Foi encontrado o vestígio mais antigo até hoje localizado na ilha do Faial

NO ÂMBITO da iniciativa da Associação de Turismo Sustentável do Faial denominada «Faial: Descobrir a História, Pensar o Futuro», que está em curso, realizou-se na passada semana, na igreja das Angústias, a apresentação pública dos resultados de uma intervenção arqueológica na Ermida de Santa Bárbara. A divulgação dos trabalhos ali realizados esteve a cargo do diretor do Museu da Horta, José Luís Neto e do faialense Tiago Simões da Silva [ na fotografia ], investigador do Centro de Humanidades da Universidade Nova de Lisboa / Universidade dos Açores (CHAM) e responsável pelo projeto Horta Histórica, cujo propósito é a sensibilização para os assuntos da História e do património.

As escavações em Santa Bárbara comprovaram «a ocupação daquele local desde o povoamento», explicou Tiago Simões da Silva ao FAIAL GLOBAL e proporcionaram a descoberta de vestígios da Quinta de Santa Bárbara, até agora desconhecida.

Falando a este “blog” sobre a importância da História e do património, o historiador disse que, tal como nós guardamos e preservamos, por exemplo, as fotografias das nossas famílias, também a comunidade deve fazer o mesmo em relação à memória coletiva.

TIAGO SIMÕES DA SILVA: Há vários locais com interesse arqueológico nesta ilha e a lista continua a crescer

– O interesse pela pesquisa arqueológica na ermida de Santa Bárbara é antigo ou surgiu agora?

– O Padre Júlio tinha essa ideia, pois era (e é) possível que haja algum vestígio ligado aos povoadores, como uma pedra tumular, e, independentemente disso, é um dos raros locais que temos ligado ao povoamento e o único que conseguimos relacionar diretamente com um casal povoador.

– Que trabalho arqueológico foi lá realizado e por quem?

– O trabalho foi realizado pelo Museu da Horta, com o apoio da Direção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC) e de entidades locais (paróquia das Angústias, Junta de Freguesia das Angústias e Câmara Municipal da Horta), coordenado no terreno pelo arqueólogo Luís Borges e realizado com a ajuda de um grupo de voluntários. Esta intervenção realizou-se como actividade prática de um curso de arqueologia ministrado pelo Museu da Horta durante vários meses, enquadrando-se também no programa da instituição de promover escavações arqueológicas como forma de sensibilizar o público para a importância desta área.

– As descobertas feitas têm valor? A investigação vai continuar?

–  Há ainda muito para fazer e descobrir em Santa Bárbara, mas na sondagem que foi possível fazer foi encontrado o vestígio mais antigo até hoje localizado na ilha, um fragmento de um prato de cerâmica datado do final do século XV ou inícios do XVI, que comprova a ocupação daquele local desde o povoamento. Graças a esta intervenção, tanto a nível arqueológico como de análise da zona em volta e de pesquisa em arquivo, conseguiu-se aprender muito sobre a Ermida de Santa Bárbara, de que havia até agora pouquíssima informação. Além disso, descobriu-se as ruínas de uma casa nobre do século XVII ou XVIII num terreno adjacente, até agora completamente desconhecida e que passará a constar no inventário do património local e regional. Será necessário aprofundar a investigação, mas foi possível apurar que se trata da até agora desconhecida Quinta de Santa Bárbara, que no início do século XIX pertencia à Família Brum (proprietários, entre outras coisas, da Quinta de São Lourenço).

– Sabe-se que a atividade cultural precisa de financiamento. Neste caso o financiamento está assegurado?

– Foi assegurado o financiamento necessário para a intervenção realizada em julho passado, cujo relatório será agora remetido à DRAC, incluindo já a discussão pública ocorrida na apresentação, na sequência da qual a entidade proprietária (paróquia das Angústias) decidirá qual o próximo passo a tomar. Quer se continue apenas a investigação arqueológica ou se planeie uma intervenção maior, depois se verão os recursos necessários.

– Os vestígios da ermida de Santa Cruz, descobertos aquando da obra no adro da igreja das Angústias e da velha Matriz, durante a obra do Largo do Relógio, são dois casos que nunca ficaram bem esclarecidos perante a opinião pública. Afinal, tinham, ou não, importância arqueológica? Se sim, essas ruínas estão irremediavelmente perdidas?

–  São situações muito distintas. No caso do Relógio sabia-se que o local tinha sido ocupado durante três séculos pela primitiva igreja Matriz e que aquele local tinha interesse arqueológico. A obra feita assentou em cima desses vestígios, necessariamente terá feito algum prejuízo, mas, na essência, os alicerces da igreja ainda lá estão, assim como uma parte significativa dos enterramentos da vila da Horta durante 300 anos. Como ficou explicado na altura no relatório da tutela, quando chegar ao fim de vida a estrutura que lá se fez e for retirada será possível fazer uma intervenção arqueológica no local. Em relação às Angústias, foi feito o acompanhamento arqueológico da obra do adro desde o início e foram feitos achados, que podemos organizar em três conjuntos principais: vestígios da primitiva Ermida de Santa Cruz (século XV/XVI), parte dos alicerces da primeira igreja paroquial (final do século XVII) e um vasto conjunto de enterramentos do século XIX. Os elementos construídos foram devidamente registados e estudados e novamente enterrados, os vestígios móveis foram retirados e estão à guarda do Museu da Horta.

– No Faial existem muitos lugares com interesse arqueológico já conhecido, ou que se “suspeita” que possam vir a ter?

– Existem vários locais conhecidos, de que são talvez exemplos mais óbvios os jardins Florêncio Terra e da Praça da República, onde existiam, respetivamente, os conventos de São João e da Glória. Mas há muitos outros locais na ilha assinalados e a lista continua a crescer, como aconteceu agora com a descoberta da Quinta de Santa Bárbara, que merece um estudo pelo que lá está, mas também porque é possível que esteja no local do primitivo assentamento do casal fundador da ermida e só um estudo arqueológico poderá dar-nos mais informação.

– Por vezes nota-se uma certa descrença das pessoas na importância das “coisas” da cultura, especificamente da arqueologia, com o argumento de que “são coisas do passado!” Como historiador, o que é que diria a quem o colocasse perante essa questão?

– Há muito que se pode dizer sobre isso e tudo o que se tem feito nos últimos anos, tanto a nível de iniciativas individuais como institucionais e públicas, vai no sentido de tentar ensinar a importância destas questões. Vou responder como respondi a alguém que ainda há uns dias me colocou essa mesma questão: a comunidade preserva os vestígios da sua memória coletiva tal como guardamos fotografias e objetos de família, cada um de nós, como indivíduo, família ou grupo, guardamos a nossa memória pessoal ou coletiva, como comunidade devemos fazer o mesmo. O grande desafio – e que constitui o papel dos agentes da História e do Património – é precisamente passar essa mensagem. |x

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