Porta arrancada e atirada para o fundo de uma loja «como se fosse uma folha de papel»
Os estragos da noite de temporal do passado dia 5 de agosto atingiram uma dimensão, no Calhau, na “fronteira” do Pico, muito maior do que a perceção inicialmente relatada por soutoemlinha.
Foram várias as habitações que sofreram danos avultados. É o caso do imóvel conhecido como “a casa do Dr. Sebastião”, onde este saudoso médico faialense, que foi presidente da Câmara Municipal da Horta, costumava passar as férias de verão, hábito mantido, até hoje, pelos seus herdeiros.
O filho primogénito de António Sebastião Goulart testemunhou a soutoemlinha que, em 78 anos, passou «todos os meses de Agosto no Calhau» e que não se recorda «de nenhuma tempestade eléctrica semelhante àquela» a que se assistiu na noite da passada quarta-feira.
José António Martins Goulart, presentemente a passar uma temporada no Calhau, lembrou que «aquando dos ciclones mais intensos, em diversas ocasiões», foram arrombadas «as reforçadas portas da loja» da sua casa. Porém, «este ano, pela primeira vez, foi por ação do vento que uma dessas portas foi arrancada e atirada para o fundo da loja como se fosse uma folha de papel».
E prosseguiu: «Seis quartos sofreram danos semelhantes. De notar que a janela tradicional de guilhotina, voltada a oeste, se encontrava fechada, bem como as portadas exteriores», o que não impediu que o caixilho tenha sido «arrancado e projectado para o interior do quarto».
VENTO A 130 KM/H
Soutoemlinha apurou que desde o porto do Calhau até ao Pocinho, a partir das 23h23 da passada quarta-feira e com a duração de 8 a 10 minutos, a velocidade do vento sustentado ultrapassou 130 km/h, com rajadas superiores.
Uma fonte conhecedora dos fenómenos meteorológicos explicou a soutoemlinha que a chuva no período mencionado apresentou as características de chuva horizontal, o que explica a inundação de algumas casas com a água que entrou diretamente por debaixo das telhas, mesmo as que não foram levantadas pelo vento.
À medida que são conhecidos pormenores sobre este minitornado, ou tornado de curta duração, fica-se com a noção de que algumas pessoas possam ter tido a vida em risco.
COMUNICADO DO INSTITUTO PORTUGUÊS DO MAR E DA ATMOSFERA (IPMA)
Durante a noite de 5 para 6 de agosto, uma depressão localizada na região do arquipélago dos Açores originou um episódio de forte instabilidade atmosférica, afetando principalmente os Grupos Central e Oriental.
Entre as 22h00 do dia 5 e as 10h00 do dia 6 de agosto (hora dos Açores), foram registadas cerca de 19 000 descargas elétricas nos Grupos Central e Oriental, evidenciando a elevada atividade elétrica associada às células convectivas que atravessaram o arquipélago.
A ilha do Pico foi a mais afetada pela atividade elétrica, tendo sido registadas 414 descargas elétricas na Rede de Deteção de Descargas Elétricas do IPMA, das quais 188 descargas nuvem-solo e 226 descargas intranuvem.
A situação foi igualmente marcada por precipitação por vezes forte, tendo o valor máximo registado sido de 30 mm numa hora, na ilha do Pico, entre as 22h00 e as 23h00 (hora dos Açores) do dia 5 de agosto.
Este episódio resultou da combinação de uma atmosfera muito instável, com elevado teor de humidade e condições favoráveis ao desenvolvimento de convecção profunda, originando trovoadas intensas acompanhadas por precipitação forte.
A monitorização deste episódio foi efetuada através da Rede de Deteção de Descargas Elétricas, da rede de estações meteorológicas e dos radares meteorológicos do IPMA, permitindo acompanhar em tempo real a evolução da atividade convectiva sobre o arquipélago.

Escrito por
José Manuel Souto Gonçalves
às 14h58 de sexta-feira
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