiros portugueses, chegou oficialmente ao fim da sua longa rota», escreveu, há três dias, Artur Filipe, no grupo do Facebook «Cruzeiros Fans Portugal».
A frase, com forte carga nostálgica, refere-se à venda do navio, em leilão, por pouco mais de 800 mil euros, «após anos de abandono e incerteza no Tejo», referiu Artur Filipe. Agora, será rebocado e desmantelado na Turquia.
A extinta Empresa Insulana de Navegação (EIN), criada na ilha de São Miguel, mandou construir o Funchal, que foi lançado à água em 1961.
O paquete melhorou substancialmente as condições das ligações marítimas entre Lisboa e os Açores, no que diz respeito ao transporte de passageiros, proporcionando maior rapidez e conforto.
A operação entre as ilhas e o continente terminou pouco mais de uma década após ter começado, entrando o Funchal no mundo dos cruzeiros turísticos, quando foi pintado de branco e azul, ferindo a boa memória visual que o tornara querido de muitos açorianos, nomeadamente faialenses, habituados a contemplar a sua elegante silhueta, a preto e branco, com chaminé amarela.
Despediu-se do Faial novamente cerca de uma década após ter deixado de ser um dos protagonistas do “Dia de São Vapor”, numa escala ao serviço da Classic International Cruises, exibindo, outra vez, as cores originais.
“COMIDA APANHADA”
O autor deste “website” fez uma viagem de ida e volta a Lisboa no ano de 1972, no epílogo das míticas ligações da Horta com a capital do país, na qual o navio escalou, como de costume, Angra do Heroísmo, Ponta Delgada, cidade do Funchal e Lisboa. O regresso foi direto.
A memória mais emocional do autor deste “website” sobre o Funchal funda-se, no entanto, no relacionamento comercial que o seu pai, José Gonçalves “Casimiro”, manteve com a EIN.
A Casa Casimiro Gonçalves foi fornecedora de mantimentos ao Funchal, o que proporcionou ao autor deste “website” diversas visitas e contactos a bordo, ainda que apenas como testemunha, dada a sua tenra idade. Ficou, porém, uma impressão indelével da azáfama ali desenvolvida, e, sobretudo, da “comida apanhada”, nomeadamente, enormes tabletes de chocolate, num envólucro de plástico vermelho e branco, que faziam as delícias de qualquer paladar.
Se se quiser comparar as ligações da Horta a Lisboa no Funchal com as que a TAP, a meados dos anos 80 do século passado, passou a efetuar, não será exagero fazê-lo do ponto de vista da importância que tiveram para o Faial.
Grande parte dos faialenses conhece, hoje, a problemática da histórica relação que eles próprios sempre desejaram ter com Lisboa por causa do tema candente das viagens aéreas. Porém, poucos serão os que terão conhecimento do contexto em que viajar para Lisboa era uma “coisa” de outro tempo e de outro mundo!
Soutoemlinha pediu a três faialenses que viajaram no Funchal há mais de 50 anos, época áurea do navio, para, pelos seus testemunhos, evocarem uma era muito diferente da atual, cuja memória enriquece o passado coletivo do Faial.
RECORDAÇÕES
Guilherme Pinto, professor de História do Liceu da Horta, viajou pela primeira vez no Funchal — ia prosseguir estudos em Coimbra — no ano de 1967. Embarcou ainda mais duas vezes para Lisboa neste navio, além de ter sido passageiro do Angra do Heroísmo e do Carvalho Araújo. Aliás, estes dois navios e aquele eram presença assídua no Porto da Horta. O Funchal veio a constituir um “upgrade” nas viagens marítimas da altura.
«O Funchal, além de muito bonito, tinha ótimas condições no que concerne aos camarotes, salas, alimentação e velocidade de cruzeiro, o que lhe permitia fazer o percurso entre a Horta e Lisboa, com escala em São Miguel e Madeira, em quatro dias», assinala Guilherme Pinto, notando a redução da duração da viagem para metade.
Maria Luzia Bulcão, «quando era estudante, em Julho de 1962», regressou ao Faial a bordo do Funchal, «o novo orgulho» da EIN. «Para quem vivia nos Açores, este navio foi uma lufada de ar fresco», diz esta professora catedrática da Faculdade de Motricidade Humana.
Salientando as melhores condições do navio, em comparação com o “Angra” (que não atracava no cais da Horta, fundeando na baía) e com o Carvalho Araújo (que viajava inclinado, segundo relatos ouvidos pelo autor deste “website”), Maria Luiza Bulcão salienta um aspecto — «muito importante»: «o Funchal já não transportava gado».
A arquiteta Margarida Madruga, formada pela Faculdade de Belas-Artes, acentua, por seu lado, outra perspetiva na recordação da época em causa: «O navio “Funchal” parecia estar sempre em festa!»
«Dançávamos, cantávamos normalmente com a rapaziada da Terceira, às vezes com os de São Miguel, mas nunca com os da Madeira, porque já chegavam ao barco quase no fim da viagem. E nós já éramos “donos” do barco! Às 5 horas da manhã íamos, à volta de 15 estudantes, para a messe dos oficiais cear a “sopa do fogueiro” com os oficiais maquinistas que estavam de turno. Tanta anedota se contava, tanta cantoria», descreve Margarida Madruga.
Maria Luiza Bulcão, que viajou várias vezes no Funchal, recorda «o ambiente a bordo tão diferente dos paquetes anteriores. Para além da qualidade das instalações, havia cinema, bailes e o jogo do bingo, onde ganhei 800 escudos».
E deixa uma nota de natureza histórica que resume, neste campo, todo o “clima” sociopolítico com que, nomeadamente, a juventude faialense do tempo se confrontaria:
«Foi nesta viagem [1962] que senti, pela primeira vez, que a repressão também existia no Faial. Estava a ler o livro Geopolítica da Fome, quando o Dr. Freitas Pimentel se aproximou e viu o que eu estava a ler — tirou-me o livro e disse: “Isto não é livro para tu leres”».
Também com importância histórica, Guilherme Pinto relata o seguinte:
«Este navio fazia viagens às Canárias e, muitos dos seus tripulantes para conseguirem um complemento de salário, compravam diversos produtos que não existiam no Faial e, posteriormente vendiam-nos nos portos. Tudo isto em grande sigilo, mas toda a gente sabia.»
Curiosamente, feita uma consulta à Inteligência Artificial (IA) sobre a expressão “comida apanhada”, atrás referida e cujo fenómeno Guilherme Pinto assinala, a resposta foi a seguinte: «No contexto histórico e regional de Portugal, especificamente nos Açores (com grande foco na ilha do Faial), a expressão “comida apanhada” foi utilizada como um eufemismo para o contrabando». Esta definição é remetida pela IA para um «Breve Esboço sobre a História do Faial», de Ricardo Manuel Madruga da Costa, inserido no Inventário do Património Imóvel dos Açores.
Sobre este procedimento, no testemunho dado a Soutoemlinha, Guilherme Pinto faz uma revelação: «Eu próprio comprei um rádio japonês a pilhas, que me acompanhou nos tempos de estudante e, posteriormente durante os três anos de serviço militar obrigatório. E, curiosamente, foi através desse rádio, comprado no Funchal, que quando estava na Guiné e sintonizava a BBC para ouvir as notícias, tive conhecimento que nesse dia, 25 de abril de 1974, tinha ocorrido em Portugal uma Revolução que tinha posto fim à ditadura».
Maria Luiza Bulcão lembra, por fim, uma fase mais recente do Funchal, já depois de ter concluído a operação regular para os Açores:
«Em meados de agosto de 1974, quando fui estudar para a Bélgica, tive a oportunidade de viajar novamente neste paquete com o meu marido e a nossa filha. Embarcámos em Lisboa, a meio de um cruzeiro que vinha do Mediterrâneo para Southampton, e desembarcámos na escala de Zeebrugge, na Bélgica. Era um navio mais luxuoso, camarotes com casa de banho privada e mais bem equipado, agora com piscina e novas áreas de lazer. Foram dois belos dias de férias. Por sermos os únicos portugueses a bordo, fomos distinguidos com a amabilidade do comandante que nos convidou para a sua mesa em todas as refeições.»

ESCRITO POR
José Manuel Souto Gonçalves
QUARTA-FEIRA 16H19
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