<-| ESCRITO NO FACEBOOK
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José Manuel Souto Gonçalves
Durante muitos anos fiz títulos de notícias de jornais e acho que, regra geral, não me saí mal.
Procurei aplicar sempre as regras dos manuais de jornalismo e o que fui aprendendo com colegas de profissão e também com a experiência.
O Sidónio Bettencourt disse-me uma vez que o jornalista deve “perder” mais tempo a elaborar o título do que a escrever a reportagem.
O título nunca deve prometer o que o texto não dá, sendo certo que no título não se pode dizer tudo.
É no compromisso entre estas duas premissas que se deve trabalhar.
Compreendo, perfeitamente, a dificuldade que existe, por vezes, na redação de um título, o que não quer dizer que não veja, outras tantas ou mais vezes, títulos mal feitos, ou pior do que isso, mal intencionados, seja para vender o produto, seja para beneficiar ou prejudicar alguém.
A comunicação social noticiou recentemente o registo de três sismos nas proximidades do Corvo com magnitude superior a 5 graus na Escala de Richter cuja zona epicentral se situou a mais de 400 quilómetros daquela ilha.
O jornal online Observador titulou, tal como outros órgãos da imprensa, rádio e televisão: “Sismos acima de 5.0 de magnitude perto da ilha do Corvo”.
Li, nas redes sociais, uma série de comentários condenatórios, por alegado alarmismo, a este e outros títulos semelhantes.
Eu, porém, acho o título bem feito, porque a informação sobre sismos divulgada pelos organismos competentes, nomeadamente o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, apresenta sempre como ponto de referência a localidade mais importante que se encontra mais próximo do epicentro.
Além disso, em pleno Oceano Atlântico, 400 ou 500 quilómetros é pouco (menos, cerca de 100 quilómetros, do que a distância entre o Corvo e Santa Maria, por exemplo).
Finalmente, sismos com a magnitude 5 da escala de Richter são sismos muito grandes. Bastaria terem ocorrido, hipoteticamente, na zona de frequente atividade sísmica a oeste do Faial (à volta de 30 quilómetros fora dos Capelinhos), para que as suas consequências entrassem no domínio da Escala de Mercalli Modificada (que avalia os efeitos no terreno). Então, talvez estivéssemos perante estragos significativos.
Na verdade, não foi o caso, mas Deus nos livre disso!
O que, em resumo, quero dizer é que a importância dada pelas notícias e pelos títulos aos sismos referidos foi adequada, porventura “tocando” um certo alarmismo, de que os comentadores do Facebook se queixaram, embora, na verdade, ao não haver algum dramatismo, com conta, peso e medida, bem entendido, tudo teria passado despercebido.
O papel do jornalista, afinal, é chamar a atenção e é muito fácil atirar-lhe as culpas para cima, quando dá jeito; por mera diversão; ou, afinal, para conseguir algum protagonismo através de uma atitude pseudo-moralista. Tudo o que mensageiro (leia-se redator) não pode (não deve) ser. |.|

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