Dois bigodes de cinza de cortiça

Almocei, bem, no Snack Bar Bota Que Tem!
O carro seguiu, como se tivesse vontade própria, pela Espalamaca acima…
Ao lado da condutora, o Sol queimava um bocadinho:
— A primavera está à porta!
— Está quase, é verdade! Já tivemos inverno bastante.
Em Terça-Feira de Carnaval cumpria-se o velho hábito de dar a volta à ilha, durante a tarde.
Alguma diferença em relação aos anos sessenta e setenta do século passado?
Sim. Não passámos por quase carros nenhuns.
Neste dia, naquele tempo, a cidade começava a mexer-se tardiamente, pois, a madrugada anterior tinha obrigado a tomar o pequeno-almoço ao meio-dia, sobretudo quem participava no famoso baile de fantasias do Amor da Pátria.
Há que anos que isto foi, pois, ainda me lembro de ir à matiné do Fayal Sport atrás do Asilo na Segunda-Feira de Carnaval, que, depois, se transformou na maior manifestação carnavalesca da ilha, na sede-ginásio. E também me recordo das matinés do Artista (Grémio Artista) na Rua Serpa Pinto.
Mas, na Terça-Feira, logo a seguir ao almoço, em anos mais recentes, antes da volta à ilha, a rapaziada que cumpria o hábito de dar umas voltas de bicicleta na Praça da República, esperava com expetativa por um momento que se repetia religiosamente: a passagem de um mascarado, que percorria as principais ruas, com aparência de mulher; pernas bem torneadas luzindo com meias de vidro; ancas razoáveis; peito farto; passo miudinho em saltos altos; carteira sobre o antebraço; imperturbável no seu percurso, alheio a piropos.
Nos primeiros anos especulou-se muito sobre quem seria, até que, talvez por alguém o ter visto sair de casa, o mistério desvendou-se: era o polícia Abílio, que escondia o bigode com uma máscara feminina!
Depois da volta à ilha, ainda se chegava a tempo de ver as danças que vinham do campo atuarem na Praça da República, ao pé dos Correios e no Largo do Infante.
O que me dava porém mais gozo começava a acontecer logo depois de almoçarmos, não na cozinha, mas, na Terça-feira de Carnaval, no quarto de jantar.
Meu pai acendia uma vela, pegava na rolha da garrafa de vinho, e queimava-a. Depois de soprar para arrefecer, espalhando o cheiro, sob a ânsia minha e de meu irmão, fazia-nos duas bigodaças bem pretas!
A partir daí a gente andava “direitos como sargentos”, sem levar a mão à cara, com ar sério à procura de provocar risos.
No primeiro ano em que isso aconteceu, eu não tinha mais do que seis anos, provavelmente, já na parte final da volta à ilha, parámos, como era hábito, em casa de meu tio José Souto, à Cruz Nova, em Castelo Branco.
Hoje ainda ouço o tio José desfeito em gargalhadas ao ser confrontado com dois bigodes de cinza de cortiça!


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