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REPORTAGEM

Paulo Barcelos: perdeu-se a oportunidade de classificar a erupção como sendo do tipo “capeliniana” | fotografia de Artur Simões
A longa reportagem fotográfica de Luís Decq Mota sobre o Vulcão dos Capelinhos é agora uma fotobiografia
A famosa, com um valor cultural e patrimonial incalculável, coleção fotográfica (ou reportagem fotográfica, se se quiser) sobre a erupção do Vulcão dos Capelinhos em 1957-58, da autoria do médico Luís Carlos Decq Mota, está editada em livro.
A obra intitula-se «Capelinhos — Fotobiografia de um Vulcão» e é dada à estampa pela Associação Os Montanheiros e pela editora Letras Lavadas. Foi apresentada no início desta semana, no auditório da Biblioteca João José da Graça, na Horta. Inclui, além das fotografias de Luís Decq Mota, imagens captadas por José Agostinho, tenente-coronel e reputado meteorologista.
Textos e legendas foram escritos por José Decq Mota, Jorge Paulus Bruno, Salomé Meneses e Paulo Barcelos. Paulo Henrique Silva restaurou e digitalizou as fotografias.
Fica, deste modo, preservado um importante testemunho da que é das mais significativas catástrofes naturais alguma vez presenciada por humanos no arquipélago dos Açores, fenómeno que fez Portugal crescer cerca de dois quilómetros quadrados, conforme disse, em tom jocoso, o presidente de Os Montanheiros, Paulo Barcelos.
Paulo Henrique Silva sublinhou, por seu turno, que está garantida, em livro, a conservação de um espólio que, a ficar-se pelo digital, correria o risco de desaparecer, pois, não há a garantia de que os “artefatos” eletrónicos tenham continuidade.
CONTRIBUTO DE ELISA
Da mais de meia centena de descendentes de Luís Carlos e Elisa Decq Mota, marcou presença na sessão uma significativa parte, daí que a atmosfera da sala se tenha imbuído de recordações, por uns vividas, por outros imaginadas, e partilhadas por vários outros faialenses que estiveram neste encontro.
Coube a José Decq Mota, cativante e fluente no discurso, como é o seu habitual registo, o papel de enquadrar o momento.
O mérito da iniciativa do pai, ao fotografar o Vulcão em atividade, do princípio ao fim, tornou-se bem patente, sem ter ficado olvidado o quase anónimo contributo da esposa, a quem se deve a pachorra, e a visão, de organizar os 13 álbuns com as 500 fotografias (do autor, da Foto Jovial, da Jassil e de Ilda Rebelo) desta coleção fotográfica, cronologicamente ordenadas e, muitas delas, datadas. «Estamos a ler o livro e estamos a ver o Vulcão desde o primeiro até ao último dia», testemunhou José Decq Mota.
NINGUÉM MORREU
Em qualquer momento da História, a erupção dos Capelinhos seria impactante (o termo está em voga), porém, na década de 50 do século passado, a conjuntura económica e social produziu efeitos que se estenderam — e continuam a estender-se — por décadas, potenciando a singularidade do fenómeno.
«Nos Açores, nos anos cinquenta, vivia-se uma situação económica e social muito difícil; o atraso era grande; a economia assentava na subsistência agrícola e piscatória; já havia laticínios e conservas de peixe, mas eram indústrias sem escala; a caça à baleia contribuía pouco para quem essa atividade produzia», descreveu, com conhecimento de causa, orador.
O Faial acompanhava, tristemente, a dura realidade das ilhas: «Na Horta tinha-se acentuado muito esta situação de atraso porque a atividade portuária caiu, depois de ter sido intensa entre as Guerras, por causa do abastecimento de carvão e da reparação de navios. A ocupação de muitas pessoas esgotou-se», continuou José Decq Mota, como se estivesse dando uma aula.
Sem ser professoral, deu, de facto, uma lição sobre várias matérias: «Quando começou aquela erupção e uma parte substancial da superfície agrícola utilizada na ponta oeste do Faial ficou, em poucos meses, inutilizada em termos produtivos, surgiram problemas muito sérios. A própria atividade piscatória na zona foi durante algum tempo afetada. Apareceram muitos peixes mortos!»
EMIGRAÇÃO
O aspecto humano, o mais importante, ficou descrito com o seguinte relato: «Um emigrante, mais velho do que eu, que hoje tem uma casa no Capelo, disse-me que a sua família era constituída pelos os pais e sete irmãos, que não viviam mal. Uns quantos trabalhavam nas terras, um dava dias às Obras Públicas, outro ia para o mar, e de um mês para o outro ficaram sem nada daquilo que servia a casa.»
O resto do drama, sobejamente divulgado, conhecido, relatado, estudado e, sobretudo, sentido, por toda a população do Faial e de muitas ilhas ilhas, resume-se na síntese de José Decq Mota: «Deu-se, então, a emigração, cujo impacto o livro mostra.»
Com a memória bem aguçada («são recordações que ficaram e ficarão para sempre») Decq Mota, escutado com atenção pelo auditório, sublinhou que «nesses anos 60, o Vulcão, parado, continuou com as suas consequências, pois a população do Faial passou de 26 ou 27 mil em 1957 para 15 mil, ou até ligeiramente menos até 1967-68». E acrescentou um pormenor curioso: «No Liceu, acontecia muitas vezes que começávamos o ano com 25 ou 26 alunos, mas, pelo Natal, já só estavam 22 ou 23, porque as famílias tinham emigrado.»
«Não morreu ninguém, é verdade, mas ocorreram grandes alterações na vida das pessoas», rematou.
BRINCAR NO VULCÃO,
OU COM O VULCÃO
O presidente de Os Montanheiros, na sua intervenção de apresentação do livro, destacou o capítulo intitulado «contemplação», que apresenta fotografias mostrando pessoas que se deslocaram para muito perto do Vulcão.
Ligado à Proteção Civil, Paulo Barcelos admitiu que, atualmente, seria impensável assistir de bancada a um fenómeno deste género, que acontecerá novamente, advertiu, dada a natureza vulcânica do nosso arquipélago, pois, cada dia que passa é um dia a menos na contagem decrescente para o próximo vulcão.
Quem conhece, minimamente, os relatos sobre o Vulcão já ouviu falar da «praia nova», que se formou na costa oeste do Faial com as areias expelidas na erupção.
A este propósito, José Decq Mota lembrou uma fotografia da coleção que já correu mundo, tirada pelo seu pai a 20 de abril de 1958: «O Vulcão estava parado havia oito dias. Era um dia fresco, mas não frio. Fomos [o pai e três filhos], no nosso carro, um Morris Oxford preto, que ficou fora da casa do José da Rosairinha, e descemos a Canada da Braça até à antiga linha de costa e passámos à praia nova. Eu tinha oito anos, a Elisa tinha quatro e o Luís Carlos tinha nove. Brincámos bastante. Aproximámo-nos, aos poucos, do Vulcão e, de repente, aconteceu uma explosão enorme, com cinzas compactas, que atingiram os dois mil metros talvez. Depois o vento começou a soprar do mar e aquelas cinzas espalharam-se todas para cima da ilha.»
ÊXODO
Nos quase 13 meses e atividade do Vulcão dos Capelinhos a noite de 12 para 13 de maio foi, se não a mais, pelo menos das mais terríveis, devido à sucessão e intensidade de abalos de terra, que ocorreram quase ininterruptamente.
«A Praia do Norte caiu», foi a notícia recordada por José Decq Mota que, apesar da sua tenra idade, se mantinha atento ao que se passava à sua volta. Era todo ouvidos: «Escutei meu pai e o capitão do Porto da Horta, comandante Chaby Lara, a conversarem a propósito do Vulcão da Caldeira que começara a funcionar.»
A apreensão era grande, pois, «não era preciso ser cientista para concluir que, se o Vulcão da Caldeira, no centro da ilha, tivesse a atividade que os Capelinhas tinham na ponta oeste, seria uma coisa que prejudicaria toda a ilha», explicou.
Um dos episódios mais marcantes aconteceu por essa altura, conforme descreveu José Decq Mota: «Na noite de 12 para 13 de maio houve uma certa complacência, se calhar um pouco mais do que isso, para a deslocação de pessoas, nomeadamente de mais idade e crianças, para o Pico. Parece que, usando as lanchas do Pico, os barcos do Pico, barcos de pesca, etc. saíram do Faial cinco mil pessoas».
PAIXÃO
À medida que o Vulcão se distanciou no tempo, a coleção fotográfica de Luís Carlos Decq Mota foi sendo procurada por muita gente que visitava a sua casa, nomeadamente cientistas, entre os quais Haroun Tazieff, geólogo polaco, naturalizado belga, terra da avó paterna de José Decq Mota, de quem herdou o “Decq” e que era fluente em francês.
A mãe de Luís Carlos Decq Mota tornou-se a intérprete privilegiada do seu conterrâneo e assim contribuiu para uma aproximação do médico ao cientista, os quais se apaixonaram pelo Vulcão. «Tenho a ideia que meu pai, num certo sentido, se apaixonou pelo Vulcão», deduz José Decq Mota, que adiantou: «O Tazieff ligava muitas vezes ao meu pai para saber do Vulcão.»
A título de curiosidade e contextualizando, uma vez mais, os acontecimentos, José Decq Mota contou um episódio pitoresco.
A obra da Avenida Marginal da Horta estava em obras quando o Vulcão “rebentou”. O engenheiro responsável pelo empreendimento, que estava a ter dificuldades devido à ondulação que lhe estragava o serviço, desabafou: estou aqui há um ano para fazer 12 metros, e vem um Vulcão e faz uma ilha num instante!
OPORTUNIDADE PERDIDA
Paulo Barcelos, falando também sobre o fenómeno vulcânico ocorrido nos Capelinhos, explicou que aquele tipo de erupção «era, até à época, pouco estudada e não tinha ainda sido devidamente descrita nos cânones da comunidade científica internacional», ao contrário do que aconteceu no Faial em 1957 e 1958, quando a atividade mereceu grande acompanhamento e foi «bem documentada, publicando-se alguns trabalhos científicos no período imediato».
«Aproveitando a oportunidade essa tipologia de erupção e de vulcão deveria ter sido classificada como uma erupção do tipo “capeliniana”», o que não aconteceu, segundo o presidente de Os Montanheiros.
«Essa honra» foi dada «à ilha islandesa de Surtsey, que emergiu das águas seis anos depois, passando estes fenómenos vulcânicos a serem denominados como erupções do tipo Surtseiano», informou Paulo Barcelos, lamentando a oportunidade perdida.
Paulo Henrique Silva, autor de diversos trabalhos sobre preservação ambiental e património natural, assegurou, por último, que a coleção de fotografias de Luís Carlos Decq Mota «é das mais importantes da vulcanologia mundial».

José Decq Mota lembrou que a máquina que fotografou o Vulcão foi destruída numa arriada à baleia | fotografia de Artur Simões
O portal soutoemlinha entrevistou José Decq Mota no final da sessão de apresentação do livro (áudio):


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