Dentro de três meses ocorrerão eleições autárquicas. Já há candidatos na Horta e outros serão conhecidos em breve. Entretanto, passaram 13 eleições democráticas…
É preciso recuar aos anos 90 do século passado para se encontrar um traço comum entre as eleições autárquicas daquele período e as que se vão realizar no ano em curso. A existirem outros, o que aqui se menciona merece especial relevo, pelo menos no que toca a uma característica que sobressai no perfil dos candidatos objeto da comparação em causa.
Embora estejamos a falar de candidatos, e depois presidentes, com personalidade muito diferente, existe, do ponto de vista do perfil, uma semelhança: a popularidade, que potencia a notoriedade.
Como o autor deste texto já escreveu anteriormente o PSD encontrou o seu Renato Leal e conseguiu, após oito eleições, quebrar a hegemonia socialista no concelho da Horta.
Em 1989, o Partido Socialista, que vinha sendo esmagado eleitoralmente desde 1976, ano das primeiras «Autárquicas» depois do 25 de Abril, deu a volta ao texto.
Até essa altura, em quatro eleições (1976, 1979, 1982, 1985), os sociais-democratas tinham conseguido sempre, para a Câmara Municipal, mais do dobro dos votos dos socialistas, somando valores superiores a 4 mil votos (em 1979 faltaram 94 votos para 5 mil, curiosamente, com um candidato austero, Augusto Sequeira, neste plano situado nos antípodas do que hoje se considera fator decisivo para o sucesso eleitoral).
Coube a Renato Leal, cuja notoriedade e popularidade começava a despertar, fruto do seu carisma e dos inúmeros convites para a apresentação de espetáculos e sessões públicas, travar o PSD, disputando a eleição contra uma lista à partida politicamente mais bem preparada para a função, faceta que lhe era associada pela presença, como primeira figura, de Ricardo Madruga da Costa.
Renato Leal conseguiu que o PS se vingasse das humilhantes derrotas. O PSD fazia gala dessa superioridade, atribuindo, na Câmara, aos vereadores socialistas, pelouros que induziam algum desprestígio, pelo menos na mente de certos fanáticos, como era o caso do pelouro do cemitério.
À segunda eleição, este professor de línguas, que se transformou, no dizer de um correligionário, «numa fábrica de produzir votos», saboreou com os seus camaradas uma vitória com o significado numérico que o PSD vinha a exibir: mais de 4 mil votos.
Há quem diga que dos seus dois mandatos completos e um incompleto restou apenas a popularidade até então inaudita na política faialense. Mário Frayão chegou a referir-se a Renato Leal, em tom crítico, como «um presidente que se deslumbrou consigo próprio», apreciação premonitória numa análise sobre outro presidente da Câmara Municipal da Horta. Numa visita ao polivalente de Pedro Miguel, João Castro, na altura em funções, manifestou-se publicamente surpreendido, pela positiva, com as realizações do seu próprio executivo!
A intromissão dos comunistas
Vejamos, então, o traço comum referido no princípio deste texto e que se pode estabelecer entre Renato Leal e Carlos Ferreira.
Depois do pontapé que expulsou o PSD da liderança do Município da Horta só passados 32 anos é que os sociais-democratas voltaram a festejar uma vitória, agradecendo, sobretudo, ao antigo comandante da PSP essa proeza, depois de o Partido ter empenhado líderes locais ou figuras de relevo político naquela que se tinha transformado, por demasiado tempo, numa missão quase impossível.
Nesse longo período e no auge da carreira política de Renato Leal o PSD encaixou o seu pior resultado de sempre para a Câmara Municipal da Horta (1.925 votos), cujo responsável é o autor deste texto, o qual, não satisfeito com a “lição”, voltou a candidatar-se, à frente de um Grupo de Cidadãos Eleitores, em 2021, abrindo um fosso ainda maior entre o que seria um resultado digno e uma derrota humilhante.
A única consolação que lhe resta é ter debatido, em 1997, com duas figuras gradas da política local e regional (Renato Leal e José Decq Mota), e, em 2021, com a “coqueluche” (Carlos Ferreira) da vida mediática faialense.
Falando em desempenhos, recorde-se 1979, quando o PSD chegou perto dos 5 mil votos, e 1985, segundo mandato do inesquecível Herberto Dart, eleições em que o PS averbou as piores derrotas em número de votos, ainda hoje as mais expressivas em 13 escrutínios.
Enquanto isto, os comunistas lograram intrometer-se na disputa da Câmara e conseguiram a eleição para vereador do seu líder regional José Decq Mota em 1997, quando, pela primeira vez, um terceiro partido entrou na Vereação, à custa do PSD, repetindo, com mais sucesso, a façanha, elegendo dois vereadores em 2005, retirando um ao PS e outro ao PSD. Nesta ocasião única a Câmara Municipal da Horta foi gerida por uma «maioria plural», assim designada pelos seus protagonistas, composta pelo PS e PCP/PEV (CDU).
A popularidade, e a notoriedade, também foram, como nos casos de Leal e Ferreira, fatores decisivos para a obtenção de um bom resultado eleitoral, já que o valor político de José Decq Mota superava, largamente, o do Partido e Coligação que representou.
Perdendo por uns escassos 351 votos em 2017 e ganhando por 540 votos em 2021, mas, ultrapassando, por 33 votos, a barreira psicológica dos 4 mil, Carlos Ferreira respira confiança no limiar de mais uma campanha eleitoral.
Nos campos da notoriedade e da popularidade o agora anunciado oficialmente recandidato da Aliança Democrática dos Açores (PPD/PSD, CDS-PP, PPM) à Câmara Municipal da Horta passeia-se tranquilamente, do mesmo modo como o faz nas redes sociais, lembrando o imbatível Renato Leal na sua melhor fase (antes da queda eleitoral que, depois, veio a sofrer para a Assembleia Municipal).
Mudam-se os tempos e as vontades. Antes, ou seja, na última década do século passado, eram as tascas e a cerveja que iam amealhando votos; hoje, embora se continue a encostar a barriga ao balcão, os meios são mais sofisticados e multifacetados, se bem que os fins continuam, no entender de quem os persegue, a justificar os meios.
Carlos Ferreira, em 17 cabeças-de-lista, entre 1976 e 2021, é o único que ganhou uma eleição para a Câmara Municipal da Horta depois de ter perdido numa candidatura anterior para o mesmo cargo.
Quase todas as recandidaturas ao lugar de primeira figura do Município resultaram bem, tendo ocorrido após eleições precedentes igualmente bem-sucedidas, à exceção dos casos de Fernando Dutra, que foi eleito presidente em 1976 e derrotado em 1993, e de José Leonardo, eleito em 2013 e 2017, mas perdedor em 2021.
Mais candidatos em breve
Para a corrida que se aproxima o primeiro partido a apresentar candidato foi o PS, embora toda a gente esperasse que o anúncio da recandidatura de Carlos Ferreira fosse dado adquirido, como se confirmou nos últimos dias, quando o PSD apresentou os seus cabeças-de-lista para a generalidade dos concelhos dos Açores.
Inês Sá, deputada do PS pelo Faial, já assumiu o protagonismo e encontra-se em plena pré-campanha, o mesmo se podendo dizer da Coligação maioritária na Câmara, embora esta o faça, como é habitual, aliás, em quem detém o poder, com os meios da autarquia.
Infelizmente, ninguém espera nada de novo em mais uma campanha em aproximação. Já se percebeu que tudo, ou quase tudo, andará à volta da reciprocidade de acusações entre Coligação e PS.
Talvez os partidos que, normalmente, têm menos possibilidades de elegerem vereadores poderão encetar debates alternativos, embora com pouco sucesso junto do eleitorado, já que os votantes, afinal de contas, não conseguem rasgar a tendência bipolar que as eleições autárquicas têm revelado no Faial.
A Comunicação Social do Faial teria uma palavra a dizer neste particular, contudo, a sua fraqueza presente e a emergência das redes sociais desvalorizam a importância que antes era atribuída aos jornais, à rádio e mesmo à televisão. O público prefere a volatilidade dos curtos vídeos da Internet, ou a chacota dos “posts” instantâneos, prescindindo da reflexão e da informação, e as forças políticas dão prioridade aos canais que elas próprias controlam (redes sociais), desviando-se do questionamento sério do jornalismo.
O PCP/PEV (CDU) aponta ao mês de julho para divulgar candidaturas; o Bloco de Esquerda vai fazê-lo nesta semana; o CHEGA terá as candidaturas fechadas até ao dia 15 do próximo mês e da Iniciativa Liberal soutoemlinha não conseguiu, ainda, qualquer informação.
O histórico de votações autárquicas no Faial conjugado com a situação política atual pode levar à conclusão de que o Bloco de Esquerda e a Iniciativa Liberal, mais esta do que aquele, terão dificuldade em fazer mais do que cumprir calendário.
Em face dos resultados das últimas eleições (para a Assembleia da República) ficou no ar a ideia de que o CHEGA poderia ter uma palavra a dizer. O Partido convidou Gerson Silva para encabeçar a lista à Câmara, mas, a resposta foi não e as dificuldades na formação das listas são um facto.
Neste quadro, apesar do nada encorajador desempenho da CDU em geral nos últimos tempos, a Coligação de Esquerda (CDU) tem sempre o trunfo Decq Mota para jogar, que, mais uma vez, poderá chamar-se Paula.
Apesar de dada como adquirida a vitória de Carlos Ferreira, a Coligação de Direita (PPD/PSD, CDS-PP, PPM) enfrenta dificuldades, aliás extensivas aos outros concorrentes, na composição de listas, o que poderá enfraquecer o seu desempenho eleitoral.
Dificilmente o PS capitalizará essa circunstância, não só pelas imensas dificuldades que está e encontrar para atrair gente disponível, mas também devido à difícil cura de oposição que sofre presentemente.
O ideal seria, em nome de um refrescamento democrático, introduzir no mapa político faialense novas ideias, novas formas de ação, e, principalmente, novas atitudes, com a ascensão à Câmara de vozes de fora da caixa.
Sendo (praticamente) certo que lá continuarão PSD e PS, restaria a CDU e o CHEGA, embora este partido esteja com grande dificuldade em atrair um candidato com estatura política merecedora de respeito pelo eleitorado. Porém, se isso acontecesse, ficar-se-ia a saber o que é que o Faial prefere quanto a opções políticas na gestão do seu Município, visto que, de certo modo, se poderia assistir a um medir de forças entre dois concorrentes claramente opostos: CDU e CHEGA. É que, quanto ao PSD e o PS, todos sabemos o que é que a casa gasta.
Em jeito de remate, aqui fica uma declaração de que, para o autor deste texto e deste portal, não há partidos melhores, nem piores, há, sim, partidos alternativos entre si, uns, naturalmente, mais do que outros. Não vale a pena, portanto, aos radicais, sejam eles de que extremo forem, quererem impor a sua ditadura de pensamento e de oportunidade, tal como aos ditos moderados de nada servirá reclamarem privilégio. Quaisquer uns deles terão expressão nos textos de carácter jornalístico. Nos escritos que forem de opinião, prevalecerão, obviamente, as convicções do autor.
ELEIÇÕES AUTÁRQUICAS DE 1976 A 2021
CÂMARA MUNICIPAL DA HORTA
1976
PPD/PSD: 4.497 votos (61,40%) — 5 mandatos
PS: 2.123 votos (28,99%) — 2 mandatos
CDS: 284 votos (3,88%)
FEPU: 174 (2,38%)
1979
PPD/PSD: 4.906 votos (62,95%) — 5 mandatos
PS: 1919 votos (24,62%) — 2 mandatos
APU: 373 votos(4,79%)
CDS: 309 votos (3,97%)
UDP: 83 votos (1,07%)
PCTP/MRPP: 26 votos (0,33%)
1982
PPD/PSD: 4.356 votos (55,33%) — 5 mandatos
PS: 2.120 votos ((26,93%) — 2 mandatos
CDS-PP: 565 votos (7,18%)
APU: 428 votos ((5,44%)
UDP: 127 votos (1,61%)
1985
PPD/PSD: 4.236 votos (60,16%) — 5 mandatos
PS: 1.518 votos (21,56%) — 2 mandatos
APU: 621 votos (8,82%)
CDS: 511 votos (7,26%)
1989
PS: 3.360 votos (44,96%) — 4 mandatos
PP/PSD: 3.232 (43,24%) — 3 mandatos
CDS: 385 votos (5,15%)
PCP/PEV: 331 votos (4,43%)
1993
PS: 4.141 votos (51,54%) — 4 mandatos
PPD/PSD: 3.065 votos (38,15%) — 3 mandatos
PCP/PEV: 467 votos (5,81%)
CDS-PP: 196 votos (2,44%)
1997
PS: 3.523 votos (46,90%) — 4 mandatos
PPD/PSD: 1.925 votos (25,63%) — 2 mandatos
PCP/PEV: 1.672 votos (22,26%) — 1 mandato
CDS-PP: 234 votos (3,12%)
2001
PS: 3.490 votos (46,40%) —4 mandatos
PPD/PSD: 2.876 votos (38,24%) —3 mandatos
PCP/PEV: 824 votos (10,96%)
CDS-PP: 146 votos (1,94%)
2005
PS: 2.926 votos (38,14%) — 3 mandatos
PPD/PSD: 2.034 votos (30,04%) — 2 mandatos
PCP/PEV: 2.051 votos (26,74%) — 2 mandatos
CDS-PP: 155 votos (2,02%)
BE: 78 votos 78 votos (1,02%)
2009
PS: 3.834 votos (45,17%) — 4 mandatos
PPD/PSD: 3.447 votos (40,62%) — 3 mandatos
PCP/PEV: 779 votos (9,18%)
BE: 123 votos (1,45%)
CDS-PP: 105 votos (1,24%)
2013
PS: 4.207 votos (52,43%) — 4 mandatos
PPD/PSD.CDS-PP.PPM: 2.729 votos (34,01%) — 3 mandatos
PCP/PEV: 413 votos (5,15%)
BE: 303 votos (3,78%)
2017
PS: 3.872 votos (47,08%) — 4 mandatos
PPD/PSD.CDS-PP: 3.521 votos (42,81%) — 3 mandatos
PCP/PEV: 394 votos (4,79%)
PAN: 151 votos (1,84%)
BE: 120 votos (1,46%)
2021
PPD/PSD.CDS-PP.PPM: 4.033 votos (47,80%) — 4 mandatos
PS: 3.493 (41,40%) — 3 mandatos
PCP/PEV: 419 votos (4,97%)
BE: 168 votos (1,99%)
SOMOS FAIAL: 124 votos (1,47%)
PRESIDENTES DE CÂMARA:
1976
Fernando Dutra
1979
Augusto Sequeira
1982
Herberto Dart
1985
Herberto Dart
1989
Renato Leal
1993
Renato Leal
1997
Renato Leal
2001
Rui de Jesus
2005
João Castro
2009
João Castro
2013
José Leonardo
2017
José Leonardo
2021
Carlos Ferreira
CABEÇAS-DE-LISTA DA OPOSIÇÃO ELEITOS VEREADORES:
1976
_
1979
Manuel Paulino Costa
1982
Mário Ávila Gomes
1985
José Vítor Alves
1989
Ricardo Madruga da Costa
1993
Fernando Dutra
1997
Souto Gonçalves
José Decq Mota
2001
Costa Pereira
2005
Alberto Pereira
José Decq Mota
2009
Paulo Oliveira
2013
Luís Garcia
2017
Carlos Ferreira
2021
José Leonardo

Escrito por José Manuel Souto Gonçalves
PUBLICADO ÀS 20H57 DE DOMINGO



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