Rui Simões, o cómico!
Começamos a tomar verdadeira consciência da breve passagem por este mundo quando os nossos pais morrem e passamos a ser nós os mais velhos da família. O mesmo acontece quando desaparecem aquelas pessoas que eram referências da nossa vida, embora, por vezes, tenhamos a sensação de que há gente que nunca deixará de existir.
O Senhor Rui Simões (Rui Manuel da Costa Simões Pinto), que hoje foi a sepultar, é uma daquelas personalidades que a Horta não pode esquecer.
Para além do seu longo percurso profissional na área das obras públicas, através do qual se dedicou, de alma e coração, à terra natal, deixa impressa uma marca indelével no panorama cultural faialense, e não só.
Todos se lembrarão dele a pisar o palco do Teatro Faialense, com desempenhos dignos de um profissional da arte de Talma, na sua faceta mais brilhante e difícil de representar, a de cómico!
O Senhor Rui Simões possuía uma das grandes qualidades que distingue um verdadeiro humorista, que é fazer rir sem se rir, atitude que transpunha para o dia-a-dia e fazia dele um apreciado conviva.
Era, também, um homem de fé, irmão do Santíssimo Sacramento da Matriz da Horta, onde o conheci mais de perto, impressionando-me, sempre, a forma como dramatizava, numa simples leitura do Evangelho, a Paixão de Jesus Cristo.
Dignidade é a palavra que escolho para caracterizar a sua presença e participação nos atos litúrgicos da Igreja Católica, onde, sempre que podia e sem ferir a solenidade dos momentos, deixava transparecer a sua veia divertida, cortando com ironia o ambiente por vezes taciturno da sacristia.
Esses foram os tempos do Padre Fortuna, líder espiritual de algumas gerações na Matriz da Horta, nas quais me incluo.
Por essa altura, com os meus 18 anos, fui a exame de condução. Deu-se a coincidência de, no mesmo dia, serem examinados o meu amigo José Lemos, que também frequentava a Matriz, e eu próprio. O Lemos foi primeiro. Logo a seguir, ao entrar para o carro de condução, com os nervos à flor da pele, eu já sabia quem me esperava como examinador: o Eng.º Rui Simões.
Conhecendo-o bem, fiquei à espera de uma “boca”, disparada à Rui Simões, que, na verdade, não se fez esperar, ainda o exame nem começara: «Só me falta aparecer o padre Fortuna para tirar carta!» | x


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