Teria eu pouco mais de seis anos quando minha mãe me levou a casa de uma senhora velhinha, na Rua Advogado Graça, para aprender piano. Lembro-me de solfejar e de tocar dó-mi-sol, ré-fá-sol… A minha hoje reconhecida falta de persistência manifestou-se já nessa tenrísima idade: pedi para não voltar ao piano.
— Vais arrepender-te — avisou, premonitoriamente, minha mãe.
Tinha razão.
Na escola do Professor Rodrigues, ironicamente do lado de baixo da casa onde tomei contacto com o piano, aprendi, com as alunas da Escola do Magistério Primário da Horta, a cantar «esta era a moda que a Rita cantava; lá na praia nova, o-la-ré; ninguém lhe ganhava».
A gente aprendia depressa. Tomara! As alunas do Magistério eram todas bonitas…
Fomos a um espetáculo no Ginásio masculino do Liceu cantar «A moda da Rita». Pela primeira vez tive a noção do que é um mar de gente!
Só voltei a enfrentar o público no ambão da igreja Matriz da Horta, lendo na missa.
Desde então, em diversas ocasiões, estive diante do público, e passei a identificar bem a “dor de barriga” própria desses momentos. É uma impressão que corre todo o corpo e que só desaparece depois das despedidas.
Habituei-me e não nego que essa tensão aperfeiçoa o desempenho.
Nunca, porém, em mais de 60 anos de vida, julguei subir a um palco para… tocar trombone!
Aconteceu hoje, no palco do Castelo Branco Sport Clube, na festa de Natal da Filarmónica Euterpe, durante a qual a Escola de Música se apresentou.
Tenho que ser honesto e admitir que não toquei todas as músicas do princípio ao fim, mas, pelo menos, dei a primeira e a última nota, e “arranhei” algumas pelo meio!
Estive para não ir, estava inseguro. Os meus professores e colegas, no entanto, convenceram-me. E não me arrependo!
Todo o bicho ao nascer é feio e acredito que vou realizar um velho sonho: tocar numa filarmónica!
FOTOGRAFIA: Momentos antes da atuação




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