Helder Mendes destaca «densidade» das iniciativas culturais no Faial

O Centenário da Festa de Santa Cecília foi pretexto para um conjunto de eventos culturais que deram projeção à ilha

O ADMINISTRADOR DA DIOCESE de Angra disse ontem à noite na igreja do Carmo, na Horta, que o Centenário da Festa de Santa Cecília, no qual tomou parte, foi «o maior acontecimento» realizado nos últimos dias nos Açores. Helder Fonseca Mendes [na fotografia, de Nina Simões] encerrou, com um breve discurso, a sessão solene comemorativa do Centenário. O cónego destacou «a densidade» das iniciativas culturais que ocorreram no sábado e domingo passados e afirmou que a «Festa de Santa Cecília democratiza a cultura e a música», acrescentando que a presença significativa de pessoas nos diversos atos representa uma «conversão».

Helder Mendes congratulou, na ocasião, o clero faialense, destacando a respetiva média de idades, que deverá rondar 40 anos, pouco mais de metade da média nacional, incentivando os padres do Faial a prosseguirem o seu múnus com a força que a juventude lhes oferece. Lembrou que alguns deles foram seus alunos no Seminário de Angra, confessando, com ar jocoso e provocando um rumor ridente na assembleia, que lhe causa admiração o valor que hoje revelam, pois alguns deles «queriam era brincar» aquando da passagem pela “escola” diocesana de formação de clérigos.

O programa que assinala os 100 anos da Festa de Santa Cecília e se prolonga ainda pelo próximo sábado, com a realização do 19.º Encontro de Coros Paroquiais, na Matriz da Horta, terminando a 25 do corrente mês com o fecho da exposição «Os Mártires no Cristianismo», a decorrer no Museu de Arte Sacra da Horta (igreja do Carmo), iniciou-se com o «7.º Horta Coral», encontro de coros promovido pelo Grupo Coral da Horta, na noite do último sábado, na Matriz do Santíssimo Salvador. Participaram o Ensemble de Palhetas do Conservatório Regional da Horta, o próprio Grupo Coral da Horta, o Coral de Santa Catarina e o Orfeão Sol do Troviscal (da freguesia de Oliveira do Bairro, município próximo de Aveiro), que regressou ao Faial oito anos após a primeira visita. A solista Nataliya Stepanska, presentemente a trabalhar com o Coral da Horta, foi solista convidada (voz, depois de também ter tocado violino a acompanhar o coro), com Marcello Guarini ao piano. Stepanska atuou recentemente na Final Got Talent Portugal 2022.

Foi homenageado, a título póstumo, o coralista e maestro Norberto Oliveira, figura que granjeou grande simpatia e popularidade pela sua dedicação voluntária, persistente e prolongada a diversos agrupamentos e iniciativas musicais, particularmente ao Grupo Coral da Horta e igualmente à Festa de Santa Cecília, de que foi mentor em anos recentes.

Na manhã do domingo realizou-se a procissão de Santa Cecília, seguida de eucaristia solene na Matriz, como é tradicional, com a presença das filarmónicas e grupos folclóricos do Faial, sendo descerrada uma placa comemorativa alusiva à efeméride (centenário).

Ao ofertório as filarmónicas executaram, em conjunto, o cântico «Cremos em Vós» («Nearer My God To Thee»), que há quase cinco décadas tinha empolgado a assistência quando foi entoado por todas as capelas das paróquias da Ouvidoria da Horta, numa altura em que a Festa de Santa Cecília vivia momentos de enorme pujança.

O ofício religioso terminou, também conforme a tradição, com a execução do hino de Santa Cecília, novamente pelas filarmónicas presentes.

A sessão solene já mencionada incluiu uma palestra sobre a exposição «Os Mártires no Cristianismo», inaugurada no final da sessão. Esta conferência foi da autoria do sacerdote faialense Pedro Lima, professor de Teologia Dogmática no Seminário de Angra, que fez um enquadramento histórico e teológico, num interessante registo pedagógico, sobre o sentido da palavra «mártir» (testemunho).

Usou também da palavra o presidente da Câmara Municipal da Horta, Carlos Ferreira.

A encerrar assistiu-se a um concerto de órgão pelo professor António Duarte, organista da Sé Patriarcal de Lisboa.

«100 ANOS DE FESTA A SANTA CECÍLIA»

Na sessão solene do Centenário o maestro José Amorim Faria de Carvalho, personalidade incontornável da arte musical no Faial e nos Açores, proferiu uma conferência em que abordou os «100 anos de festa a Santa Cecília».

Amorim de Carvalho começou por lembrar os primórdios da Festa, que remontam ao ano de 1922, quando o ouvidor e vigário da Matriz do Santíssimo Salvador da Horta, Francisco Garcia da Rosa, «tomou a iniciativa de juntar as “capelas” das três paróquias da cidade e alguns instrumentistas residentes, para a interpretação da “Missa a três vozes de homem” de Eduard Segattine, assinalando assim o dia de Santa Cecilia, 22 de novembro».

Foi grande «a expectativa em redor» do acontecimento, que levou «senhoras da sociedade faialense» a confecionarem «um chá e doces conventuais» para presentearem os músicos, recordou o maestro, sublinhando que «o gesto» se manteve durante muito tempo.

Na década de 70, sob a organização de Thieres Lemos, ainda era oferecido um beberete, após a missa de Santa Cecília, no Salão Nobre dos Paços do Município, tal como aconteceu no corrente ano.

Trinta e três anos após o início da festividade, pela mão do carismático monsenhor Pereira da Silva, as “capelas” de toda a Ouvidoria passaram a integrar-se na homenagem à padroeira dos músicos. «O coro alto do velho templo dos Jesuítas tornou-se então exíguo para albergar tantas vozes e os fiéis vinham com muita antecedência para tomar lugar na igreja», evocou José Amorim de Carvalho, notando que, passados mais 15 anos, a festa foi alargada às oito filarmónicas do Faial por monsenhor Freitas Fortuna, recente pároco da Matriz. «O espetáculo tornou-se deslumbrante com as filarmónicas a desfilarem pelas ruas da cidade tocando em conjunto “O Lusito”, uma marcha expressamente composta para o efeito pelo compositor terceirense Manuel Coelho da Silva. Fotos da época mostram os cerca de trezentos filarmónicos em desfile», descreveu o orador.

TRANSMISSÃO DA RTP

Outro ponto alto da Festa, destacou o conferencista, foi a transmissão direta da missa solene pela RTP para o auditório nacional, em 1977, que se ficou a dever ao faialense Humberto de Melo Pereira, realizador e produtor da estação pública de televisão.

Entretanto, em resultado das reformas do Concílio Vaticano II, a missa de Eduard Segattine foi substituída pela Missa Pontificalis I, de Lourenço Perosi, para que as mulheres pudessem cantar também.

José Amorim Faria de Carvalho recordou a sua adolescência e «o prémio que tanta desejava» de, aos 12 anos, fazendo parte da “capela” de Castelo Branco, ter podido «conhecer os melhores músicos da ilha ligados a esta Festa: Ricardo Ventura, Xavier Simaria, João Ramos, Manuel Gaudêncio, Nestor Bulcão, Júlio de Andrade, Thieres de Lemos, Franklin Dutra, Alberto Vargas», entre outros.

Na década de 1970, um dos períodos mais fulgurantes da Festa de Santa Cecília, o coro formado para cantar a missa solene tinha, habitualmente, cerca de 80 vozes e os filarmónicos que participavam na celebração atingiam as três centenas, de acordo com Amorim de Carvalho, que lembrou a “foto de família”, tirada, por tradição, na escadaria dos Correios, à exceção do ano de 1980, em que foi necessário utilizar o polidesportivo do Sporting da Horta, a pedido da Polícia, devido ao grupo ser muito numeroso.

O FUNDADOR

Ao cónego Francisco Garcia da Rosa, nascido em São João do Pico e falecido em Angra do Heroísmo em 1953, deve-se a ideia de honrar Santa Cecília na Matriz da Horta, conforme destacou José Amorim de Carvalho. Cursou no Seminário de Angra do Heroísmo e doutorou-se em Roma em Filosofia e Teologia, não obtendo o doutoramento em Música Sacra e Órgão devido a doença que o obrigou a regressar prematuramente aos Açores.

Garcia da Rosa, ainda no Seminário, impressionou os seus professores com os dotes musicais que possuía, pormenorizou Amorim de Carvalho, contando o seguinte episódio, que classificou como «a sua maior consagração»: em 1939, durante as cerimónias fúnebres do Papa Pio XI, Garcia da Rosa, «sentado ao monumental órgão da Sé de Angra, executou uma obra da sua autoria».

«Entre a assistência embevecida – relatou Amorim de Carvalho – encontrava-se o cônsul de França, que no fim das cerimónias se lhe dirigiu pedindo-lhe a respetiva partitura». A partitura, porém, «não existia», Garcia da Rosa «tinha executado tudo de improviso».

O FUNDADOR

O maestro José Amorim Faria de Carvalho terminou a palestra com um relance sobre os «últimos 50, 60 anos da música da liturgia das missas e outros atos do culto religioso». Destacou a influência do Seminário «por onde passaram nomes de grande saber e mestria como o criador desta festa dr. Francisco Garcia da Rosa, o Padre José Silveira d’Ávila, que vindo passar as férias com seu irmão Padre Manuel d’Ávila, que paroquiava na igreja de Santa Catarina, em Castelo Branco, fez Escola na Capela e na Filarmónica. O mesmo acontecia noutras paróquias da nossa Diocese».

«Estes grandes mestres do Seminário foram desaparecendo e a formação musical passou a ser orientada noutro sentido, bem menos exigente», lamentou o maestro. «Como esta tendência não bastasse – frisou –, entrou-se então em algo de medíocre, perdoem-me a expressão: os textos musicais, que desde o Vaticano II, passaram a ser cantados em língua vernácula, foram, aqui e ali, colhidos pela música ligeira profana, adaptados sem qualquer nexo nem justificação.»

Apesar deste quadro negativo, Amorim de Carvalho é de opinião que, mesmo assim, «as coisas têm vindo a melhorar», concluindo que «uma prova disso» foi o II Festival de Coros do Triângulo, realizado, recentemente na igreja do Carmo, que voltou «ao belo do passado». E deixou um desafio: «É importante celebrar esta Festa, fazendo dela o maior encontro musical desta terra». |x

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