Navios que servem a Horta e a Região estão em idade avançada | fotografia de Souto Gonçalves
Irregularidade no abastecimento ao Faial continua

Escrito às 21h54
por José Manuel Souto Gonçalves
Andam todos muito preocupados com o Aeroporto e com a SATA, mas, o Porto é o mais importante de tudo, pois, sem ele não sobrevivemos.
Esta ideia foi expressa numa conversa, há poucos anos, quando a discussão sobre as acessibilidades ao Faial estava em ebulição.
Quem assim falou é, hoje, um alto responsável político, que se encontrava, na altura, livre das peias partidárias e, por isso, à vontade para dizer o que, realmente, pensava.
Embora o Porto da Horta seja, de facto, o motor do desenvolvimento da ilha, não lhe é dada tanta atenção como ao Aeroporto, apesar de os problemas com o transporte marítimo serem, senão mais graves, pelo menos idênticos aos do transporte aéreo.
É mais chique fazer debates sobre aviões do que falar de barcos. Além disso, nalgumas cabeças pensantes, reclamar uma pista maior ou o aumento de ligações aéreas rende mais votos do que exigir o abastecimento regular da ilha.
No entanto, a recorrente ineficácia do abastecimento ao Faial, por via marítima, é um dos assuntos mais prementes do momento, que deixa a comunidade portuária com os cabelos em pé, para não falar da agitação marítima na bacia de manobra do Porto, cujos prejuízos na reputação da baía da Horta se vêm acumulando.
A economia do Faial sente, há demasiado tempo, um efeito negativo significativo que resulta da imprevisibilidade do transporte marítimo
A economia do Faial sente, há demasiado tempo, um efeito negativo significativo, tendo em conta a sua dimensão, que resulta da imprevisibilidade do transporte marítimo, a qual influencia, sobremaneira, o processo de importação e exportação de mercadorias.
«Quando a entrada na ilha pelo porto não funciona bem toda a gente sente: quem exporta, quem importa, quem vende e quem compra», diz um elemento da comunidade portuária, operador no sector das cargas há largas décadas, ouvido por soutoemlinha.
Aquando do furacão Lorenzo, que colocou o Corvo sem navio de abastecimento durante 50 dias, o mesmo empresário foi solicitado para o transporte de leite. «Vocês não têm vacas aí?», perguntou. «Eu preciso de leite para vender, para ganhar dinheiro, senão fecho a porta», respondeu o aflito comerciante, demonstrando que o mau funcionamento dos circuitos de transporte afeta uma larga faixa de intervenientes na economia, sejam produtores, intermediários ou consumidores.
«Os aviões não dispõem de capacidade para transportar as cargas e os pesos de que a ilha do Faial necessita». A conclusão, avançada pela mesma fonte, é óbvia.
Grosso modo, a carga descarregada no porto da Horta chega a atingir 300 toneladas por semana, o que corresponde, em média, a cerca de 80 a 100 TEUS (1 TEU = 1 contentor de 20 pés), número que tem sido alcançado ultimamente.
Nos últimos tempos tem-se verificado, aliás, um aumento sensível no transporte de carga marítima, nomeadamente no período do verão, e, recentemente, em resultado das obras públicas de considerável dimensão que estão a decorrer na ilha.
Numa semana recente, já em 2025, um navio trouxe, de uma só vez, 22 viaturas
A título de curiosidade, numa semana recente, já em 2025, um navio trouxe, de uma só vez, 22 viaturas. «É uma loucura de carros que têm vindo para esta ilha!», diz outro elemento da comunidade portuária, ligado à estiva, que soutoemlinha também ouviu, o qual sublinhou que «2024 foi o melhor ano de carga no Porto da Horta».
A doca (velha) da Horta é a mais estreita dos Açores. No Faial, na descarga e carga dos navios, só operam as gruas dos próprios barcos, devido à falta de condições de operacionalidade em terra: um contentor de 40 pés (o mais utilizado é o de 20 pés) ocupa, quando atravessado, praticamente toda a largura do cais.
O serviço executado pelos guindastes dos navios é de inferior qualidade quando comparado com o trabalho de uma grua de terra. A instabilidade própria do barco, encostado ao cais, tem exigências maiores para o operador e a possibilidade de ocorrer uma manobra de risco é maior. No caso da Horta há a acrescentar a indesmentível agitação marítima do porto comercial que, quando coincide com o serviço de um navio em operação de carga ou descarga, é um grande contratempo.
O Porto da Horta encontra-se no fim da linha no que diz respeito às condições da operação de transporte marítimo dos Açores
Em resumo e segundo algumas opiniões de elementos da comunidade portuária, o Porto da Horta encontra-se, de há longo tempo, no fim da linha no que diz respeito às condições da operação de transporte marítimo dos Açores.
A esta situação, que passará despercebida a uma larguíssima maioria de faialenses, junta-se o modelo do referido transporte marítimo, que também trata o Faial como um parente pobre.
«Quando se semeia batatas no vazante elas ficam num monte e é mais fácil apanhá-las; no enchente, espalham-se pela terra e é preciso andar de um lado para o ouro para encontrá-las. Assim está o transporte marítimo nos Açores».
Esta metáfora, ouvida por soutoemlinha em cima do cais, caracteriza de uma maneira feliz o sistema de transporte marítimo de cargas que (não) serve as ilhas mais pequenas — ou menos populosas; ou, se se quiser, com menor peso político — dos Açores.
Lembra uma fonte contactada por soutoemlinha que, há mais de 20 anos, as rotas de abastecimento asseguravam uma regularidade inquestionável, que se deteriorou a partir da altura em que foi adotado o sistema de “slots”.
Com o propósito de reduzirem custos, as três transportadoras marítimas organizaram-se de forma que apenas um navio de uma delas escalasse, alternadamente, as “ilhas de baixo”.
Os porta-contentores procedem de Leixões e de Lisboa com destino a Ponta Delgada e à Praia da Vitória, onde têm à espera um congénere que, após baldeação, segue para os portos mais pequenos.
O sistema de “slots” consiste, portanto, em acomodar a carga de três companhias transportadoras numa só.
O principal problema que foi criado com esta solução é o atraso sistemático das viagens, ao que se junta a imprevisibilidade da respetiva programação.
O comandante de um dos navios que vem à Horta, ao ser confrontado com o quadro das escalas nos diversos portos, ironizou: «Vocês também têm aqui esse mentiroso?»
Recentemente, o comandante de um dos navios que vem à Horta, ao ser confrontado com o quadro das escalas nos diversos portos por um elemento da comunidade portuária do Faial, ironizou: «Vocês também têm aqui esse mentiroso?»
A necessidade de conjugar as chegadas de Leixões e Lisboa a São Miguel e à Terceira com as partidas para as outras ilhas provoca os atrasos, que passaram a ser a regra, enquanto o cumprimento do horário é a exceção.
Um transitário diz mesmo que prefere subir uma tarifa e garantir ao cliente a regularidade da entrega, do que não mexer no preço do transporte, mas também não conseguir chegar com a carga ao destinatário no prazo previsto. E remata: «Pior do que ser caro é não ter!»
A talho de foice, sublinhe-se que, após o sismo de 1998, o Faial foi servido, durante algum tempo, por três navios, semanalmente.
Na atualidade, há outro aspecto condicionante da operação marítima, que é a idade dos navios.
Segundo uma fonte consultada por soutoemlinha, a vida útil de um cargueiro nos Açores, em face das especificidades geográfica e meteorológica, e das condições portuárias, é de 25 anos. Os navios que navegam, presentemente, entre as ilhas, foram construídos entre 1995 e 2007, isto é, têm entre 18 e 30 anos — Monte Guia (1995), Insular (1998), Laura S (1998), Furnas (1999), Ilha da Madeira (1999), Rebeca (2007), Corvo (2007). «Estão ficando obsoletos e mais lentos», afirma a mesma fonte.
Há um sentimento de clara insatisfação na comunidade portuária em face do serviço prestado pelas transportadoras, que ameaça transformar-se em revolta
Há um sentimento de clara insatisfação na comunidade portuária em face do serviço prestado pelas transportadoras, que ameaça transformar-se em revolta.
Isto porque se vislumbram, neste campo, interesses que fazem tábua rasa dos direitos dos consumidores, afinal, os verdadeiros prejudicados.
«A gente recebe a carga quando eles querem», desabafa um dos interlocutores de soutoemlinha.
O sistema de «slots», já mencionado, também concorre, segundo a opinião aceite na comunidade portuária, para que não haja uma real concorrência, apesar de existirem três companhias a operar, a GS Lines, a Mutualista e a Transinsular.
Isto porquê? Porque, por exemplo, poderá uma das companhias oferecer um preço mais barato, só que o transporte da carga ficará sujeito à data que o respetivo navio entrar na rotatividade da operação em «slot», caso contrário o frete não terá desconto. Isto significa que a mercadoria poderá ter que esperar pela vez que a companhia em causa fizer a distribuição pelas ilhas. Conclusão: a baixa do preço não significa melhor serviço, pelo menos no que diz respeito aos prazos de entrega, logo, o efeito da concorrência fica anulado.
Recentemente foi retirado da operação marítima dos Açores um navio que se deslocou para a Madeira para suprir uma lacuna naquele arquipélago, o que não aconteceu pela primeira vez.
O facto de não ter vindo para os Açores uma embarcação para operar no lugar do dito navio mostra bem que quem assim decide não olha às necessidades do arquipélago açoriano.
«O Governo tem que dizer: queremos isto desta forma e os senhores metem o preço que têm que meter. Ponto final»
A este propósito, um dos empresários ouvidos por soutoemlinha chamou à colação o Governo Regional para instar a que a tutela imponha condições à operação marítima. «O Governo tem que dizer: queremos isto desta forma e os senhores metem o preço que têm que meter. Ponto final», diz o empresário.
De acordo com um membro da comunidade portuária do Faial, falando, em concreto, da situação desta ilha, a carga acomodada em Leixões e em Lisboa com destino ao Porto da Horta não deveria ser baldeada em Ponta Delgada ou na Praia da Vitória. «O que deveria acontecer seria o “transporte ponto a ponto”, a opção ideal», explica.
Além disso, o envio de carga para São Miguel, a partir do Faial, também tem sido muito condicionado pelo facto de, por vezes, os navios seguirem da Horta diretamente para o continente. «Já estivemos três semanas sem ligação a Ponta Delgada e Leixões, com contentores de peixe (pescado congelado) à espera», diz um transitário.
Aliás, num recente período de três semanas o Faial esteve uma semana completa sem barco. Ademais, a operação semanal tem decorrido, quase sempre, ao fim de semana, o que, acentua um empresário do sector, acarreta, de imediato, mais custos.
Comparando com o que acontecia no passado, hoje, o abastecimento chega a ser mais demorado, precisamente por causa das esperas para fazer baldeação, lembram os membros da comunidade portuária.
Outro interlocutor de soutoemlinha recorda que há um significativo movimento de mercadorias entre São Miguel e o Faial, e que, «por natureza» (devido às infraestruturas e ao volume de cargas), o “hub” (centro logístico) do transporte marítimo nos Açores está em Ponta Delgada. «Isto complicou-se desde que começaram a entrar navios pela Terceira», assegura o mesmo interlocutor, acrescentando que um navio que vem ao Faial ou a outra ilha, com apenas uma ligação semanal, nunca deveria ligar o continente à Terceira porque tem que ir sempre buscar carga a São Miguel.
Esta é uma posição que, como se sabe, desagrada, profundamente, à classe empresarial terceirense, apostada na valorização do Porto da Praia da Vitória.
Pelo menos no Faial (e em São Miguel) não há simpatizantes de uma solução que privilegie a Praia da Vitória como centro logístico
No entanto, tal desiderato, parece um barco no qual se rema contra a maré. Pelo menos no Faial (e em São Miguel) não há simpatizantes de uma solução que privilegie a Praia da Vitória como centro logístico.
Pelo seio da comunidade portuária do Faial perpassa um sentimento de rejeição relativamente às aspirações da ilha Terceira, ao ponto de um dos elementos desta comunidade, mais truculento, afirmar que «os terceirenses querem rentabilizar aquele elefante branco com o trabalho dos outros».
Em jeito de conclusão da demorada troca de impressões que soutoemlinha manteve com alguns elementos da comunidade portuária do Faial, um deles previu, referindo o caso, atrás citado, do desvio de um navio para a Madeira, que «isto é um exemplo do que o futuro nos reserva, se for implementado um modelo que não assegure a ligação direta de Lisboa e Leixões, pois, se retirarem um navio daqui a gente fica com o bico aberto!»
FAIAL INFORMATIVO | FAIAL ATUAL
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