
Escrito às 12h45
por José Manuel Souto Gonçalves
A proximidade da Páscoa fez-me recordar uma história antiga.
Quando eu andava no liceu a expectativa gerada pela aproximação das férias, nomeadamente as da Páscoa, compunha-se de um sentimento contraditório: teria mais tempo para andar de bicicleta na Praça da República, mas, também iria ser convocado por meu pai para ajudar na mercearia.
Por vezes essa ajuda era mesmo necessária, contudo, meu pai, quando a necessidade não era imperiosa, fazia questão de não me deixar demasiado tempo a brincar.
Era a sua maneira de educar, pouco agradável para mim.
A nossa mercearia tinha um “pé-direito” muito alto e a quase totalidade das paredes estava preenchida por prateleiras, todas elas, pelo menos no tempo em que o negócio atingiu o auge, bem fornecidas.
Certo dia eu e meu irmão fomos encarregados de arrumar uma das últimas prateleiras, junto ao teto.
Não me lembro se fomos buscar uma velha e pesada escada de poleiro, em madeira, pintada de cor de vinho, ou se na altura já tinham aparecido as escadas de alumínio…
O fornecedor deixara uma quantidade de rolos de papel higiénico.
Subi ao poleiro para meu irmão atirar os rolos a partir do chão.
Como o artigo não era de partir, aproveitámos o momento para a brincadeira, fazendo algum malabarismo, amenizando o tédio que se apossara de nós, pois, na Praça da República, os nossos amigos andavam, àquela hora, nas suas bicicletas, em correrias.
Ao lado da mercearia havia o talho.
Já em final de carreira, o Senhor Alfredo aguardava pacientemente os clientes que iam entrando a espaços.
O Senhor Alfredo, que os albicastrenses conheceram bem, escondia sob um ar circunspeto um espírito brincalhão, que não continha.
Saía-se bem a dizer “umas graças”, ou, melhor ainda, uns apartes. Fazia-o, porém, com ar grave, como se o assunto fosse sério, qualidade que nem todos os humoristas possuem.
Aproveitando um momento de pausa e depois de já nos ter observado longamente, através de um grande vidro que separava o talho da mercearia, a guardar os rolos de papel higiénico na prateleira, em número considerável, o Senhor Alfredo entreabriu a porta, deixou que a gente o notasse e, sisudo, exclamou:
«Ó rapazes! Se não vem a merda que vocês estão pensando vai ser uma chatice.»
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