Os tempos de infância dos velhos como eu — sabe-o bem quem tem a minha idade — eram muito diferentes dos que hoje vivemos.
Quando os recordamos, já com o peso da nostalgia, somos levados a pensar que antes é que era bom!
Em certos aspectos isso é verdade, porque a saudade provoca o desejo impossível de voltar a viver episódios passados.
Se queremos repetir é porque foi bom.
Meu pai recorria, muitas vezes, a mão-de-obra ocasional para resolver pequenos problemas dos negócios em que se envolveu em toda a sua vida.
Certo dia foi preciso remendar o soalho da nossa mercearia, na Rua Serpa Pinto.
Veio para baixo um carpinteiro albicastrense, não propriamente uma sumidade no ofício, com habilidade, porém, suficiente para atender ao assunto.
Conforme tantas vezes aconteceu com outros, o dito trabalhador almoçou em nossa casa, pois, tinha vindo para a cidade na camioneta da carreira e assim regressaria.
Sabe-se que a refeição é um momento propício ao convívio. Minha mãe, com uma ironia disfarçada, mas aguda, deitou grão…
Pitoresca, esta figura albicastrense era conhecida pela sua boa disposição e veio à baila o seu longo e bem firmado casamento.
Contou o senhor Manel que tivera dificuldade em encontrar uma mulher que lhe enchesse as medidas, numa altura em que o matrimónio era para a vida.
Decidiu, então, ir ao Pico, à procura.
Encontrou-a na fronteira, contudo, por via das dúvidas, ainda deu uma volta à ilha com a expectativa de se poder cruzar com algo melhor.
Voltou p’ra trás, no entanto, e decidiu-se de vez.
Com um ar compenetrado, ao contrário do que com que tinha iniciado o relato, desabafou:
— Ó senhora Marquinhas, as piores coisas que um homem tem em si “é” os nervos e o amor!
Meus caríssimos leitores,
Vem isto a propósito do período em que entrámos e que vai durar as próximas semanas.
Os nervos estão a apoderar-se de muita gente e o “amor” às respetivas causas tolda o raciocínio.
Estou a falar da campanha eleitoral, em que o “amor” aos partidos turva a visão das coisas e os nervos tornam irreconhecíveis, pelo seu comportamento, cidadãos supostamente respeitáveis.
E nem são tanto os da frente, são aqueles que cabem bem no perfil de mais papistas do que o Papa.



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