Comportamento intocável
Quem está, minimamente, atento ao que se passa no espaço público, de que as redes sociais são, hoje, um barómetro incontornável, apercebe-se da reação, significativa, ao anúncio da candidatura de Francisco César à liderança do PS-Açores.
Acho inconsequente a cada vez mais volumosa manifestação de opiniões contrárias ao prolongamento da era “cesarista”, pela simples razão de que não vejo surgir ninguém com coragem política para assumir, na prática, esse movimento de rejeição.
É caso para dizer: falar é fácil!
De há muito tempo (desde a juventude) que tenho batalhado contra hegemonias interesseiras, de que o meu ex-partido, como qualquer outro, aliás, padeceu e parece continuar a padecer.
Embora, em diversas ocasiões, crítico de Mota Amaral, nunca ninguém me ouviu culpá-lo pela entronização de que beneficiou durante largo tempo e pelo “pulso de ferro” com que dirigiu o Partido. Pelo contrário, sempre achei que os “culpados” da falta de debate interno e de soluções alternativas à liderança, eram aqueles que se subtraíam de assumir o confronto.
Assim está o PS, clamando por uma viragem na sua liderança, sem que os que a pedem sejam capazes de dar um passo em frente.
Assim está o PS, clamando por uma viragem na sua liderança, sem que os que a pedem sejam capazes de dar um passo em frente.
Na pequenez da minha intervenção política local, em 1996, com a criação de um denominado “grupo de reflexão”, tentei agitar consciências. Foi um insucesso. Mas, ninguém me poderá acusar de não ter tentado.
Creiam, ou não, sempre me animei de um espírito de disponibilidade absoluta para intervir politicamente, sem pensar que os meus atos pudessem fechar-me as portas de acesso à escadaria do poder.
Com toda a sinceridade, não vejo que isso aconteça com mais ninguém: todos os que observo têm em mente uma inconfessável ambição de subir muito alto e isso elimina qualquer capacidade para discernir qual o caminho que deverão seguir para alcançar, afinal, a razão de ser da atividade política: o bem comum.
Há pouco tempo fui o único, a nível regional, a contestar a legitimidade de Alexandre Gaudêncio continuar como líder do PSD. E apesar de ter tido uma Assembleia de Ilha do Partido no Faial (quase) toda a meu favor, esse protesto ficou-se por aí. É muito fácil expressar o voto secreto na urna, mais difícil é assumi-lo e, sobretudo, procurar ser consequente com a vontade ali expressa.
Também foi em consequência disso e de outras atitudes por mim tomadas, que tudo foi feito para que, sub-repticiamente, fosse criado o ambiente para que me sentisse a mais no Partido.
Hoje podias estar num lugar de relevo, se tivesses tido outro comportamento, disse-me um convicto social-democrata faialense quando o PSD acedeu recentemente ao poder.
Será necessário apresentar mais algum dado para aferir da veracidade do que vos acabo de contar?
Um dos militantes mais críticos do PSD do Faial (podia dizer dois, três, quatro…) está hoje num desses lugares de relevo, mas, já é um dos maiores seguidistas do Partido.
Desenganado que estou em relação à possibilidade de debater ideias e fazer reflexões dentro do PSD (a que continuo a pertencer ideologicamente e, até, sentimentalmente), veria, com bons olhos, que os socialistas aproveitassem os próximos tempos para renovar o seu Partido na Região.
Não por “amor” ao PS e muito menos por ter na cabeça qualquer possibilidade de me aproximar deste Partido, mas, porque acho que a democracia e os Açores necessitam de partidos fortes, organizados e, sobretudo, expurgados de interesses particulares.
Por assim ser, recordo palavras de alguns amigos meus socialistas do Faial, que correram para mim a felicitar-me quando critiquei Alexandre Gaudêncio (o líder do PSD tinha pedido a demissão de uma diretora regional do PS envolvida num caso de Justiça, mas, recusou demitir-se quando ele próprio foi envolvido). Até me disseram que eu devia ter ido mais longe, e, então sim, o meu comportamento seria intocável.
Ora, chegou a minha vez de incitar o PS do Faial: ponham-se em campo e deixem de ser — como até aqui têm sido — uns joguetes nas mãos de César (digo, de Francisco César).
Sabe-se que o antigo presidente do Governo Regional pôs os socialistas faialenses com o rabo entre as pernas, quando, por exemplo, Carlos César impôs o nome de João Castro para candidato à Assembleia de República, contra a vontade do Secretariado de Ilha, para não falar de outras estórias, como aquela em que Vasco Cordeiro destratou José Leonardo, por considerá-lo inapto politicamente. Que o diga Luís Botelho, que chegou a pensar bater com a porta por achar que o Faial era alvo de desmerecimento por parte do Governo.
Talvez chegou a hora do PS do Faial mostrar o que vale. Não tem um candidato para disputar a liderança contra Francisco César, mas, pode ter uma palavra num movimento que construa essa alternativa.
Seria um comportamento intocável! ✓

José Manuel Souto Gonçalves


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