
Os dois maiores Partidos que vão concorrer na eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores escolheram a palavra Confiança como lema da sua estratégia eleitoral. Pelo menos é isso que se observa na propaganda que têm vindo a lançar.
Esta escolha é, antes de mais, o reconhecimento de que a maior expectativa do eleitorado será poder escolher uma força política que consiga, precisamente, restabelecer a confiança na governação. Desse ponto de vista os dois acertaram no alvo.
Como eleitor, porém, vejo uma contradição — que os responsáveis pelo “marketing” das candidaturas em causa, certamente, não observam ou não valorizam — nesta escolha, pois o que o PS e o PSD agora dizem ter para dar ao eleitorado é, nada mais, nada menos, o que depauperaram no exercício do poder. Faz lembrar a estória do Pedro e o lobo, mas, ao contrário, ou seja, em vez de súplica por socorro, oferece-se proteção.
Tal como aconteceu com o Partido Social Democrata, o Partido Socialista desgastou-se no Governo. É normal. Ambos prolongaram-se no poder demasiado tempo. Dirá o povo que o que é de mais é como o que é de menos.
Foi porque se deteriorou o capital político do PS e do PSD que os açorianos romperam com o seu tradicional voto conservador, avesso a mudanças.
Com a figura que representa décadas de socialismo nos Açores de novo à frente da candidatura socialista, cuja ação governativa já padecia, confrangedoramente, nos últimos anos, de soluções estafadas, ou falta delas, para resolver os problemas dos Açores, o PS não inspira confiança, até porque não se consegue livrar da ideia de que o amiguismo contaminou e imperou na Administração sob a sua responsabilidade.
Três anos é pouco tempo para uma cura de oposição.
O PSD, que, faça-se justiça, não pôde fazer num mandato o que não foi feito por quem governou muito mais tempo, enredou-se numa Coligação espúria (para usar um termo de Reis Leite, quando a conjugação de votos o fez sair de presidente do Parlamento), que não é confiável!
Embora, como é próprio da natureza partidária, José Manuel Bolieiro não vislumbre qualquer sinal de crítica com origem no PSD, a sua principal fraqueza é a falta de liderança, de que a ação como presidente do Partido e do Governo são um nítido espelho. E liderança tem que combinar com confiança.
Pode admitir-se que a formação da Coligação tenha sido um golpe político com alguma perspicácia, eu próprio vi nessa solução um caminho a seguir; é aceitável que um líder político nestas circunstâncias esteja amarrado numa forte camisa de forças; já não se compreende a entrega do ouro ao bandido!
Não é a atribuição da Vice-Presidência do executivo ao CDS que põe em causa uma Coligação que se pretende coesa, mas, sim, as competências que lhe foram dadas, algumas disparatadas numa governação que deveria ser coerente na forma como se organizam os seus executores.
Mal comparando, isto faz-me lembrar o tempo da hegemonia do PSD na Câmara Municipal da Horta, quando o pelouro dos cemitérios era entregue ao PS.
Em tempos, um político de Esquerda com grande notoriedade nos Açores, muito maior do que a força política que representava, falando de um possível acordo que lhe permitisse entrar no Governo, confidenciou, em particular, que exigiria a pasta da Habitação. Isto é: um sector onde seria possível ganhar simpatias e votos facilmente.
José Manuel Bolieiro “esqueceu-se” que uma Coligação com o CDS beneficia mais este Partido do que o seu e que, ao contrário, se a Coligação se rompesse, o maior prejudicado seria o CDS, cujo desaparecimento do mapa político poderia mesmo ocorrer. Porém, as coisas parecem acontecer como se fosse ao contrário, com o PSD a entregar tudo de mão beijada aos centristas. Observe-se, com minúcia, a composição das listas de candidatos agora entregues.
Mais importante do que o autor são as políticas executadas. Certo. Todavia, para executar tais políticas é necessário o respaldo de uma equipa comprometida, senão a falta de equilíbrio das opções pode deitar tudo a perder. O Governo de Bolieiro foi amputado de um dos seus maiores ativos em consequência disso. A confiança levou uma machadada.
Numa visão um bocadinho sectária sobre tudo isto, até poderia dizer-se que José Manuel Bolieiro passará a campanha a anunciar os feitos de Artur Lima. Por alguma razão o presidente do Governo pôs a RTP atrás de si em visitas a velhinhas em São Miguel.
Perante a incapacidade política notória dos novos Partidos estreantes no parlamento, penso que os açorianos vão ter um início de ano complicado, pois resta-lhes pouco tempo para decidir em quem irão votar.
Como eleitor, preocupado e refletindo sobre que opção me dará confiança no futuro e no desenvolvimento da minha terra, estou, como se diz em linguagem corrente, baralhado.
Se houver bodes expiatórios, não serão, com certeza, os principais atores políticos, pois, realmente, os culpados são mesmo eles. | x


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