Isabel Albergaria diz ser inexplicável recusa da classificação do imóvel

NÃO HÁ, SEGURAMENTE, nenhum faialense que alguma vez não tenha contemplado, ainda que à distância, a fachada da Casa do Pilar, ou Palacete do Pilar, incrustado na Lomba que lhe deu o nome, sobranceira à Horta. Os mais novos interrogar-se-ão sobre o que esconderá uma velha ruína, abandonada, mas que ainda deixa transparecer uma imaginável opulência; os mais velhos, recordarão estórias contadas sobre receções e serões nos seus salões, onde a alta sociedade hortense se encontrava. Todos, com certeza, um dia terão desejado subir à Casa do Pilar para desfrutar do panorama sobre a cidade que se adivinha dali deslumbrante. Poucos lá terão ido e muitos dela já se esqueceram.

Na edição desta quarta-feira, 21 de setembro, a professora universitária Isabel Albergaria arranca do ostracismo a que a consciência coletiva e os poderes públicos votaram a Casa do Pilar, interrogando-se sobre se «será aceitável» a «fatalidade» da sua condenação. «Tímidas tentativas para resgatar o imóvel ao seu abandono histórico têm sido, até agora, infrutíferas», lamenta esta especialista em história da arte e património.

Isabel Albergaria recorda que a Casa está incluída na lista das EP (Edificações a Preservar) do Plano de Urbanização da Cidade da Horta (aprovado em 2010) e foi «alvo de um recente pedido de classificação inexplicavelmente recusado por parte da tutela».

Dizendo que a Casa do Pilar «parece condenada ao desaparecimento», realça que se trata «de um dos conjuntos de casa e jardim mais singulares e de elevado valor cultural dos Açores».

DESDITOSO FADO

«O ambiente eclético e cosmopolita desta sofisticada quinta de recreio constituiu, sem margem para dúvidas, um caso absolutamente singular no panorama arquitetónico e paisagístico açoriano, mais relacionado com as quintas de recreio da periferia lisboeta do que com as tradicionais quintas rústicas de funções produtivas existentes nas ilhas», esclarece Isabel Albergaria.

Manuel Inácio de Sousa Sarmento (1739-1801) foi quem mandou construir a Casa do Pilar, segundo a investigadora. Era doutor pela universidade de Coimbra, vereador da Câmara da Horta e negociante e tinha dotes literários, ao ponto de se destacar no contexto do arquipélago, conforme explica Albergaria.

A Casa do Pilar viveu «dias de glória» pela mão de Manuel Inácio de Sousa Sarmento «durante quase duas décadas», com «saraus culturais e festas elegantes, envolvendo música, canto e recitativos», escreve a historiadora.

Morreu o primeiro proprietário, a construção degradou-se, sendo recuperada apenas no princípio do século XX. Sobreveio um incêndio, de que as atuais gerações são testemunhas e nada voltou a ser como dantes.

No artigo do Açoriano Oriental citado Isabel Albergaria faz uma pormenorizada descrição arquitetónica do imóvel, dizendo-se surpreendida pela originalidade e qualidade «apesar do [seu] desditoso fado». |X|

Na fotografia [de Ruben Furtado] a Casa do Pilar: «Um dos conjuntos de casa e jardim mais singulares e de elevado valor cultural dos Açores»

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