Cidade inundada há 72 anos
De 27 para 28 de fevereiro a Horta e a Feteira foram fustigadas por violenta tempestade
Dentro de pouco mais de um mês fará 72 anos que, tal como hoje, quinta-feira, 11 de janeiro de 2024, a Horta foi invadida pelo mar. O acontecimento deu-se na noite de 27 para 28 de fevereiro de 1952, destruindo a débil muralha de proteção da orla marítima da cidade (antes da construção da Avenida Marginal) e derrubando, também, habitações na freguesia da Feteira.

RUA DO MAR | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA
A tradição oral diz que o mar introduziu uma árvore na igreja da Feteira. Com maior fiabilidade, o jornal Correio da Horta escreveu, na altura, que «o mar galgando o adro meteu uma porta da igreja dentro e, penetrando no interior, partiu algumas cadeiras».
Após este temporal foi construído um bairro na «Reta da Feteira», ainda hoje existente, que supriu as carências provocadas pela destruição de algumas moradias. Barcos de pesca foram atirados por terra dentro ficando num estado irrecuperável.

FETEIRA | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA
No centro da Horta tudo era desolação na manhã de 28 de fevereiro de 1952.
A tradição oral também diz que uma pequena lancha foi vista sobre as águas em plena Rua Serpa Pinto, inundada pelo mar. As águas chegaram até à Alameda do Barão de Roches. «As Ruas Conselheiro Miguel da Silveira, Serpa Pinto, Largo do Bispo, Travessas da Pesqueira, da Misericórdia, do Monturo e Poiso Novo ficaram intransitáveis», informou o Correio da Horta.

RUA SERPA PINTO: ENTRONCAMENTO COM A TRAVESSA DO POISO NOVO. HOJE, NA CASA COM A PLACA QUE IDENTIFICA A RUA, FUNCIONA O CAFÉ ROCHA & ROCHA, ONDE ANTIGAMENTE EXISTIA O «CHICO DAS BICICLETAS» | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA
Sob o título «Noite de angústia», o jornal fez um relato cru sobre a situação: «O vento, com rajadas ciclónicas muito perto umas das outras, fustigou o mar por tal forma que a noite passada e continuadamente foi galgando a pseudo-muralha de defesa da cidade até que, cerca da 1 hora da madrugada, se ouviram gritos de angústia e de dor, seguidos de rebate de sinos nas igrejas Matriz e Conceição, numa ânsia de salvação».
A iluminação pública apagou-se, o que dificultou o socorro e adensou o clima de horror que se abateu sobre a população.

RUA SERPA PINTO: À ESQUERDA O ANTIGO «MERGULHA FEIJÃO» (ATUALMENTE MERCEARIA SILVA). HOJE, ESTE LOCAL TAMBÉM FOI INVADIDO PELA ÁGUA DO MAR | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA
Alguns dos sinistrados tiveram que sair de suas casas, na Rua do Mar, pela janela, pois os pedregulhos atirados pelas ondas bloquearam algumas portas, segundo o Correio da Horta. Envolveram-se no auxílio às vítimas do temporal os Bombeiros Voluntários, a Polícia e a Bateria de Artilharia, conduzindo-as para o Asilo de Mendicidade, Teatro Faialense e algumas casas particulares, conforme escreveu o jornal.
O Correio da Horta chamou «pseudo-muralha» à proteção que defendia a Horta do mar bravo, dando nota, porventura, da consciência que já existiria sobre a necessidade de construir o que veio a ser, poucos anos depois, a Avenida Arantes de Oliveira e o seu poderoso quebra-mar. O temporal de 1952 pode ter sido um abre olhos que despertou a opinião pública faialense e as autoridades para a realização do empreendimento, inaugurado nove anos depois.
A desproteção da orla costeira da cidade fora, anteriormente, minimizada, com a construção da doca. Numa publicação no Facebook, a propósito da depressão Hipolito, a professora Teresa Simas escreveu que «foi com tempestades de sudeste que muitos barcos naufragaram na praia da Conceição antes da doca velha existir, só num dia foram uns oito, está registado nos Anais da Família Dabney no Faial». | x

LARGO DO BISPO | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA

RUA SERPA PINTO: A LOJA DO «CHICO DAS BICICLETAS» | FOTOGRAFIA DO ARQUIVO DE JOSÉ MANUEL GARCIA

FETEIRA, NAS PROXIMIDADES DO PORTO


COMENTAR