«O Museu de Arte Sacra da Horta está à esmola»

Durante a conferência de imprensa [ na fotografia,] em que foi anunciado, no Dia dos Bens Culturais da Igreja Católica, hoje assinalado, que o Museu de Arte Sacra da Horta reuniu todo o seu espólio em espaço próprio, o respetivo diretor lembrou que a instituição é a única do género na Diocese, apesar de, por falta de apoios governamentais, estar «à esmola».
Com uma coleção «grande e valiosa» e uma narrativa específica, através de exposições permanentes e temporárias, o Museu de Arte Sacra da Horta concluiu, em conjugação com o Museu da Horta, a transferência da totalidade do seu espólio para a igreja do Carmo. Apenas algumas reservas se encontram na Matriz.
A sala de arte sacra do Museu da Horta deixa de existir e vai ser criado um roteiro dos museus da cidade, perspetivando-se a colaboração entre os dois Museus no campo da conservação e restauro.
José Luís Neto, diretor do Museu da Horta, durante o encontro com os jornalistas, elogiou o padre Marco Luciano Carvalho pelo «duro empreendimento de montar o sonho sonhado» por monsenhor Júlio da Rosa, que apelidou de «pai-fundador» do Museu de Arte Sacra da Horta.
Tudo começou em 1963 com a criação do Museu de Arte Sacra e Etnografia Religiosa. Em 2008, quando as peças de arte sacra andavam dispersas em vários locais, alguns com pouca ou nenhuma dignidade, o bispo de Angra D. António Sousa Braga nomeou Marco Luciano Carvalho para a tarefa de recuperação do património do Carmo e do Museu de Arte Sacra. «Estávamos a falar de algo que era gigantesco e houve que começar por uma ponta: reunir o espólio da igreja do Carmo e depois o outro espólio».
Hoje, o padre Marco Luciano, com alegria estampada no rosto, terminou uma fase importante deste empreendimento, mas, receoso pelo futuro, carregou o semblante e lançou um grito, senão de revolta, pelo menos de chamada de atenção para o perigo de todo o trabalho realizado até agora se perder em velhos quartos poeirentos, ao gosto das aranhas que se penduram nos braços dos santos que deixaram os altares.
A geração presente, que Luís Neto disse viver um tempo melhor – embora «urgente» – do que o das décadas de 1950, 60 e 70, durante as quais Júlio da Rosa foi juntando «coisas antigas que não serviam para nada», recorda, certamente com saudade, a reação que se tornou habitual na comunidade faialense perante quaisquer tarecos que se encontrassem pelo caminho: “O padre Júlio fica com isso!”
Essa mesma geração nunca terá acreditado, perante o abandono atroz que sofreram durante largos anos, que o Museu de Arte Sacra e a igreja do Carmo voltassem a ter o papel que presentemente desempenham.
Sem comparações, é justo colocar os nomes de Júlio da Rosa e Marco Luciano numa exposição que mostre o denodo com que ergueram e reergueram estas duas peças da identidade faialense e, particularmente, hortense.
«ESTE É UM MUSEU DINÂMICO»
– Daqui para o futuro o que é que vai ser feito com este espólio?
– O Museu de Arte Sacra tem objetivos específicos e uma narrativa própria, presente no trabalho iniciado há um ano, que começa com a primeira sala, que nos faz remontar aos Descobrimentos, onde nos apercebemos da presença da Igreja na ilha do Faial desde essa altura, passando pela celebração do culto, devoções pessoais, devoções comunitárias, igrejas e conventos que existiam. Mas temos outras salas, ou seja, um circuito, através do qual tentamos fazer uma narração.
– Tem havido também exposições temporárias…
– Sim, temáticas. Fizemos uma sobre Maria e a arte; outra sobre o cardeal D. José da Costa Nunes, que foi pedida pela Ouvidoria do Pico para ser exposta no Museu dos Baleeiros; ainda outra com as custódias da ilha do Faial.
«O Museu de Arte Sacra da Horta não pode ser um espaço ou um quarto, onde se coloque lá dentro 1.500 peças e pronto, temos um museu, um tesouro muito valioso. Não é isto que queremos, nem é isto que deve ser um museu de arte sacra hoje.» (Marco Luciano Carvalho)
– Como é que o senhor diretor vê o papel do Museu?
– O Museu de Arte Sacra da Horta não pode ser um espaço ou um quarto, onde se coloque lá dentro 1.500 peças e pronto, temos um museu, um tesouro muito valioso. Não é isto que queremos, nem é isto que deve ser um museu de arte sacra hoje.
– Então o que é que deve ser?
– O Museu de Arte Sacra deve ser um lugar onde também as paróquias tenham algumas peças em exposição, nem que seja temporariamente, para dá-las a conhecer.
– Está subjacente às suas palavras uma ideia de dinamismo.
– Este é um Museu dinâmico, em que as peças têm um fim específico, pois não estão aqui em exposição permanente, fechadas e nunca saem daqui. Por exemplo, as alfaias litúrgicas saem para as celebrações. As peças que foram feitas para um determinado fim continuam a ser utilizadas para esse fim nas celebrações e rituais.
– Como é que o Museu se mantém do ponto de vista económico?
– O Museu não tem forma de se manter economicamente. O Museu tem uma grande coleção, que precisa ser reconhecida pela Direção Regional dos Assuntos Culturais e integrada nas coleções visitáveis da Região e ter, efetivamente, apoio, para que possamos trabalhar e termos o que é necessário para que tudo isto esteja ao serviço da comunidade.
– Pode estar em causa a continuidade do Museu de Arte Sacra?
– Isto traz-nos grandes responsabilidades. Como é que vamos continuar a fazer com que o Museu seja possível? Até agora temos tido a ajuda da autarquia, que tem sido um parceiro importantíssimo. O Museu da Horta é também um parceiro indispensável…
– … mas falta ainda qualquer coisa.
– Nós temos uma coleção grande, valiosa e um conjunto de peças muito interessante e somos o único Museu da Diocese.
– Falta reconhecimento?
– Precisamos de nos sentar com a Direção Regional dos Assuntos Culturais e ver como é que se pode tornar isto tudo viável no futuro. Não serve de nada termos as peças, as exposições e depois não haver condições para mantê-las.
– E o Museu da Horta não pode ajudar?
– Pode, mas o próprio Museu da Horta precisaria de mais conservadores-restauradores para poder chegar ao Museu de Arte Sacra com alguém para este serviço.
– Portanto, “a bola” está do lado de lá.
– O Governo e a Direção Regional têm de olhar para o Museu de Arte Sacra com outros olhos. Até hoje não tive a visita, neste espaço, do diretor regional dos Assuntos Culturais. Tendo em conta o trabalho que está feito no Museu é necessário inverter esta situação.
– O Museu de Arte Sacra não recebeu nenhum apoio do Governo?
– O Museu tem tido o apoio da autarquia e de mecenas. Do Governo teve um apoio para a instalação, mas não tem um apoio permanente. Na altura, o senhor presidente do Governo disse que seria importante esta coleção ser reconhecida como uma coleção de interesse, visitável, no contexto dos museus Açores, para que depois se pudesse criar um protocolo a fim de haver um financiamento.
– Resumindo, o Governo está em falta com o Museu de Arte Sacra.
– Como o senhor presidente do Governo disse, não fica bem o Museu de Arte Sacra da Horta estar à esmola. E neste momento está!
– Mas continua aberto.
– Se não for o apoio da Câmara Municipal, que nos permite ter uma pessoa para abrir a porta das 14 às 18 horas, de segunda a sexta-feira, o Museu fecha a porta amanhã. |x
[ Na fotografia de topo o padre Marco Luciano Carvalho, diretor do Museu de Arte Sacra da Horta ]


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