
Escrito às 11h39
por José Manuel Souto Gonçalves
Na minha visita diária ao Bico Doce da Lombega, para matar o vício, deliciando-me com um bolo de arroz (bem cozido e o maior que estiver na vitrine), tenho, como sabem, a oportunidade de conversar com várias pessoas, que vão entrando e saindo. Gosto deste relacionamento, nomeadamente com os mais velhos, que me transportam, com algumas das suas estórias, para um tempo em que fui muito feliz em Castelo Branco, na minha infância.
Também sabem, aqueles que me vão lendo, que tenho o telemóvel como companheiro inseparável, por várias razões, uma delas consequência da minha condição profissional de jornalista (que já pouco exerço), impelindo-me a acompanhar a atualidade.
Estava eu concentrado a dedilhar o meu “smartphone” quando ouço uma pergunta:
— As novidades são boas?
Era o Senhor José Manuel Rodrigues, que tinha ido ao pão.
— Infelizmente são quase todas más — respondi-lhe.
A conversa pegou.
— Havia aqui na Lombega uma pessoa, o Mário Rodrigues…
— Sim, ainda me lembro dele, embora mal — atalhei.
— Esse Mário Rodrigues era muito inteligente e até foi expulso do Liceu por causa da sua irreverência!
— Outros tempos, senhor José Manuel.
— Perguntei-lhe uma vez sobre a razão dessa expulsão e ele disse-me que foi por causa de saber mais do que alguns professores.
— Há quem não goste que lhe façam sombra!
— Eu lembro-me do Mário Rodrigues muitas vezes. Ele parava na minha taberna, aqui na Ribeira da Lombega, e depois de todos irem embora a gente ficava a conversar.
— Pois, naquele tempo as tabernas é que eram as redes sociais— disse eu, mantendo o diálogo.
— Estavas aí a ver as notícias e eu recordei-me de uma coisa que ele me disse, logo a seguir ao 25 de Abril: o Salazar foi-se embora e deixou os cofres do País cheios; estes que entraram agora, mais dia, menos dia, vão encher as suas algibeiras!
— Ó Senhor José Manuel, isso foi uma profecia!
N.B. O Senhor José Manuel Rodrigues é, posso testemunhá-lo, um democrata convicto. Portanto, esta referência a Salazar reveste-se de um valor meramente ilustrativo, no diálogo que manteve comigo. Portanto, os leitores não estão autorizados a tirarem ilações de natureza política sobre a sua pessoa. Quanto a mim, podem chamar-me fascista à vontade, pois a opinião alheia não me demove das minhas convicções, há muito consolidadas.
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