Opinião pública agita mais do que o “carpinteiro da baía”

Afluência de iates à Horta faz regressar debate sobre o reordenamento do Porto

A SOBREOCUPAÇÃO da baía da Horta, que presentemente se verifica, (re)lançou na opinião pública faialense o tema do reordenamento do Porto. A polémica que tem caracterizado este assunto arrefeceu ultimamente, mas, o seu ressurgimento, agora, é a prova de que a necessidade da obra não está esquecida e os faialenses publicamente mais ativos mantêm a predisposição para lembrá-lo, seja nas redes sociais, onde certos escritos primam pela ligeireza e, até, pela paixão; seja na comunicação social, onde o debate é mais sustentado, do ponto de vista da argumentação. Numas ou noutra, porém, há contributos com valor, como são os casos das intervenções de Eugénio Leal (na Rádio Azores High), Rui Gonçalves (no jornal Incentivo) e Norberto Serpa (na rede social Facebook).

Eugénio Leal, antigo governantes e militante histórico do PSD, atual presidente da Assembleia Geral do Clube Naval da Horta e amante da náutica de recreio; Norberto Serpa, investigador do Departamento de Oceanografia e Pescas, empresário marítimo-turístico e um dos mergulhadores que melhor conhece o mar açoriano e um autêntico “rato da doca”, em versão moderna e Rui Gonçalves, diretor do diário Incentivo, com uma longa carreira jornalística, cuja truculência, frontalidade e desassombro são sobejamente conhecidos, coincidiram, curiosamente, nos últimos dias, numa crítica relacionada com o Porto.

Trata-se do parque de invernagem, matéria recorrente, há anos lançada por José Decq Mota, outra figura destacada do meio náutico faialense e não só.

Eugénio Leal lembrou, na sua crónica radiofónica, declarações à RTP de Berta Cabral, que tem a pasta das Infraestruturas do Governo Regional, segundo a qual «o seu departamento não iria despender qualquer valor» para o dito parque. Norberto Serpa, por sua vez, num “post” do Facebook, considerou a inexistência do parque de invernagem «o maior défice que este porto tem [e] que já deveria ter sido feito». Por fim, Rui Gonçalves, num artigo de fundo do Incentivo, foi mais além e escreveu que a Portos dos Açores «descobriu que construindo um designado parque de invernagem talvez calará a boca dos críticos por mais algum tempo».

São três exemplos que refletem, como atrás referido, o recrudescimento da contestação à falta de soluções de viabilização da atividade portuária, cujos constrangimentos conduziram ao processo do reordenamento do Porto.

Há uma semana, na Rádio Azores High, na crónica já citada, Eugénio Leal tomou uma posição política forte ao dizer que tem «a sensação» de que Berta Cabral «demonstra uma indisfarçável falta de vontade política para efetuar alguns investimentos importantes para melhorar a qualidade dos serviços que no Faial são prestados».

Já hoje, no Facebook, Norberto Serpa visou, diretamente, Gui Menezes e Rui Santos (respetivamente, antigo secretário regional e líder do grupo do PS na Assembleia Municipal da Horta), ao trazer à colação os seus nomes para afirmar que não gostou de «um comentário» que serviu «para qualificar aqueles que, exercendo a sua participação cívica, se opuseram ao novo projeto do porto».

Também hoje, no Incentivo, Rui Gonçalves deu à estampa a afirmação segundo a qual «desde que mudou o Governo Regional, que passou a ser liderado pelo PSD, não se sabe nada sobre a intenção de reorganizar o espaço do porto da Horta. E já lá vão mais de dois anos».

Após um período de calmaria, à semelhança do clima, anuncia-se nova tempestade. No meio da convulsão é difícil, por vezes, destrinçar o essencial do acessório, pois a discussão – que atualmente se trava num campo acessível a todos, que é o das redes sociais –, boa parte das vezes, se deixa influenciar por simpatias e, sobretudo, interesses partidários. E não é para menos, visto que a questão, por ora, se reveste de natureza essencialmente política, conforme bem notou Eugénio Leal.

PONTÕES

As três peças mencionadas, emergem do emaranhado que ocorre no debate público e são de levar em conta pelo que trazem de positivo à participação cívica e democrática que Norberto Serpa sublinhou.

Aliás, Serpa e Leal puseram o dedo numa ferida incompreensivelmente aberta: «Atendendo à degradação da marina foram comprados, há mais de 4 anos, pontões que estão a apodrecer no parque de contentores, qual o porquê de não estarem no seu sítio?», interrogou-se, hoje, Norberto Serpa. Oito dias antes, Eugénio Leal tinha questionado: «Há mais de três anos que chegaram a esta ilha, e ainda se encontram no parque de contentores, flutuadores e pontões para substituição de parte ou da totalidade dos instalados na marina. Apesar de vários contactos efetuados ao longo destes anos, ainda não consegui apurar, exatamente, qual ou quais as razões que justifiquem o mencionado equipamento continuar no parque de contentores no local onde, inicialmente, foi colocado e bem à vista de quem por lá passar.»

Depois de estranhar a complexidade deste problema e de notar que, nem o Governo anterior, nem o atual – «que já vai a caminho de três anos de mandato» –, conseguiram resolvê-lo até agora, Eugénio Leal, sem meias palavras, perguntou: «Será mais um caso de falta de vontade política para resolver um assunto importante para a melhoria da qualidade e da segurança dos iatistas na marina da Horta?»

NOVOS LUGARES NA MARINA

Conhecedor profundo, como se sabe, da economia marítima, Norberto Serpa, manifestou a sua surpresa por se ter conquistado «ao mar um espaço “nobre” de águas calmas na baía, o ativo mais importante de um porto, para fazer casas de “aprestos”, depois de se conhecer grande declínio no sector das pescas em todos os Açores, com grande foco no porto da Horta, e com a previsão de serem cada vez menos» [os pescadores].

Por isso, Serpa defende a destruição do plaino inclinado e a criação de um espaço para um travelift «com capacidade bastante superior ao existente». E vai mais além: «Fazer um molhe, a norte do plaino, até cerca do meio da baía na direção oeste e logo teríamos grande espaço para colocar estacas/pilares com pontões para estacionar a mesma quantidade de barcos que estão ancorados neste momento». E ainda restariam lugares, assegura.

Norberto Serpa, a figura mais conhecida do Porto da Horta depois do Peter, apontou também o dedo a quem ainda não conseguiu «retirar os barcos abandonados e outros apreendidos, alguns há mais de 15 anos e que, neste momento, ocupam umas dezenas de lugares em locais nobres deste porto».

A finalizar a sua intervenção no Facebook, sobre o cais norte do Porto da Horta, ironizou: «Até consta que o projeto inicial, realmente, havia sido pensado em grande, mas, quem, na altura, tomava essas decisões deve ter concluído que seria demasiado para uma ilha tão insignificante.»

FARPAS

Num tom idêntico, o diretor do Incentivo lançou, no artigo publicado na edição de hoje do jornal, que ocupa o melhor espaço da 1.ª página, algumas farpas sobre a situação do Porto.

Referindo-se à sobrelotação da Marina, Rui Gonçalves deixou uma interrogação: «Recentemente reuniu no Faial a direção do Clube das Mais Belas Baías do Mundo, do qual a baía da Horta faz parte. Para quê? Para dizermos aos estrangeiros que não os podemos receber em condições?»

Tal como aconteceu com Eugénio Leal, Berta Cabral não foi poupada: «Até a secretária regional que superintende os portos já confidenciou aos seus pares do partido que a solução para os iates pode passar por colocar “fingers” na baía norte, no interior do Terminal de Passageiros.»

E concluiu, incisivo: «Não sabemos qual será a solução para o futuro. Esta não é com certeza. O pior é que não há nenhuma.»

É caso para dizer que, pior do que o “carpinteiro da baía» para agitar o Porto, só a opinião pública faialense. | x

Na fotografia a baía da Horta, no sábado, 3 de junho de 2023 [fotografia de Carlos Sousa]

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