MAPA LARANJA CONFIRMADO [FOTOGRAFIA: DIREITOS RESERVADOS]
Enquanto na autarquia da Horta o PS não dá tréguas, já lá vão mais de 30 anos, para o parlamento regional o PSD faialense bate o pé ao poderio socialista
Seg. 26 out. 2020 – 21h56 | Texto: Souto Gonçalves
O PSD reforçou a sua posição no Faial na 12.ª eleição da Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores (ALRAA) que ontem decorreu. Há quatro anos os sociais-democratas já tinham recuperado de duas derrotas eleitorais consecutivas neste círculo eleitoral (2008 e 2012), depois de, em 2004, em coligação com o CDS, levarem o PS de vencida por uma unha negra (27 votos) e de em 2000 verem José Decq Mota roubar-lhes um deputado nesta ilha. Antes disso, quando terminou o reinado de Mota Amaral (concluído por Madruga da Costa), em 1996, ocorrera o maior terramoto político dos Açores na era da autonomia político-administrativa, com o advento do império de César, a que o Faial não escapou.
Desde que passou a existir maioria absoluta socialista nos Açores, com exceção do período 2008-2012, ora São Jorge, ora Graciosa, ora Flores, ora Corvo e ora Faial também, têm manchado o mapa cor-de-rosa com outras tonalidades. Mas é a Ilha Azul que persiste em destoar num tom alaranjado.
Andava no ar uma interrogação sobre a resposta dos faialenses ao que era voz comum sobre o estado de desenvolvimento da ilha. E a verdade é que a máxima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa “é necessário que alguma coisa mude para que fique tudo na mesma” parece ter aplicação, em parte, à realidade pós-eleitoral.
Ficaram, na mesma, dois deputados para cada lado (PSD e PS), porém, a perda da maioria absoluta à terceira tentativa de Vasco Cordeiro, associada ao refrescamento do espectro [parlamentar] composto pelos partidos mais pequenos, potenciam o latente desejo de mudança no panorama político regional, de que, de facto, o eleitorado faialense se tornou um exemplo paradigmático, com significativo mérito para o partido vencedor da disputa local.
No Faial, aliás, emergiram candidaturas (CDU, CDS, BE…) que, pela sua qualidade, são um bom presságio para a recuperação de uma importância política decadente, que não tem encontrado protagonistas capazes de lhe pôr travão.
É exemplo da falta de uma figura liderante a favor do Faial o poder municipal subserviente aos interesses partidários, que, paradoxalmente, tem recolhido apoio em sucessivas votações.
RESULTADOS ELEITORAIS NO FAIAL (1976-2020)

LEGENDA: PSD, LINHA ESCURA; PS, LINHA CLARA
| ANO (1) | PSD (2) | DIF. (3) | PS (2) | DIF. (3) | DIF. (4) |
| 1976 | 5.287 | – | 2.725 | – | 2.562 |
| 1980 | 5.137 | -150 | 2.580 | -145 | 2.557 |
| 1984 | 4.317 | -820 | 2.055 | -525 | 2.262 |
| 1988 | 3.682 | -635 | 2.940 | 885 | 742 |
| 1992 | 3.801 | 119 | 3.212 | 272 | 589 |
| 1996 | 3.211 | -590 | 3.435 | 223 | -224 |
| 2000 | 2.125 | -1.086 | 2.490 | -945 | -365 |
| 2004 | 2.785 | 660 | 2.758 | 268 | 27 |
| 2008 | 2.093 | -692 | 2.421 | -337 | -328 |
| 2012 | 2.629 | 536 | 3.052 | 631 | -423 |
| 2016 | 2.695 | 66 | 2.133 | -919 | 562 |
| 2020 | 2.893 | 198 | 2.137 | 4 | 756 |
| TOTAL | 40.655 | – | 31.938 | – | 8.717 |
LEGENDA: (1) ANO DA ELEIÇÃO (2) RESULTADO (3) DIFERENÇA DA ELEIÇÃO ANTERIOR DO MESMO PARTIDO (4) DIFERENÇA ENTRE PARTIDOS EM CADA ELEIÇÃO
No Faial o PSD venceu sete eleições para a ALRAA, enquanto o PS ganhou quatro. Em 2004 a vitória pertenceu a uma coligação entre o PSD e o CDS.
Nas 12 legislaturas (período de quatro anos a que corresponde o mandato dos deputados) o círculo eleitoral do Faial repartiu quase sempre os quatro deputados que lhe são atribuídos pelos dois maiores partidos concorrentes, PSD e PS.
A exceção ocorreu no ano 2000, quando o cabeça-de-lista da CDU, José Decq Mota, conseguiu a eleição à custa do PSD, que perdeu um deputado, ficando só com um e o PS com dois.
Nas três primeiras eleições (1976, 1980 e 1984) o PSD obteve três mandatos, contra um do PS. Depois, em 1988, 1992 e 1996, PSD e PS elegeram dois deputados cada qual, embora haja a notar que em 1988 e 1992 o PSD ganhou a eleição, ao passo que o PS venceu em 1996.
Em 2004, em coligação com o CDS, o PSD voltou a ganhar as eleições, elegendo dois deputados, enquanto o PS elegeu os outros dois.
Em 2008 e 2012 inverteram-se as posições quanto à vitória no ato eleitoral, mas a distribuição dos mandatos continuou igual.
Nas últimos dois escrutínios (2016 e 2020) manteve-se a paridade, funcionando, de novo, a alternância entre PS e PSD
É curioso que, no Faial, na, até agora, segunda metade da vigência da autonomia constitucional dos Açores, uma das mais invocadas qualidades da democracia – a alternância – funcionou quase na perfeição, ao contrário do que tem ocorrido a nível regional.
Sintoma da hegemonia política que tende a expressar-se nos Açores é a maior votação de sempre obtida por um partido nesta ilha, embora nunca mais igualada e verificada em 1976: mais de cinco mil votos para o PSD, que atiraram o PS para a segunda posição com menos de metade dos votos.
Nas três primeiras eleições este volume de votos e respetiva porporção entre os dois maiores concorrentes mantiveram-se, mas nos anos seguintes a tendência de equilíbrio entre as duas forças começou a consolidar-se.
De uma diferença entre PS e PSD de 2.562 votos, em 1976, passou-se para 27 somente, em 2004, ambas as vezes a favor dos sociais-democratas.
Há 32 anos e nove eleições nunca nenhum partido conseguiu distanciar-se mais do que 756 votos do outro, número atingido, precisamente, no passado domingo, pelo PSD.
Nas 12 eleições já realizadas para a ALRAA o PSD melhorou a sua própria votação, comparando com o escrutínio anterior, cinco vezes e piorou seis. O PS, ao contrário, logrou uma melhoria seis vezes e perdeu votos em cinco ocasiões.
A maior diferença nesta comparação com resultados da votação precedente pertence ao PSD, no ano 2000, quando caiu 1.086 votos. Nessa mesma eleição o PS perdeu 945 votos, também a sua maior queda. A razão é fácil de encontrar: foi nesta altura que José Decq Mota, da CDU, se elegeu, angariando votos, afinal, onde eles existiam.
Ainda quanto a votos recuperados, nos mesmos termos de comparação, o PSD alcançou a sua melhor performance em 2004, com 660 votos. Também aqui há uma explicação para o fenómeno: a coligação com o CDS.
Em 1988, com uma diferença de 885 votos, o PS bateu o seu recorde de recuperação. Aconteceu quando, pela primeira vez, ultrapassou, de forma clara, a barreira psicológica que o vinha separando do seu adversário de forma quase humilhante. Ficavam, assim, para trás, as votações em que o PS valia sensivelmente metade dos votos do PSD.
A menor recuperação aconteceu agora com o PS, que ganhou quatro votos em relação à sua votação de 2016, altura em que o PSD tinha obtido, em face da eleição de 2012, apenas mais 66 votos, sendo a segunda menor nesta contabilidade em que os partidos procuram superar-se a cada eleição, o que, como se vê, nem sempre conseguem. |x|


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