
Escrito por José Manuel Souto Gonçalves
DATA DE PUBLICAÇÃO
sexta-feira… às 22h24
Vivo no campo, embora com “laivos” de cidade — o aeroporto está à minha porta —, por isso e por gosto, aproveito, às vezes, o fim de semana para “sair”, cá dentro, pela ilha.
Saborear um bom prato e um bom vinho é, quase sempre, o pretexto.
E há, amiúde, encontros fortuitos: colegas de escola com quem raramente me cruzo; um ou outro, estes mais raros, antigo amigo do meu pai que se recorda de uma vaca que lhe vendeu, tal como esta ou aquela velhota que fez sala na mercearia de minha mãe, à espera da camioneta da carreira e que eu conheço; um fiel ouvinte do desaparecido programa “Aqui há Souto”; e, mais recentemente, “amigos” das redes sociais, que aproveitam para selar presencialmente a relação virtual proporcionada pela Internet.
Neste sábado que o sol, generosamente, sacudiu um maio invernoso, rumei ao RUMAR, na Praia do Norte.
“À porta p’ra fora” cruzei-me com o Chico. Meu primo, por afinidade.
Já não nos víamos há alguns dias. Assegurámo-nos, no exórdio da conversa, de que as famílias, de parte a parte, se encontram bem.
O Chico, debaixo da barba meticulosamente aparada, tem um sorriso irónico desafiador.
— Estás cada vez mais novo — atirei o caniço à água…
Já com o “dentinho de fora” o Chico abanou a cabeça de cima para baixo e, transportando a ironia do fácies para a boca, respondeu:
— Tenho mais vinte anos do que tu!
— Dezanove — corrigi-o.
Ora, este mano a mano é ideal para desenrolar uma cavaqueira.
— Acabei de almoçar com um primo que veio do Canadá. Este está agora aqui, mas eles são mais de 70, espalhados pela América. A minha família é muito grande. Conheço-os todos. Gosto disto. Vou a muitos lados e encontro sempre um familiar.
Também quis garantir a minha parte do diálogo e associei-me à façanha de ter uma família numerosa:
— Olha, eu quando vou à Piedade do Pico tenho um primo em cada canada. Minha avó materna era de lá, família muito grande, portanto, “tás” a ver… Se entro numa adega tenho um primo a um canto; se passo numa vinha, dizem-me “aquele também é”… O pior é que na Manhenha depois de se entrar numa adega não se pode sair sem ter bebido.
Nesta altura já estávamos às gargalhadas.
A conversa alargou-se a um homem que se tinha acercado de nós, como é normal fora do “botequim” (agora já não há botequins, mas o espírito do convívio permanece).
— Não sei se foi assim com tua avó, mas, muita gente do Pico veio comprar terras para a Feteira e Castelo Branco.
— Pois, as terras aqui no Sul do Faial eram muito disputadas — lembrou o Chico.
— Em Castelo Branco há terrenos que pertencem a pessoas da Praia do Norte. Há de ter sido por causa do Vulcão, que deixou isto tudo negro por aqui, que foram comprá-las — adiantei.
— Começou antes — explicou o Chico com o conhecimento proporcionado pelos seus 82 anos. E continuou:
— Sabes, a Praia do Norte é só um cantinho de terra e faz muito frio. Lá em baixo é melhor para cultivar. Naquele tempo era preciso semear milho para alimentar muitas bocas. Não te disse que a minha família era muita gente?
— E depois foi o Vulcão — fiz eu a referência, para tentar falar de um assunto em que pudesse também mostrar algum conhecimento.
— É verdade — confirmou o terceiro elemento da tertúlia. — Ficou tudo negro por aí!
— Castelo Branco e Feteira eram o celeiro, muito trigo e muito milho se cultivou por aquelas bandas. Teu avô mandou vir duas debulhadoras — recordou o Chico.
— Estou-me a lembrar agora que o Eduardo Pires da Feteira me contou que iam carros de bois para cima do cais cheios de milho para levar “pó” Pico — disse eu.
— Ó “home”! A gente aqui na Praia do Norte levantava-se às três da manhã “p’a” ir “c’os” carros das vacas até Castelo Branco e trazer milho “p’ra” cima — descreveu o Chico já com um ar grave e pensando na “lição” que ia dar a seguir:
— Eu trabalhei a fazer estas estradas de “pá e pique”, não é “c’m’agora”. Depois é que apareceram as “vagonas” e já era bem bom!
— Pois — acrescentei, sisudo, associando-me à seriedade do assunto, contudo sem poder completar a descrição por desconhecimento de causa.
O Chico, apoiando-se, alternadamente, num e noutro pé, balanceando-se para produzir uma sentença, disparou:
— Eles agora dizem que se vive mal! E naquele tempo “c’mo” era? Hoje têm tudo, não precisam de trabalhar!
A conclusão não poderia ser mais desarmante:
— Quando eu era rapaz, havia trabalhadores, mas não havia “farramenta”; agora há “farramenta” mas não há quem faça o serviço!
Nisto, o Leonel veio à porta com o dedo esticado:
— Ó Souto, a comida “tá” na mesa.
E estava bem boa. E o vinho também.
[ Publicado no Facebook, no sábado, 17 de maio de 2025 ]
VÁRIA
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BARRA
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Como sempre adoro os teus textos, lembranças da minha curta infância em S. Mateus do Pico. Lembro de meu pai vir ao Faial comprar milho, pois tínhamos inhames e batatas mas o milho nunca chegava até à nova colheita , ficava o milho em meia pipa ou mais tarde numa arca de madeira que chamávamos de arquibanco não sei se era porque a mesa ficava encostada de um lado para nos sentarmos ou se era por guardar o milho e as (razoilas ou razoiras) e as peneiras. Imensas palavras que me lembro da minha infância e já não se usam e às vezes me recordo o seu desaparecimento devido às novas épocas de abundância.
[ Comentário de Filomena Goulart, no Facebook ]
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Filomena Goulart, devias fazer uma lista das palavras antigas de que te lembras, com a descrição do que significavam, para não se perder essa memória. E se me quiseres enviar a lista fico-te muito agradecido.
[ Resposta no Facebook ]
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