O navio Mestre Jaime Feijó na ligação entre a Horta e a Madalena, sábado, 8 de fevereiro de 2025 | fotografia de Ricardo Ventura, publicada no Facebook
Travessia do Canal em dia de mau tempo deu brado nas redes sociais
Foi publicado na Internet um vídeo no qual se pode observar a entrada do navio Mestre Jaime Feijó no porto da Madalena, no passado sábado, 8 de fevereiro de 2025. A manobra é impressionante, pois, realizou-se com mar revolto, mostrando a embarcação, em dado momento, aparentemente, à mercê das ondas. O acontecimento gerou muitas reações nas redes sociais, umas saudando e elogiando a competência e coragem do mestre, outras questionando a falta de segurança a que passageiros e tripulação teriam ficado sujeitos se o desfecho dos procedimentos não tivesse tido êxito.
Perante isto, soutoemlinha abordou a Atlânticoline sobre as circunstâncias do sucedido. Respondeu às perguntas o diretor de Operações da companhia, comandante Bruno Ferreira.
«Em momento algum [o navio] esteve fora de controlo do Mestre»
— Que pressupostos e critérios habilitam os decisores para realizarem as viagens no Canal em dias de mau tempo?
— A decisão de cancelar ou alterar uma viagem é sempre tomada pelo Mestre, e resulta da ponderação de uma série de fatores, como a avaliação das condições meteorológicas, a avaliação das condições de maré e, claro, da experiência de cada Mestre.
— Em concreto, de quem é a última palavra na tomada de decisão de realizar, ou não, a ligação entre a Horta e a Madalena e vice-versa?
— A decisão é tomada pelo Mestre de serviço, tanto na ligação Horta-Madalena-Horta, como em qualquer outra viagem que ocorra. Note que falo do cancelamento ou alteração de viagens programadas na sequência de condições meteorológicas adversas. Existem também condicionalismos de ordem operacional que podem levar à alteração ou cancelamento de uma viagem. Ainda falando das condições meteorológicas adversas, importa referir que existem situações em que a Autoridade Marítima determina o encerramento das barras, e aí, e por motivos óbvios, a Atlânticoline não opera.
— Antigamente era “ponto de honra” da Empresa das Lanchas do Pico assinalar, no final do ano, o número mínimo possível de cancelamento das viagens no Canal, apresentando isso como um sinal de cumprimento do serviço público que prestava. Existe essa “cultura” na Atlânticoline?
— Essa “cultura” não existe na Atlânticoline. A empresa reúne e analisa diversos dados estatísticos, contudo esses dados não são utilizados para o fim descrito. Relembramos que a missão da Atlânticoline é de assegurar um serviço de transporte marítimo de pessoas e veículos com fiabilidade e segurança. O nosso “ponto de honra” é cumprir com esse pressuposto, sendo certo que, sempre que não estiverem reunidas as condições de segurança que o Mestre entender serem necessárias, a viagem não se realizará.
— Existe pressão, de alguma ordem ou proveniência, para efetuar, ou não efetuar, viagens condicionadas pelo estado do mar?
— Como já foi referido, a decisão de efetuar ou não a viagem é única e exclusiva do Mestre de serviço, sempre um função da informação meteorológica de que dispõe.
— O navio mais recente da Atlânticoline é o Mestre Jaime Feijó, construído na sequência do acidente com o Mestre Simão. O Mestre Feijó dispõe de mais recursos do que os seus “gémeos” para responder às adversidades do mau tempo?
— O Navio “Mestre Jaime Feijó” é idêntico aos anteriores navios: mesmo fabricante e potência de Máquinas Propulsoras Principais, Impulsores de Proa, entre outros. O único equipamento que tem alteração são as caixas redutoras, que possuem o sistema de travão de veio, sistema esse que foi dado a conhecer aquando da apresentação do Navio no Porto da Horta.
— A viagem em causa, em algum momento, fez recear qualquer acidente?
— Não. O Mestre da embarcação fez a sua avaliação das condições de mar, e de meteorologia, à entrada da Madalena e entendeu que conseguiria efetuar a operação em segurança para o navio e para os passageiros.
— Um leigo no assunto, observando o vídeo referido, fica com o “coração nas mãos” ao assistir a algumas imagens, sobretudo quando o navio “resvala” para estibordo, dando a ideia de que, pelo menos momentaneamente, não está sob controle. Esta impressão corresponde à realidade? Não correspondendo, será, eventualmente, possível que aconteça e, nesse caso, existem garantias de que a situação seja solucionada de forma satisfatória?
— O Navio entrou no Porto da forma adequada e em momento algum esteve fora de controlo do Mestre. O adorno de que fala acontece porque o navio já está a navegar a uma velocidade reduzida, o que é precisamente o que tem de acontecer dentro do porto. De relembrar que estes navios foram desenhados e projetados para a Atlânticoline S.A., tendo em mente a operação nos nossos portos e as condições meteorológicas especificas da nossa Região, e têm dado provas constantes da sua adequabilidade.
ESCRITO POR
José Manuel Souto Gonçalves
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