O lago da Joana

A Cidade Torta preparava-se para passar o primeiro fim de semana do Ano Novo de forma tranquila, após a quadra natalícia, durante a qual há sempre alguma agitação, mas, acordou em sobressalto por causa de uma fotografia publicada no Facebook [da autoria de Hélio Correia].

A imagem foi captada por um cidadão desta Ilha Genial que, passando pelo Canto cuja nome significa balbúrdia, era meia-noite, ficou boquiaberto e até incrédulo, porque, à primeira, não percebeu se, por quaisquer artes mágicas, o belo lago da avenida, com aquela esbelta ponte que os namorados atravessavam de mão dada e os noivos se faziam fotografar depois da missa do casamento, tinha sido reposto, qual prenda natalícia, embora atrasada, certamente vinda pelo Correio, que nunca distribui nada a tempo!

A sexta-feira, dia 5 de janeiro, foi um dia divertido. Os cibernautas mais imaginativos entretiveram-se a brincar com a imagem publicada, chamando Veneza àquele, apesar da denominação, pacato Canto, ou divertindo-se a colocar barquinhos nas águas calmas que invadiram um trecho da antiga Rua do Mar.

A frase do dia foi proferida para a televisão — desta vez atenta — por um comerciante da zona, que precisou de meter os pés na algibeira quando se deparou com a inundação das suas lojas: «Estamos aqui há 85 anos, mas só hoje é que fomos inundados», por água, nanja por clientes, que seria mais proveitoso.

Pressuroso, o autarca das obras, anunciou, pela dita TV, que, para lá de abril, isto é, quando deixar de chover, o Município da Cidade Torta irá abrir dois buracos para engolirem a água antes que ela faça prejuízo.

Este episódio pôs em polvorosa as redes sociais, conforme antes dito, arregimentando nas respetivas trincheiras os defensores do presidente Carlos Poeira e do vereador José Petardo e… lá vai fogo!

Um franco-atirador escreveu que tinha visto Carlos Poeira a sacudir o pó no cais da Praia do Almoxarife, em pose olímpica de mergulhador, tranquilo, visto que Eduardo Laranjeira faria bem a dobra, pois o momento não se coadunava com a estratégia delineada pelo gabinete de “marketing” político do Município da Cidade Torta.

O código de conduta política escrito e mandado executar pelo chefe João Toupeira, com o “agrément” do assessor Pedro Obreiro, refere, a dado passo, que a Carlos Poeira só é permitido aparecer perante as câmaras de televisão para anunciar coisas boas.

Com tudo isto a acontecer, José Petardo ficou com as orelhas a arder: é que não faltaram uns ingratos a lembrarem que foi ele quem mandou elaborar o projeto da frente-mar da Cidade Torta.

Entretanto, os arquitetos e engenheiros que fizeram o desenho já estão a esfregar as mãos, uma vez que, se lhes pedirem para encontrarem uma solução, terão oportunidade de ganhar mais uns trocos; ou se, pelo contrário, alguém mexer naquilo que delinearam, terá que indemnizá-los.

Conclusão: para fazer um negócio da China não é preciso ser chinês! | x


Esta crónica ficciona a realidade, por isso, qualquer semelhança das personagens, das entidades ou dos acontecimentos referidos com pessoas, instituições ou situações será mera coincidência.

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