
Escrito às 18h14
por José Manuel Souto Gonçalves
A moda da chamarrita está de regresso e em força. Sucedem-se as folgas à volta da ilha, algumas assumindo a forma de “workshops”, nos quais se ensina a bailar, iniciativa municipal de muito mérito.
No “meu tempo” — expressão de uso comum que nos transporta, sempre, para épocas mais recuadas — a chamarrita estava, quase exclusivamente, circunscrita à atuação dos grupos folclóricos e etnográficos.
Antes disso, sabemo-lo por testemunho dos nossos maiores, não havia lugar nem festa em que este baile não fosse o pináculo de uma tarde ou noite de folia.
Numa altura em que se lamenta, por vezes, a perda de tradições, a recuperação da chamarrita como elemento insubstituível do convívio popular significa que os costumes genuínos podem adormecer, mas, não desaparecem.
A este propósito, recordo a juventude dos meus pais, que, evidentemente, não conheci senão através do que me contaram.
Ao aproximar-se uma noite de folia no “Clube de Cima” (Castelo Branco Sport Clube) minha mãe, Maria Souto, e o seu irmão José, muito poucos anos mais novo do que ela, começavam a “andar de roda” a ver qual tinha coragem de pedir ao pai, meu avô Manuel Silveira do Souto Júnior, para irem à festa.
Meu avô casou-se já bem entrado na idade, com mais dez anos do que minha avó, Teresa. Estiveram dez anos sem filhos.
Alguém lhe atribuiu a alcunha de General De Gaulle. A inspiração para o epíteto terá sido resultado do seu arcaboiço, que não andaria muito longe dos 196 centímetros do general, nanja de qualquer tendência militarista, que eu saiba.
Era, ainda assim, um homem rigoroso nos seus compromissos e disciplinado nos seus hábitos pessoais, o que não se coadunava, por exemplo, com serões fora de casa. Recolhia-se ao quarto de cama cedo e, religiosamente, à mesma hora.
A idade era um peso.
— Ó pai, eu e o José queríamos ir ao Clube, avançou minha mãe, porventura crente na moleza de um coração bondoso, que o era, realmente.
— Agora cá! Vocês não pensam noutra coisa.
A resposta, invariável e quase sempre insatisfatória para os dois filhos na flor da juventude, levava ao desânimo. O resultado, vamos ver adiante, não.
Por diligências de minha avó Teresinha, as coisas acabavam sempre por compor-se.
À hora da ceia já estava tudo organizado, se bem que sem qualquer sinal que o denunciasse.
Ligeiramente inclinado sobre uma larga tigela, um pouco amarelecida, meu avô, vagarosamente, como em tudo o que se empenhava, comia “sopas” de uma farinha grossa que eu ainda vi ele misturar num bem medido quartilho de leite das suas vacas.
— Querem caminhar para o baile quando as cadeiras já estiverem todas ocupadas?
Era o despacho ao requerimento que fora, inicialmente, indeferido.
Minha avó não podia ficar em pé, pois, seria demasiado cansativo, visto que o seu papel era, unicamente, o de supervisionar os filhos.
Minha mãe e meu tio, antes da dança, combinavam que, quando estivessem no meio da sala e minha avó começasse a mostrar-se impaciente, inquieta para regressar a casa, não cruzariam o olhar com ela para não receberem o mais indesejado sinal da noite: “Vamos embora!”
Quando o afamado grupo Sem Rei Nem Roque se deslocava a Castelo Branco era enchente garantida.
As músicas desta “jazz band” faziam a delícia dos presentes, que o digam os seus contemporâneos ainda vivos.
Não havia, porém, uma folia em que não se bailasse a chamarrita, que, por vezes, surgia na ocasião mais inadequada. Contudo, ninguém regateava uma oportunidade de entrar na roda.
Poderia, até, dar-se o caso de, na mesma vez, bailarem pretendentes e pretendidas a um namoro que ainda não se concretizara.
O “código” era o seguinte: quando o rapaz, na sequência das “vozes” da chamarrita, tinha nos braços a eleita, deveria apertar, ligeiramente, a mão da donzela. Esta ficava, assim, a conhecer as intenções do moço. O resto aconteceria depois, ou não…
Supostamente secreto, o “código” não passava totalmente despercebido aos pais, até porque, com toda a certeza, já se tinham dele servido.
Então, quando, na roda, entrava uma filha do mandador da chamarrita e este desconfiava que poderia haver “moiro na costa”, não lhe agradando a figura em causa, procurava identificar o espertalhão e arranjava maneira de fazer com que o dito nunca se cruzasse com quem lhe interessava.
Meu tio José Souto, admoestado cem vezes pela irmã, não perdia, porém, a oportunidade proporcionada pela chamarrita e, desfeiteando o mandador, na mesma roda apertava tantas quantas mãos conseguisse!
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