
Escrito às 17h41
por José Manuel Souto Gonçalves
Diz-se que todas as comparações são coxas, mas, há umas mais coxas do que outras. Não é, por isso, avisado querer comparar os resultados da eleição da Assembleia da República (Eleições legislativas) com a eleição das Autarquias Locais (eleições autárquicas), ou com a eleição das Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira (eleições legislativas regionais), ou, ainda, com a eleição do Parlamento Europeu ou a eleição do Presidente da República. Cada um destes atos eleitorais tem a sua própria dinâmica e é encarado de forma diferente pelos eleitores. Isto é um ponto assente.
Contudo, para além da matemática, é possível entrar no campo da análise política e, então aí, dar largas, senão à imaginação, ao menos à interpretação, conjecturando, sabendo-se embora a multiplicidade de perspetivas através das quais é admissível olhar para o objeto em presença.
A queda eleitoral (quase) inaudita do Partido Socialista assemelhou-se a um terramoto de grau elevado (ao ponto de António Vitorino considerar, na noite das eleições, a necessidade de o Partido se reconstruir). A subida vertiginosa do Chega representará o consequente tsunami, abalando o “status quo” a que os portugueses se foram habituando em meio século da história política recente do País.
Uma vez que se aproximam as eleições autárquicas (não faltam cinco meses para as urnas abrirem), pelas quais os cidadãos se interessam de forma especial, será interessante procurar antever o que a sismologia política do passado domingo poderá significar no próximo escrutínio.
Não é correto querer fazer as tais comparações diretas atrás referidas, porém, nada impede que se olhe para os resultados do dia 18 de maio de 2025 e se ponha a hipótese de terem alguma repercussão na composição dos órgãos autárquicos.
No caso do Faial é fácil antever a repetição da maioria absoluta da AD (PSD/CDS/PPM) na Câmara Municipal nas Autárquicas 2025.
O trunfo Carlos Ferreira, que goza de uma popularidade que se pode equiparar, nalguns aspectos, à que outrora granjeou Renato Leal, inspira um sentimento de confiança numa vitória eleitoral sem espinhas.
Quem fizer a discussão sobre a obra feita, ou por fazer, ficará encandeado pela auréola que paira sobre a figura seráfica do presidente da Câmara.
O faialense Luís Terra, há tempos, escreveu no Facebook que Carlos Ferreira trouxe alegria aos faialenses. Esta foi, provavelmente, a apreciação que melhor sintetiza o fenómeno político protagonizado pelo presidente do Município.
O PS, perante isto, colocou a batata quente nas mãos de Inês Sá, que outro remédio não tem do que prestar tal serviço ao Partido, sob pena de não voltar a ser deputada. A hecatombe de 18 de maio, entretanto, duplicou-lhe as dificuldades.
Se é verdade que o Chega não tem nenhuma figura que se associe ao Partido no panorama político faialense, também é certo que Inês Sá precisa de muito mais do que os próximos meses para se afirmar como uma pessoa política totalmente identificada com a ilha.
Portanto, a pergunta é: para onde irão os votos que o Chega obteve agora?
Sem unhas não se toca viola
Num exercício especulativo puro com máquina de calcular na mão, dir-se-ia que se a votação para a Assembleia da República se repetisse, aconteceria o seguinte:
A Câmara Municipal da Horta continuaria com maioria absoluta da AD (o presidente e três vereadores); o PS perderia 1 vereador, passando a ter 2; e o Chega elegeria 1, pela primeira vez.
Na Assembleia Municipal, que tem 35 membros, a AD manteria 11 deputados municipais; o PS perderia 3 (passaria de 10 para 7); a CDU sairia do órgão e o Chega entraria com 4 deputados municipais. A relação de forças seria definida com a presença dos 13 presidentes de Junta de Freguesia.
Como nas freguesias a AD ganharia em todas, a Assembleia Municipal adquiriria uma hegemonia partidária nunca vista e improvável.
Nas Assembleias de Freguesia das Angústias (5 AD, 3 PS, 1 CH), dos Cedros (5 AD, 1 PS, 1 CH), da Matriz (5 AD, 3 PS, 1 CH), de Pedro Miguel (4 AD, 2 PS, 1 CCH), da Praia do Norte (5 AD, 1 PS, 1 CH), da Ribeirinha (4 AD, 2 CH, 1 PS) e do Salão (4 AD, 2 CH, 1 PS) haveria maioria absoluta da AD, mas, em todas estas 7 localidades, como nas restantes 6, o Chega faria parte da Assembleia, enfraquecendo o PS como oposição.
No Capelo (3 AD, 2 PS, 2 CH), em Castelo Branco (4 AD, 3 PS, 2 CH), na Conceição (4 AD, 3 PS, 2 CH), na Feteira (4 AD, 3 PS, 2 CH) e nos Flamengos (4 AD, 3 PS, 2 CH) teria que ser, certamente, negociada a entrada do PS ou do Chega para as respetivas Juntas de Freguesia.
Nunca, na história política do Faial, um terceiro partido conseguiu alcançar uma presença, simultaneamente, em todos os órgãos autárquicos do Concelho da Horta. Ainda que tal se mostre muito difícil, a possibilidade existe, reforçada pelo que aconteceu nas eleições do passado domingo.
Só a CDU (além do PSD e do PS), ou melhor dizendo, José Decq Mota conseguiu “um lugar ao sol” no parlamento regional, eleito por esta ilha. No plano autárquico também ficou na história a “maioria plural” na Câmara (PS/CDU), quando Decq Mota levou consigo Maria do Céu Brito, depois de, anteriormente, ter “roubado” um vereador ao PSD. Todavia, a CDU, embora tenha feito parte de Juntas e Assembleias de Freguesia, não teve força suficiente para penetrar por toda a ilha nestes órgãos das autarquias locais.
Terá o Chega unhas para tocar nesta viola?
A diferença entre o segundo partido mais votado nas últimas eleições (PS, 1554 votos) e o terceiro (Chega, 972 votos) é menor do que entre este e o quarto mais votado (BE, 184 votos): ou seja, o Chega está mais perto do PS (582 votos) do que o BE do Chega (788 votos).
Um número muito elevado de faialenses (6.650) não votou no passado domingo, isto é, mais de metade daqueles poderiam fazê-lo. Será que o espectro eleitoral que se compôs, aliado à tradicional adesão às urnas aquando da eleição autárquica, mudará o mapa político faialense?
ELEIÇÕES LEGISLATIVAS, 18 DE MAIO DE 2025
RESULTADOS — FAIAL
| PARTIDO / COLIGAÇÃO | VOTOS | % |
BARRA
| AD (PSD/CDS/PPM) | 2.594 | 40.93 |
| PS | 1.554 | 24.52 |
| CH | 972 | 15.34 |
| BE | 184 | 2.90 |
| L | 180 | 2.84 |
| CDU | 172 | 2.71 |
| IL | 157 | 2.48 |
| ADN | 85 | 1.34 |
| PAN | 60 | 0.95 |
| ERGUE-TE | 9 | 0.14 |
| RIR | 7 | 0.11 |
| MPT | 3 | 0.05 |
| AD | 0 | 0.00 |
| PCTP/MRPP | 0 | 0.00 |
| ND | 0 | 0.00 |
| PLS | 0 | 0.00 |
| VOLT | 0 | 0.00 |
| VOTANTES | 6.337 | 48.79 |
| ABSTENÇÃO | 6.650 | 51.21 |
| BRANCOS | 286 | 4.51 |
| NULOS | 48 | 0.76 |
| INSCRITOS | 12.987 | 100.00 |


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