NOVA ESPERANÇA

Na passagem dos 488 anos da Diocese de Angra e ao fim de um ano e mês e meio sem bispo goraram-se as expectativas que alimentaram a possibilidade de um membro do clero local ascender ao topo da hierarquia da Igreja Católica nos Açores

O PAPA, o Núncio Apostólico em Portugal, a Conferência Episcopal Portuguesa e um conjunto de personalidades (incluindo, por exemplo, o presidente da Assembleia Legislativa Regional dos Açores, que, no entanto, à semelhança de outras personalidades consultadas, pretendia uma solução doméstica) e leigos da Igreja Católica – tal o extenso leque de intervenientes na escolha (dita eleição) de um novo bispo – deitaram por terra as ilusões dos putativos candidatos açorianos ao cargo e não corresponderam ao desejo de muitos fiéis que gostariam de ver um padre oriundo de uma das ilhas do arquipélago, como aconteceu com o faialense Alexandre da Sagrada Família e o mariense António Sousa Braga, ocupar a cadeira principal do Paço Episcopal em Angra do Heroísmo.

Teria sido a primeira vez que um sacerdote nascido e em funções na Região fosse feito bispo para trabalhar na sua própria terra, já que os açorianos anteriores, Alexandre e António, não desenvolviam atividade na Diocese quando o Papa os escolheu para dirigirem a Igreja açoriana.

Nunca, durante o recente e longo tempo de “sede vacante”, foi explícita a vontade de qualquer clérigo local de ascender ao episcopado, mas era latente essa aspiração, na medida em que muitos leigos – inclusivamente cidadãos não ligados à Igreja – se pronunciaram publicamente por um bispo açoriano, com o argumento de que a singularidade da Diocese exigia para a sua condução quem da mesma tivesse profundo conhecimento. Este conjunto de opiniões traduzia, de certa maneira, o sentimento do próprio clero diocesano, especialmente de algumas das suas figuras.

Embora se tenha dito que havia padres açorianos dispostos a ocuparem o lugar deixado vago por João Lavrador (o último bispo de Angra), ninguém, como se disse, esboçou essa contida ambição, a não ser o administrador diocesano, a quem coube assegurar a gestão da Diocese nos últimos 13 meses.

No dia 20 de outubro, numa entrevista ao FAIAL GLOBAL, Helder Fonseca Mendes, declarou o seguinte: «Do ponto de vista da fé vejo a missão como sendo do mais bonito que há. O bispo é o sucessor dos apóstolos, o episcopado é a plenitude do Sacramento da Ordem, do ponto de vista teórico não me faltam razões…»

O tempo de espera, de setembro de 2021 a novembro de 2022, por um novo bispo causou alguma impaciência na Diocese, provocando, inclusivamente, declarações públicas de insatisfação, a que não é hábito assistir por parte de responsáveis da Igreja Católica.

A crise – palavra que Armando Domingues usou e sublinhou numa entrevista ao programa radiofónico «Igreja Açores» no passado domingo – que afeta a comunidade católica, nomeadamente a pedofilia, potencia um clima de instabilidade, para cuja minimização a falta de um líder não contribuiu.

O anúncio da vinda do beirão Armando Domingues foi, neste contexto, só por si, um fator de descompressão. Embora desconhecido, as primeiras notícias sobre a sua personalidade causaram boa impressão e até uma imagem de jovialidade, traduzida nas fotografias que começaram a circular nas redes sociais, funcionou a favor de uma decisão que poderia não ser, em resultado do contexto atrás descrito, bem aceite.

FAIAL GLOBAL foi à procura de reações sobre o novo bispo, pedindo a três padres do Faial e do Pico que se pronunciassem.

«Muitos se alegram com a vinda do bispo, mas será que estão interessados em ouvi-lo com atenção e fazer caminho com ele?»

BRUNO ESTEVES RODRIGUES, pároco dos Cedros, Ribeirinha e Pedro Miguel; delegado do Serviço Diocesano de Evangelização, Catequese e Missões e diretor espiritual da Cúria Maria Mãe da Igreja da Legião de Maria

Após um ano de espera eis que finalmente chega a nomeação do novo bispo. À medida que o tempo passava, a ansiedade também aumentava. Nunca tinha passado pela experiência de sede vacante. Não só nós os padres sentíamos a falta do bispo, mas também os leigos. Depois deste longo tempo de espera, foi-nos revelado o nome do quadragésimo bispo de Angra. Claro que a notícia foi acolhida com grande alegria. A minha reação imediata foi repicar os sinos. Dia 3 de Novembro celebrava a nossa Diocese 488 de fundação e o presente chegou no dia seguinte! Estes são tempos de mudança, de purificação e de crescimento. O novo pastor tem muitos desafios pela frente. A acredito que traz consigo muita vontade de nos conhecer (a nossa realidade arquipelágica), e de fazer caminho connosco. Do futuro pastor diocesano esperamos acolhimento, escuta, compreensão. A Igreja tem de estar atenta aos sinais dos tempos e às prioridades urgentes do Evangelho. Em breve celebraremos 500 anos. 5 séculos de Evangelização será ocasião para nos repensarmos e nos refazermos à maneira de Jesus. Desejo que aquele que o Senhor nos envia traga consigo essas preocupações. Temos de combater a apatia de clero e leigos, o clericalismo, a “paroquialite aguda”. Muitos se alegram com a vinda do Bispo, mas será que estão interessados em ouvi-lo com atenção e fazer caminho com ele? Não podemos ver o bispo apenas como uma figura decorativa ou como aquele que só é preciso para Crismar. São Cipriano de Cartago escreveu: “onde está o Bispo, aí está a Igreja”. Ser Igreja, não se coaduna com individualismo, comodismo ou “clubismos”. Na perspectiva de fé, nada acontece que não seja pela mão de Deus. Este é o Pastor que vem em nome do Senhor para fortalecer e animar a nossa fé. Não podemos cair no pessimismo que muitas vezes nos mordisca. Certamente que aprenderemos muito com D. Armando!

«A vinda de um novo Bispo leva-nos a olhar o futuro da Igreja açoriana com novidade e esperança»

MARCO MARTINHO, pároco da Matriz da Madalena e de São Mateus; reitor do Santuário Diocesano do Senhor Bom Jesus e ouvidor eclesiástico do Pico

Depois de mais de um ano de espera, foi com imensa alegria que recebemos a notícia da nomeação do Sr. D. Armando Esteves Domingues para 40.º Bispo de Angra. A vinda de um novo Bispo leva-nos a olhar o futuro da Igreja açoriana com novidade e esperança. Novidade porque ainda não conhecemos o nosso novo pastor e tal como ele o disse na primeira mensagem endereçada à diocese, será sua prioridade conhecer-nos e dar-se a conhecer e tendo presente que a vida da Igreja terá sempre que encarnar a novidade do Evangelho no hoje da nossa vida é à sua luz que queremos viver este tempo novo que nos leva a olhar com esperança os caminhos diocesanos que a partir de agora vamos trilhar com o nosso novo pastor.

«[Esperamos] que haja mais proximidade, humildade, familiaridade e que [o novo bispo] seja o rosto da esperança que nos faltou nos últimos anos»

PAULO SILVA, pároco das Angústias e Feteira e capelão da Santa Casa da Misericórdia da Horta

A chegada do novo Bispo aos Açores enche de alegria os diocesanos da diocese de Angra e renova a esperança que o pastor desperta junto do seu rebanho. A nomeação de D. Armando para Bispo de Angra põe na ordem do dia as grandes preocupações da diocese e deixa-nos expectantes quanto às respostas que um homem simples e humilde, ao jeito do Papa Francisco, pode ajudar a encontrar. D. Armando tem pela frente grandes questões para se ocupar, algumas gerais como a pedofilia e o esvaziamento das comunidades, como algumas particulares da nossa diocese como a caminhada sinodal diocesana que está muito arrefecida e confusa, a falta de religiosos na diocese, a quebra de vocações e a lastimável situação do Seminário Episcopal de Angra, a falta de sentido de presbitério que acontece com alguns presbíteros, o arrefecimento da fé nas famílias e as consequências para as novas gerações e a falta de um sério pensamento sobre as estruturas e o modo de fazer pastoral num tempo diferente que reclama uma nova maneira de ser Igreja. Devemos dar as boas-vindas ao novo Bispo e esperar que haja mais proximidade, humildade, familiaridade e que ele seja o rosto da esperança que nos faltou nos últimos anos. |x

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