Obra da frente mar exige acompanhamento arqueológico
A ANTIGA MURALHA da “Rua do Mar”, que desapareceu após a construção da Avenida Marginal, na cidade da Horta e que ficou a descoberto com as obras em curso da frente mar, entre as traseiras do Banco de Artistas (Banco de Portugal) e o edifício das Finanças, poderá permanecer exposta, ao contrário do que está previsto no projeto.
A decisão foi tomada pelo presidente da Câmara Municipal da Horta, que solicitou «diligências junto do projetista, no sentido de ser apresentada uma ou mais propostas adequadas a deixar uma área da muralha visível, para valorização histórica e cultural do elemento arqueológico e a criação de um ponto de atração para residentes e turistas».
Uma nota informativa do Município diz que a questão foi abordada «no decurso de uma reunião na obra», na passada terça-feira e lembra que, segundo o projeto, «a muralha não seria deixada à vista, tendo sido definido que a mesma seria protegida e soterrada novamente». No entanto, acrescenta o texto, «o Município pretende preservar o seu valor histórico e enriquecer o local».
FAIALENSES MOVIMENTAM-SE
A opinião pública faialense, através das redes sociais, vem, há semanas, questionando o assunto, havendo quem defenda a preservação da muralha antiga, mantendo-a à vista, com fins de usufruto pelos locais e visitantes e quem desvaloriza essa opção.
Embora sem divulgação pública alguns cidadãos também se têm movimentado junto das autoridades locais e regionais chamando a atenção para o assunto.
O historiador Tiago Simões Silva acaba de remeter ao diretor regional dos Assuntos Culturais um e-mail manifestando a sua preocupação, que assenta, não tanto na preservação da muralha, mas na necessidade de as obras em curso serem acompanhados por um arqueólogo.
«Mais importante do que sabermos que a muralha está lá, é não sabermos o que ali pode esconder-se», explica Simões Silva, sublinhando que é importante verificar se ali há artefactos ou vestígios das diversas passagens que existiam ao longo da zona ribeirinha da Horta para acesso ao mar. Ou até – diz – algumas pedras trabalhadas que possam ter pertencido a antigos monumentos da cidade.
No e-mail dirigido ao diretor regional José Brito Ventura, o historiador faialense realça «o interesse histórico da área, correspondente à primitiva frente ribeirinha e antiga estrutura defensiva da cidade – cuja muralha existe soterrada ao longo da avenida marginal -, o que, por si só, justificaria o acompanhamento arqueológico da obra», ao que «acresce o facto de estar nas áreas de protecção de dois imóveis classificados como de Interesse Público» (Banco de Artistas/Banco de Portugal e imóvel onde funciona a Farmácia Lecoq).
Nos termos legais, Tiago Simões Silva elaborou uma comunicação formal sobre «a ocorrência de operação urbanística em local de comprovado interesse arqueológico e inserido em áreas de protecção de imóveis classificados, na qual deverá urgentemente ser garantido o acompanhamento arqueológico, sob risco de prejuízo grave para o património regional, cuja perda está já em curso».
A Câmara Municipal, na nota já referida, informa que «a 12 de maio de 2022, comunicou à Direção Regional dos Assuntos Culturais a presença da referida muralha, e o decurso dos trabalhos de instalação de caixas de saneamento básico na Rua Conselheiro Miguel da Silveira, tendo solicitado o devido acompanhamento arqueológico».
Perante isto, espera-se que a Direção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC) atue, não deixando de ser estranho que ainda não o tenha feito, pois, conforme sublinha Simões Silva, estão, presentemente, três arqueólogos na Horta: um no Observatório do Mar dos Açores (OMA), um na Biblioteca João José da Graça e outro no Museu da Horta, que é o respetivo diretor. Dois destes arqueólogos estão, até, sob alçada da DRAC. |x
ANTIGA MURALHA DA RUA DO MAR AGORA (RE)DESCOBERTA e fotografada por Paulo Gilberto Castro, que tem sido um paladino da preservação deste elemento patrimonial


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