ENTREVISTA
“Azores Ocean”. Gui Menezes tem ideia diferente do que está a ser pensado
OKEANOS

Gui Menezes: «Tenho uma ideia e um modelo muito claro sobre a forma de financiamento e utilização do navio, se calhar diferente do que está a ser pensado»
É um “upgrade” na dotação de meios para a investigação científica açoriana. A forma de financiar e utilizar o novo navio científico dos Açores pode gerar divergências
Os Açores têm um novo navio de investigação científica marinha, sucedâneo do “Arquipélago”.
Chegou, com pompa e circunstância, ao Porto da Horta, em plena Semana do Mar, e agora decorreram as respetivas assunção de comando e batismo.
O acontecimento é um marco científico, cultural, social, económico, e, até, político.
A ajudar à festa, a vinda do “Azores Ocean” também teve uma pitada de polémica, sobre presenças e ausências nas cerimónias da praxe.
Aconteceu numa altura em que um rumor de barlavento murmurava pela trasladação do centro marítimo das ilhas dos Açores.
Escreveu-se, entrevistou-se, falou-se de tudo isto. E de mais: o velho “Arquipélago” vai varar de vez e o destino da equipagem já é notícia.
Entrementes, ficou a saber-se que a equipagem do “Azores Ocean”, comandada por um oficial superior natural dos Açores, é da responsabilidade da Marinha, e a Atlânticoline participa na gestão do navio.
O mais importante de tudo, porém, é saber o que é que este equipamento de ponta vai fazer, em concreto.
Além disso, é preciso financiar o investimento.
O diretor do OKEANOS, o faialense Gui Menezes, responde a estas questões numa entrevista a Soutoemlinha:
— Comparando com o “Arquipélago” o “Azores Ocean” representa um “upgrade” enorme na dotação de meios de investigação. A Universidade está preparada para tirar o máximo partido desta nova ferramenta?
— Do ponto de vista científico, sim. Os investigadores do OKEANOS participaram na definição das capacidades do navio, desde os laboratórios ao equipamento científico. Temos projetos preparados ou em preparação sobretudo em mar profundo, prestações de serviços de monitorização previstas, e equipas com décadas de experiência de embarques em muitas e diversas campanhas e navios de investigação. Sendo um navio novo e com tecnologias de ponta haverá a necessidade de adaptação, alguma necessidade de formação inicial e experienciação no mar das diferentes equipas e especialidades. A própria tripulação também necessitará de formação e tudo isso está a ser planeado. Estes processos são graduais e normais.
— Explicando ao cidadão comum, o que irá fazer o navio?
— O “Azores Ocean” é um laboratório flutuante. Vai permitir-nos ir mais longe e mais fundo do que até agora e ter maiores permanências no mar em alturas do ano mais adversas. Poderemos mapear o fundo do mar até milhares de metros com grande precisão, estudar montes submarinos e fontes hidrotermais, recolher sedimentos e amostras dos fundos marinhos, acompanhar o estado dos recursos pesqueiros e dos ecossistemas ou estimar abundâncias de organismos com sondas acústicas de última geração. Vamos poder explorar locais até agora desconhecidos e recolher dados, amostras e organismos que até agora não nos era possível com os meios e tecnologias que tínhamos. Permitirá também a colocação e recolha de equipamentos pesados, permitirá a operação de um ROV (“Remote Operated Veichle”) até 3.000 metros, ou ainda fazermos pela primeira vez arrastos na coluna de água que até agora não tínhamos possibilidade de fazer e que é uma área que permanece muito pouco estudada, apesar da sua importância nas cadeias tróficas marinhas. Tudo isto contribuirá para aumentar o conhecimento sobre o mar dos Açores e, assim, apoiar melhor as políticas públicas incluindo a gestão das pescas ou das áreas marinhas protegidas por exemplo, ou recolher dados sobre as alterações do oceano que se estão a verificar e os seus potencias impactos nos recursos e ecossistemas marinhos da Região. Um melhor conhecimento também nos vai permitir contribuir para o desenvolvimento da economia azul com a eventual descoberta de organismos com potencial biotecnológico, ou prestar serviços de investigação noutras geografias que não só os Açores.
Grande parte das decisões sobre o nosso mar, como o que se pode pescar, o que se deve proteger ou que impactos poderá ter uma nova atividade, depende do conhecimento que só se obtém indo ao mar. É isso que o navio torna possível, mais e melhor informação, um conhecimento de melhor qualidade sobre o mar dos Açores e no fundo melhores decisões, mais desenvolvimento e mais economia.
«A presença do Ifremer na Horta mostra que os Açores são um local de interesse científico de primeira linha»
— Curiosamente, há poucos dias, o “Azores Ocean” e o navio do Ifremer estiveram atracados juntos. Foi notória a diferente dimensão física de um e outro. A situação pode ler-se como uma metáfora do abismo que separa, ou não, a investigação do Okeanos e a daquele instituto?
— Alguém usava outra expressão quando os viu lado a lado, dizendo que estávamos perante David e Golias, só que neste caso ninguém quer derrotar ninguém, mas sim cooperar de forma complementar. A imagem é sugestiva, mas é bom que a comparação seja contextualizada. O Ifremer é um instituto nacional francês, com uma frota própria, orçamentos avultados e com uma escala que nenhuma instituição regional pode igualar. Apesar disso, hoje em dia, a diferença não está tanto na qualidade da ciência produzida. Em geral o OKEANOS produz ciência de qualidade equivalente e coopera fortemente com estas e outras grandes instituições. A diferença está em alguns tipos de meios e tipologia de áreas de investigação, na estabilidade institucional e no volume de financiamento. O que a imagem me sugere não é o abismo, mas sim uma oportunidade: a presença do Ifremer na Horta mostra que os Açores são um local de interesse científico de primeira linha, e a cooperação com instituições destas é uma mais valia para a região, para o OKEANOS e mais um dos caminhos para valorizar o novo navio uma vez que cada um aporta diferentes meios e capacidades complementares. Aliás nestas últimas semanas passaram mais outros três grandes navios pela Horta, e em dois deles tivemos investigadores do OKEANOS embarcados, o que atesta bem a importância da Horta, as nossas capacidades e a rede de cooperação científica que hoje existe.
— Recentemente foi noticiado que o “Azores Ocean” custa 18 mil euros por dia. É um investimento que justifica os resultados que a sua ação pretende obter?
— Eu não conheço em detalhe de onde veio esse valor e como foi feita a formação do preço por isso não quero opinar sobre isso neste momento. Eu tenho uma ideia e um modelo muito claro sobre a forma de financiamento e utilização do navio, se calhar diferente do que está a ser pensado, mas reservo neste momento para mim para evitar ruído e más interpretações. O que posso adiantar é que ele se assemelha ao que se passa na maior parte dos países, incluindo os países europeus, que há muito têm e gerem este tipo de infraestruturas científicas.
Os custos dos navios de investigação devem ser lidos à luz do interesse público, da importância do que os navios produzem. Devem ser encarados como um investimento no conhecimento com implicações no nosso desenvolvimento e não primeiramente como um custo. Se assim não for então o melhor é não fazer nada. O “Porquois Pas ?” do Ifremer deve andar à volta dos 100 mil euros por dia, cada quilo de carga que é enviado para o espaço julgo que andará à volta de 7 ou 8 mil euros. Será que se justifica? Podemos justificar com a importância que o conhecimento tem para a gestão das pescas e das áreas protegidas, a avaliação de recursos e de riscos, a formação de jovens cientistas, a capacidade de atrair projetos e financiamento europeu para a região, a capacidade de prestar serviços de elevado valor no meio do Atlântico, a capacidade de desenvolvimento de novas áreas do conhecimento e de exploração plena do potencial do nosso mar por exemplo ao nível da biotecnologia marinha ainda com muito por descobrir, etc., etc. Tendo sido responsável pela inscrição destes investimentos no PRR e por ter escrito em 2010 muito do racional sobre estes investimentos nessa altura, tenho a perfeita consciência da mais-valia que estes investimentos representam e que o PRR foi uma oportunidade única e irrepetível de os concretizar. Sem o PRR, com um financiamento a 100%, a Região nunca teria a possibilidade de fazer estes investimentos por si. Admito que outros possam ter outra opinião, e que demagogicamente argumentem com as debilidades que os Açores ainda têm em muitas áreas áreas para justificarem que estes investimentos não deveriam ter sido feitos. Este tipo de programas não têm essa lógica e não se gerem assim. Se essa for a lógica da decisão nada se faz de novo e tudo se manteria na mesma, apesar do mundo continuar a girar. Acredito que haverá um antes e um depois da implementação destes investimentos tanto para a ciência como para o nosso desenvolvimento ligado ao mar.
«O “Arquipélago” serviu a ciência açoriana durante mais de três décadas e formou gerações de investigadores»
— Também foi notícia que o “Arquipélago” será desativado. É o seu destino natural, ou ainda poderia ter um papel na âmbito da sua vocação?
— O “Arquipélago” serviu a ciência açoriana durante mais de três décadas, tem sido gerido pelo IMAR desde 1993 ao abrigo de um protocolo com o Governo, formou gerações de investigadores e contribuiu de forma muito relevante e única para o conhecimento do mar dos Açores, para as pescas etc. Se houvesse capacidade financeira poderia continuar a operar durante mais alguns anos para outro tipo de trabalhos (monitorização costeira, campanhas curtas, formação, etc.), mas não havendo compreendo que esse é o destino mais realista e que estava previsto desde o início. Como qualquer embarcação ou bem, com a idade começam a surgir problemas e o “Arquipélago” não é exceção. Compreendo também que desativar o “Arquipélago” liberta fundos para a utilização do novo navio. Quero acreditar que ao longo destes anos as consequências da desativação na tripulação e nas pessoas responsáveis pela gestão do Arquipélago tenha sido devidamente equacionada. A experiência acumulada destas pessoas pode ser muito útil e importante para a gestão deste novo navio e para a execução de determinadas missões.
— O Okeanos foi convidado para o “batismo” do “Azores Ocean”? Se sim, compareceu, ultrapassando o mal-estar pela ausência no dia da chegada do navio? Se não foi convidado, ou não compareceu, até que ponto este conflito pode prejudicar a missão associada a este projeto?
— Quanto a esta questão esclareci o que se passou numa publicação no Facebook para que não haja mal entendidos e transcrevo-o em baixo:
“Esclarecimento
A propósito da reportagem da RTP-Açores sobre a cerimónia de assunção de comando, bênção e batismo do navio Azores Ocean, gostaria de esclarecer as razões da minha ausência, enquanto investigador e Diretor do OKEANOS. Lamento que a peça a tenha associado a um eventual desagrado pelo sucedido no início de agosto, sem que me tenha sido perguntado o motivo.
A razão é simples. Nesse mesmo dia e hora, tinha já um compromisso assumido como conferencista nas Jornadas do Mar, a convite do Município da Praia da Vitória. O convite foi recebido a 31 de julho e a minha participação foi confirmada no início de setembro. O convite da Presidência do Governo Regional para a cerimónia chegou a 24 de setembro e a 28 de setembro respondi, informando e justificando a impossibilidade de estar presente.
Não houve qualquer outro motivo e como é óbvio, teria tido muito gosto em estar presente neste marcante momento.
Para mim, o que importa é o futuro do navio e da investigação marinha nos Açores. Esse futuro passa necessariamente pela comunidade científica que ajudou a conceber o Azores Ocean e que o vai utilizar. Registo, por isso, com agrado as palavras do Presidente do Governo Regional, que destacou o papel central da Universidade dos Açores e do OKEANOS.”
MARINHA PORTUGUESA

“Azores Ocean”. Segundo Gui Menezes, «o navio torna possível, mais e melhor informação, um conhecimento de melhor qualidade sobre o mar dos Açores»

ESCRITO POR
José Manuel Souto Gonçalves
SEGUNDA-FEIRA 14H22
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