José Fialho lamenta «argumentos utilizados» e a «forma como algumas forças partidárias se colocaram» | fotografia com direitos reservados
«Esta ideia, se tivesse surgido em outra ilha, teria logo sido apoiada, mas, no Faial, tudo é mais difícil»
Foi deste modo que o responsável da Rádio Azores High respondeu ao portal soutoemlinha quando solicitado a pronunciar-se sobre a polémica provocada pelo cancelamento da cobertura jornalística que a rádio e o portal tinham anunciado para as Eleições Autárquicas.
Em plena pré-campanha eleitoral o mundo político faialense foi inundado por reações ao comunicado da Azores High e de soutoemlinha que deu conta, na noite de segunda-feira, 1 de setembro de 2025, da falta de «consenso sobre a idoneidade do moderador dos debates programados».
Ao fim da tarde daquele dia reuniram-se no estúdio da rádio, à Vista Alegre, quatro representações dos concorrentes às Autárquicas, sem a presença do Chega.
Os socialistas foram os primeiros a marcar presença através de Hugo Oliveira, que integra a lista do PS à Assembleia de Freguesia das Angústias, e do candidato a vice-presidente da Câmara Municipal, Frederico Soares.
Chegaram, depois, o diretor de campanha da coligação Juntos pelo Faial (JPF), composta pelo PSD, CDS e PPM, Carlos Morais, e o segundo candidato da lista à Assembleia Municipal, Rui Martins.
Entraram no estúdio, por fim, a candidata à presidência da Câmara Paula Decq Mota da Coligação Democrática Unitária (CDU) e o candidato ao mesmo cargo do Bloco de Esquerda (BE), Tomás Melo.
EXPLICAÇÕES SOBRE O DEBATE
O jornalista Souto Gonçalves explicou os pressupostos e o objetivo da iniciativa de fazer a cobertura jornalística das Autárquicas, que resumiu dizendo tratar-se de contribuir para a informação da população num ato eleitoral que implica diretamente as localidades.
Souto Gonçalves disse, ainda, que poderia haver a expectativa de que os debates programados fossem realizados na Antena Nove, a rádio a que esteve ligado durante largo tempo. Isso não aconteceu, adiantou, devido à falta de interesse por propostas semelhantes anteriores. Pelo contrário, a Azores High acolheu, de imediato, o projeto.
Os presentes, depois de saudarem o que lhe fora apresentado como cobertura jornalística das Autárquicas, encetaram uma discussão sobre aspectos instrumentais relacionados, nomeadamente, com a forma como decorreriam os debates; a ordem pela qual ocorreriam; as datas de realização; o tempo destinado a cada candidato, etc.
Neste contexto, os partidos fizeram sentir que foram apanhados de surpresa com o anúncio de debates por freguesia, que aconteceriam pela primeira vez, e confrontados, sem qualquer diligência prévia, com a programação delineada pelos organizadores.
A este propósito, com alguma ironia, Carlos Morais lembrou que, quando se organiza um baile, primeiro se conversa com o conjunto musical, com equipa de som, com quem vai estar no bar, quem monta as mesas e as cadeiras… mas, também acrescentou que vai ao baile quem quer!
Perante a reação do jornalista, que sublinhou a frase final — «vai ao baile quem quer», ficou claro que existia uma divergência notória quando ao modo de condução do assunto.
Souto Gonçalves perguntou com que antecedência, então, as abordagens deveriam ser feitas, interrogando-se se seria necessário fazê-lo, porventura, seis meses antes.
As dificuldades que os candidatos das freguesias poderiam ter para se apresentar a debate também foram levadas à discussão. Falou-se, por exemplo, da coincidência de datas com as festas em certas freguesias, bem como de impedimentos de ordem pessoal, de saúde, ou profissional, e, até, da pressão que um confronto político na rádio poderia exercer sobre quem nunca teve tal experiência.
Veio, igualmente, à baila a iniciativa do jornalista, classificada por Paula Decq Mota como “deselegante”, de contacto direto com os candidatos depois de ele próprio ter solicitado às estruturas partidárias números de telemóvel e e-mails, atitude que os representantes da coligação JPF verberaram energicamente.
Entretanto, quer Souto Gonçalves, quer José Fialho, foram mostrando a sua recetividade relativamente às propostas apresentadas, nomeadamente, no que dizia respeito a tempos concedidos aos candidatos e à ordem pela qual os debates seriam feitos.
RUMO DOS ACONTECIMENTOS ALTEROU-SE
O rumo dos acontecimentos começou a alterar-se quando Carlos Morais criticou fortemente o facto de o jornalista ter publicado uma crítica no Facebook sobre um telefonema entre ele próprio e Souto Gonçalves.
A acusação incidiu sobre o que Carlos Morais classificou de «transcrição» da conversa.
Souto Gonçalves alegou que não tinha identificado ninguém no dito comentário, mas, o calor da discussão não foi favorável ao esclarecimento total da querela.
Em causa estava o seguinte texto:
«Vai senão quando e sou prontamente admoestado por um dirigente partidário, que queria para si o exclusivo do controle da situação. Pois tive que lhe dizer que um jornalista não pede autorização a ninguém para contactar seja quem for!»
Como se pode, facilmente, concluir, não se tratou de uma transcrição, pois, segundo o dicionário, transcrição é «escrever a mesma coisa noutro local». Resumindo: não foi transcrita a conversa, nem identificado o autor, ficando por perceber a razão pela qual Carlos Morais assumiu as dores provocadas pela crítica.
Entrou, depois, na altercação Rui Martins, expondo outras razões para a coligação JPF considerar o jornalista inapto para a função específica de moderar o debate.
Afirmou que Souto Gonçalves «ainda» era oposição política à Câmara uma vez que, no mandato em curso, se candidatou à Presidência do órgão.
Questionado, diretamente, por Souto Gonçalves, o representante da coligação JPF confirmou a denúncia de ausência de «imparcialidade, isenção e equidistância» do jornalista, que este leu como uma forma de tentar desautorizá-lo através do questionamento da sua idoneidade.
Rui Martins selou a sua invectiva pronunciando-se sobre o carácter e a personalidade do jornalista dizendo que este se julga mais do que os outros e que pensa que tem sempre razão, atuando de forma agressiva nas suas intervenções escritas.
Visivelmente incomodado, Souto Gonçalves não teve outra saída senão perguntar a Rui Martins se ele estaria ali para tratá-lo mal.
Neste quadro beligerante Souto Gonçalves declinou, sem apelo nem agravo, o papel de moderador que estava previsto desempenhar.
Na opinião do jornalista, expressa para soutoemlinha, «deixaram de existir, naquele momento, as condições, de ordem pessoal, para realizar o trabalho de moderador».
«Sem discutir os argumentos que foram aduzidos pela coligação JPF, repudio um julgamento com base numa suposição, segundo o qual se presume que os debates seriam moderados de forma parcial, esquecendo-se, também, que isenção, imparcialidade e equidistância não é uma obrigação exclusiva dos jornalistas, mas, também, de quem presta qualquer serviço público; ou seja, os partidos não podem fazer prevalecer os seus interesses particulares sobre o interesse geral dos cidadãos», diz Souto Gonçalves.
TRIBUNA DAS ILHAS PROPOSTO
Antes do encontro terminar foi sugerida ao responsável da Azores High o convite a um novo moderador, que José Fialho, prontamente, recusou, alegando que a parceria entre a rádio e o portal dão dava lugar a esse tipo de alteração.
Carlos Morais achou por bem, mesmo assim, sugerir a moderação do semanário Tribuna das Ilhas.
Perante uma reação estrepitosa, sobretudo, do Partido Socialista, ainda insistiu no nome da jornalista Susana Garcia.
JOSÉ FIALHO: FAIALENSES PERDERAM
Solicitado por soutoemlinha a pronunciar-se sobre os acontecimentos aqui relatados, José Fialho «apenas» lamentou «tudo aquilo que se passou, pelos argumentos utilizados e pela forma como algumas forças partidárias se colocaram».
«Um debate — prosseguiu — é, de facto, um instrumento democrático importantíssimo, tendo em conta que permite o esclarecimento dos cidadãos sobre propostas e opiniões. Posso concluir que há receio de que alguns candidatos não estejam preparados e/ou há receio de confrontar ideias. Duvidar da idoneidade do moderador e sugerir outro é brincar com coisas sérias».
Com uma vasta experiência no meio radiofónico, José Fialho adiantou que «convém esclarecer que compete ao órgão de Comunicação Social organizar, definir e apresentar e depois convidar as forças políticas a participarem e nunca perguntarem antes se o querem fazer.»
E concluiu: «Esta ideia, se tivesse surgido em outra ilha, teria logo sido apoiada, mas, no Faial, tudo é mais difícil. Se alguém perdeu com tudo isto foram os faialenses e a própria democracia. Esta é a única vez que me pronunciarei sobre este facto, porque não tenho tempo, nem idade e muito menos pachorra para mais».
Parceria Rádio Azores High — soutoemlinha
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