Maior ovação premeia dedicação voluntária ao Sporting
O primeiro grande momento do programa do Centenário do Sporting da Horta pôs o Amor da Pátria a rebentar pelas costuras

O VETUSTO SALÃO do Amor da Pátria é, no Faial, o maior espaço, excluindo os pavilhões desportivos, para a realização de iniciativas dentro de portas, mas, foi quase insuficiente para acolher os participantes na sessão solene comemorativa do Centenário do Sporting Clube da Horta (SCH), realizada no domingo, 28 de maio.
Com os faialenses alheados, na sua maioria, de acontecimentos de carácter social, cultural e desportivo, o momento em causa entra, surpreendentemente, na História da ilha, por representar uma forte afirmação de uma coletividade, desportiva, local.
Serão, certamente, várias as explicações para o sucedido, mas, entre elas, estará um certo sentimento de perda da auréola sportinguista, que levou os sócios, adeptos e simpatizantes – e, até, quem, não fazendo parte da família “encarnada”, reconhece a importância do SCH na comunidade faialense –, numa atitude inconformista, a proclamarem, simbolicamente, com a adesão verificada na noite do domingo, que o espírito fundador do Clube não morreu.
Apesar da visibilidade e dos resultados que a modalidade do andebol tem conseguido para o Clube ultimamente, a interrupção da prática do desporto-rei em 2010, modalidade que o Sporting praticou durante 87 anos, e o estado de abandono da sede à Rua Eduardo Bulcão e do Campo da Doca, mergulharam esta coletividade num ambiente de crise e depressão.
Não é seguro que o Sporting da Horta consiga ultrapassar totalmente o período difícil que atravessa, até porque, do ponto de vista financeiro, fala-se de uma pesada herança. Aliás, sobre a saúde económica “encarnada” muito se tem especulado nos últimos anos, mas, pouco se sabe.
Enquanto isto, há quem diga que a formação de uma comissão para organizar as comemorações do centenário poderá significar que existem disponibilidades para levar o terceiro mais antigo clube desportivo do Faial em atividade a bom porto. Para já, a forma como decorreu a sessão solene dos 100 anos, quase perfeita no que toca à sua conceção e execução, é sinal de que o Sporting tem massa crítica que poderá encetar a tão falada e desejada recuperação do Clube.
O Governo Regional vai apoiar a requalificação da sede e existe uma comissão encarregada da reabilitação do Campo da Doca, o que, aliado ao espírito dinamizador das comemorações do Centenário, constitui uma lufada de ar fresco e um motivo de esperança no futuro sportinguista.
HOMENAGENS
O ponto alto da sessão solene comemorativa do 1.º Centenário do Sporting Clube da Horta foi a homenagem aos fundadores e a todos os sócios, colaboradores e praticantes das 16 modalidades desportivas que, até hoje, tiveram atividade no Clube. A música, o teatro e o cinema também mereceram distinção na hora do reconhecimento público, bem como aqueles que, nos 100 anos em causa, voluntariamente, como colaboradores, entregaram o melhor de si ao SCH. Foi chamada a receber o galardão que homenageou esta parte – tão anónima quanto decisiva para o sucesso de qualquer agremiação, que é o trabalho sem qualquer contrapartida que não o amor à camisola – Júlia Cristo [na fotografia de topo, em primeiro plano], uma mulher que é um símbolo da mística “encarnada”. A sala, composta por centenas de espetadores, levantou-se e tributou-lhe uma insistente, demorada e emocionante ovação, sem paralelo nos aplausos daquela noite.
EMOÇÕES

A sessão solene foi, principalmente, uma sessão de emoções, numa sala repleta de sangue verdadeiramente encarnado.
Deram-se reencontros de antigos atletas com a felicidade estampada nos rostos e as piadas sobre a condição física (ou falta dela) que se observa em cada um passados tantos anos de convívio nos campos desportivos.
O carismático guarda-redes de futebol Jorge Magina, que também praticou basquetebol pelo Clube, surpreendeu a sala, apesar da manifesta dificuldade motora, quando ergueu a camisola alvirrubra, arrancando uma vibrante salva de palmas.
No momento simbólico de partir o bolo de aniversário os dois mais velhos futebolistas, Manuel Gomes e Jorge Vieira, mostraram que o Sporting ainda tem fôlego suficiente para enfrentar o futuro, pois conseguiram apagar, em sucessivos sopros, uma centena de velas.
O Sporting promoveu um reconhecimento público aos membros da comissão organizadora do Clube e aos sócios fundadores, conforme atrás referido. Revestiu-se de especial significado a entrega do diploma destinado a homenagear o sócio fundador Augusto de Bettencourt da Costa Salema, pois ainda foi possível a presença do seu filho, comandante José Salema [na fotografia acima], de idade muito avançada. Todos os outros galardões foram recebidos por familiares mais afastados.
ALEXANDRE SIMAS
Convidar um antigo atleta do SCH para entrevistar e, desse modo, sintetizar todo o significado que as suas palavras pudessem ter na evocação do “sportinguismo”, não era fácil. No entanto, Soutoemlinha fez uma opção, habituado que está, por via da profissão jornalística, a escolher.
Alexandre Simas foi um atleta eclético, fazendo jus à tradição “encarnada” – futebol, hóquei em patins, basquetebol, voleibol… e outras modalidades certamente, fazem parte do seu historial enquanto jogador do Sporting Clube da Horta.
Não cabe aqui analisar e avaliar a sua virtuosidade, tecnicismo e dedicação enquanto atleta multifacetado, mas, uma coisa é certa: o Alexandre representa bem o Sporting enquanto memória e enquanto antigo praticante de eleição, com a humildade dos predestinados, que não esquece o valor de quem com ele ombreou nos campos desportivos.
Falar da família Simas é o mesmo que falar do Sporting, tal como quando se fala do Sporting se torna impossível não lembrar uma dúzia de irmãos atletas do Clube e um pai que vestia a camisola até em casa!
ATIVIDADES
Para além da música (atividade desenvolvida durante 29 anos, entre 1924 e 1953), do teatro (29 anos, de 1924 a 1953) e do cinema (51 anos, de 1926 a 1977), foram e são as seguintes as modalidades praticadas no Clube: esgrima (13 anos, de 2003 a 2016); futebol de salão (16 anos, de 1958 a 1974); ténis de campo (26 anos, de 1924 a 1950); voleibol (39 anos, de 1943 a 1982); ciclismo (39 anos, de 1947 a 1986); hóquei em patins (39 anos, de 1949 a 1988); natação, remo e vela (47 anos, de 1923 a 1970); tiro aos pratos (50 anos, de 1923 a 1973); ténis de mesa (50 anos, de 1936 a 1986); ginástica (61 anos, de 1924 a 1985); basquetebol (62 anos, de 1926 a 1988); atletismo (65 anos, de 1923 a 1988); andebol (65 anos, desde 1958); futebol (87 anos, de 1923 a 2010). | x

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