Cidade da Horta | fotografia de João Matos, publicada no Facebook a 12 de dezembro de 2024
A propósito do parque (provisório) de estacionamento nos jardins da Casa Manuel de Arriaga, e não só, discutiu-se o estado da cidade
Se se tiver paciência e uma boa dose de curiosidade e persistência consegue-se encontrar nas redes sociais bons motivos para refletir sobre diversos assuntos, com a possibilidade de podermos com a nossa opinião participar. É uma ato de cidadania, de que vários cidadãos da nossa terra têm vindo a dar exemplo.
Antigamente, o espaço de debate sobre os temas da vida pública da nossa cidade e ilha estava, praticamente, reservado aos jornais, onde, salvas as exceções, apenas a elite letrada pontificava.
Aliás, era norma a utilização do pseudónimo, que protegia os escribas em situações de maior melindre, o que, mesmo assim, não era suficiente para alargar o número de intervenções na imprensa.
Com as redes sociais deu-se uma revolução e, apesar dos herdeiros dos pseudónimos, a que se chama perfis falsos, toda a gente opina e dá a cara. Tal democratização, benéfica, obriga, porém, a um grande esforço de seleção, pois, torna-se difícil, por vezes, manter uma discussão proveitosa, visto há sempre os penetras que tentam desestabilizar com contributos inoportunos.
De qualquer modo, o saldo é extremamente positivo, pois a liberdade de expressão é um bem precioso.
Feita esta introdução, gostaria de realçar a discussão que se gerou no Facebook em torno do parque (provisório) de estacionamento nos jardins da Casa Manuel de Arriaga, matéria que trouxe à baila outras questões e a troca de opiniões derivou para apreciações sobre se a Horta se encontra a viver tempos de atraso ou de progresso.
Eis algumas das opiniões expressas no Facebook:
Fatima Ferreira Lima
Infelizmente jamais será a cidade que deixei há 54 anos. Era uma cidade alegre e viva. Na hora do almoço lá vinham os estudantes do Liceu na sua algazarra, divertidos, alguns com as suas capas. Era uma cidade de muito movimento. Hoje, quando passo por aí vejo mais carros do que pessoas.
Carlos Henriques
A Horta está a ficar velhinha e todos nós também, mas, quando olho para trás consigo perceber o inegável e enorme surto de desenvolvimento económico e social que tivemos nestes últimos 50 anos. Podia estar melhor, pode sempre, mas, a nossa pequenina Cidade resistirá, como sempre resistiu. A migração dos habitantes do centro para a periferia, que está a causar estes problemas, acontece em todas as cidades à medida que crescem. Há que encontrar soluções economicamente viáveis e esse é o nosso maior problema, pois, o tecido económico da Ilha é débil dado o reduzido número de habitantes e o facto de uma grande parte destes ser trabalhadora em funções públicas e estas circunstâncias não são facilitadoras do investimento privado de que tanto se necessita. De qualquer forma, não me vejo a viver em qualquer outro sítio do Mundo e até acho que na área do turismo estamos já a atingir o limite máximo aceitável para a manutenção de um bom nível de vida para os residentes.
Helder Neves
Aqui fica a minha perspectiva, de quem cresceu na cidade durante os anos 70 e 80 do século passado e saiu, mas que regressa praticamente todos os anos, muito embora só de visita. Eu vejo progresso, a nível de infraestruturas, acesso ao exterior, comércio, etc. Claro que nem tudo está bem, muito ainda há por fazer. A cidade está mais deserta? Sem dúvida. Mas para isso têm contribuído as novas tecnologias, o acesso a muitos canais televisivos e o facto, como o Carlos Henriques disse, de a cidade ter crescido para as periferias. Vejo muitas pessoas do meu tempo a comentarem, com uma certa nostalgia, os tempos passados, eu também a sinto, mas, na minha opinião, vejo a nossa cidade a desenvolver-se e a crescer e sinto muito orgulho de ser Faialense e ter nascido e crescido na cidade da Horta.
Tomané Rosa
Nunca achei que os outros gostassem mais da sua terra do que eu. Não gostam! Hoje, a Horta é uma aldeia, sem vida, sem gente, sem mercado. Uma aldeia com muito pouco, perdida no meio do Atlântico. A vida noturna, que existiu outrora, acabou de vez! Uma terra de gente triste, salvo as devidas excepções dos que podem sair daqui, duas ou três vez por ano, para conhecerem outros ambientes e culturas. Sobretudo, ver gente!
Paulo Gilberto Castro
A Horta tem de ser velhinha, naquilo que tem de ser, e acrescentar-lhe valor naquilo que tem de ser. Na grande obra da nossa frente-mar, e na sua grande maioria, retirou-se pedra, para colocar pedra, a isso chama-se torrar dinheiro, sem lhe acrescentar valor, ou seja, continuamos atrasadinhos, sem evoluir, apesar de evoluirmos numas, involuímos noutras, e o saldo fica em zero. Para mim, ainda o mais dramático foi matar o Largo do Infante, com uma casa e inútil, Casa da Baía. Ainda tenho esperança que seja retirada dali.
João Garcia
É crucial reconhecer a importância de preservar as áreas nobres da cidade, evitando transformá-las em espaços degradados que descaracterizam a Horta. A repetida utilização de zonas emblemáticas para soluções provisórias dá à cidade uma imagem de estaleiro de obras inacabadas, prejudicando a estética urbana, o turismo e a qualidade de vida dos faialenses. Uma cidade deve cuidar dos seus espaços mais simbólicos, em vez de sacrificá-los para resolver problemas estruturais mal resolvidos. O caso dos Jardins da Casa Manuel de Arriaga é um exemplo claro disso. Décadas de inação levaram à degradação de um património valioso, e mesmo o simbolismo do ato público de 2021 não se traduziu em ações concretas. Mais uma vez, os espaços nobres da cidade são sacrificados em nome de soluções provisórias que não resolvem os problemas estruturais. Enquanto outras obras pontuais possam avançar noutros pontos, a falta de planeamento estratégico para o património e o espaço urbano da cidade reflete-se no que temos hoje: um improviso atrás do outro. Seria bom que a paciência, que todos pedem, fosse acompanhada de um plano claro e executável que dignifique o passado e projete o futuro da Horta.
Mário Neves
Por vezes será preciso, necessário, e imperioso resolver assuntos de carácter urgente. O estacionamento na cidade da Horta é um problema. É porque somos comodistas, e porque nunca se planeou esse problema. Se é certo que devemos preservar tudo o que escreveste, João Garcia, e não tiro uma linha, também é certo que nesta altura existe um problema para resolver. Tudo terá o seu tempo, até porque já foi anunciado para aquele espaço uma obra que finalmente vai dignificar o espaço. Sejamos pacientes. E sim, a nossa cidade e arredores está em obras, será um bom sinal após duas décadas onde nada se fez e planeou.
José Manuel Souto Gonçalves


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