A Autonomia, o Povo e o «emplastro»
Acompanho, com relativa atenção — porque afazeres não me permitem mais —, as comemorações dos 50 anos da Autonomia. Têm sido celebrações adequadas à efeméride, bem organizadas e dignamente interpretadas — digo interpretadas porque há nelas algo de teatral, de que a política tanto gosta.
Existe, porém, um aspecto, negativo, que não quero deixar passar em claro.
Um dos pontos altos da comemoração aconteceu hoje na cidade da Horta, evocando a sessão inaugural da Assembleia Regional dos Açores (assim denominada no princípio).
A este propósito foram chamadas à colação figuras dos tempos iniciais da Autonomia Constitucional. Produziram-se declarações, fizeram-se discursos, que me sinto incapaz de analisar, ou, pelo menos, de expressá-lo publicamente, mas, percebi que, para além de palavras ocas — infelizmente habituais —, alguma substância se verteu a propósito dos acontecimentos em causa.
No sofá — quando os tais afazeres me deram alguma folga —, descontraído que estava, concentrei-me mais a (re)ver figuras de tempos idos — interrogando-me por causa de algumas ausências — do que a dar atenção às falas que foram sendo ditas.
Enfim, nestes tempos hodiernos, vamos (quase) todos atrás da ligeireza que nos oferece uma imagem animada.
Depois de várias proclamações aplaudíveis, amanhã, voltaremos à pobre política, em que todos são pelo povo, mas ninguém coloca o povo em primeiro lugar.
Que lugar teve o povo na sessão solene de hoje?
— Uma sala do Museu do Parlamento para acompanhar o desenrolar dos acontecimentos… pela televisão!
Até parece que os faialenses não têm televisão em casa!
Com o povo afastado, tudo, afinal, se circunscreve às “entidades” e seus convidados; tudo ocorre num círculo demasiado pequeno, que só se alarga durante duas semanas antes de cada ato eleitoral.
Isto também acontece noutras circunstâncias e demasiadas vezes.
«A nós e a todos aqueles que antes de nós não desistiram e permitiram que um sonho de 1996 hoje seja uma realidade!».
A frase anterior, escrita no Facebook sobre uma fotografia com quatro figuras gradas do regime, posando na inauguração da Variante, mostra bem o nível de egocentrismo e narcisismo que grassa nas hostes políticas, locais, no caso.
Uma pessoa humilde, quando muito, espera pelo elogio; uma pessoa vaidosa elogia-se a si própria.
Outra fotografia, abaixo publicada, é aquela imagem que fala mais do que mil palavras.
Junto à fita está quem o protocolo manda; ao lado, como quem não quer a coisa mas querendo, encontra-se o “emplastro”…
Nunca o ditado popular «quem não tem vergonha todo o mundo é seu» se mostrou tão verdadeiro!
DIREITOS RESERVADOS


Escrito por
José Manuel Souto Gonçalves
às 18h11 de sexta-feira


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